Dia dos Avós: conheça histórias que celebram o afeto e o respeito entre gerações
Especialistas destacam a importância do acolhimento na velhice e da identificação dos mais jovens com os laços familiares
Eles são os donos das melhores receitas de família, guardiões da memória e das histórias que nos ajudam a compreender quem somos. Quando a relação entre avós e netos é construída com afeto e respeito, todos saem ganhando. Para os avós, essa convivência representa mais do que companhia, é sentir-se útil, valorizado e ouvido. É ter a chance de compartilhar a sabedoria acumulada ao longo dos anos. Já para os netos, o vínculo com os avós é uma fonte de carinho, segurança e apoio emocional, um espaço que reforça o sentimento de pertencimento e identidade.
Essa troca entre gerações vai além do cuidado, ela também carrega um profundo impacto social e emocional, como destaca a geriatra Eliane Baião Guilhermino Alves, do HU-UFJF/Ebserh, em entrevista à Tribuna. Segundo ela, exercer o papel de avó ou avô é uma etapa significativa do ciclo da vida familiar, que contribui para a valorização da velhice e para o fortalecimento da identidade dos idosos. Nesse contexto, os avós se tornam elos fundamentais entre as gerações, preservando tradições, oferecendo apoio emocional e, muitas vezes, figurando como fortalezas dentro da estrutura familiar.
A psicóloga Fernanda Buzzinari, também do Hospital Universitário da UFJF, destaca que, mesmo diante das diferenças entre as gerações, marcadas por avanços tecnológicos e mudanças culturais, o vínculo entre avós e netos é uma das conexões mais ricas no desenvolvimento dos mais jovens da família. Para a profissional, quando há respeito, escuta e cumplicidade, essa relação se torna uma via de mão dupla, onde o aprendizado e o afeto fluem naturalmente e beneficiam ambos os lados.
O impacto positivo é real. Estudos mostraram que crianças com vínculos próximos aos avós apresentam maior autoestima, menos problemas de comportamento e habilidades sociais mais desenvolvidas. A pesquisa da Universidade de Oxford, que acompanhou 1.600 jovens, revelou que aqueles que convivem de forma mais intensa com seus avós relatam níveis mais altos de felicidade e bem-estar. Isso se deve, em grande parte, ao suporte emocional, criando uma rede de segurança afetiva essencial para o crescimento saudável dos netos.
Mas não são apenas os mais novos que ganham. A convivência também representa um importante fator de proteção para os idosos, sobretudo os que já se aposentaram ou enfrentam limitações de saúde. Estar presente na vida dos netos, participar de momentos do cotidiano e compartilhar histórias e experiências ajuda a combater a solidão e a prevenir quadros de depressão. Atos simples, como cozinhar juntos ou dividir a rotina de um filme ou uma conversa, podem se tornar pilares de um vínculo que fortalece emocionalmente todas as gerações envolvidas.
Avós da geração Z
Pensando nessa relação entre gerações e em celebração ao Dia dos Avós, comemorado no último sábado (26), data que homenageia Santa Ana e São Joaquim, reconhecidos como os avós de Jesus, a Tribuna escutou duas histórias que ilustram a força desse laço. Na primeira, conhecemos João Roberto e Maria Regina que compartilham com a neta Nicolli hobbies que resistem ao tempo. Já na segunda, acompanhamos a relação entre Maria Aparecida, carinhosamente chamada de Zizinha, e João, que para além do vínculo de avó e neto, são grandes amigos e confidentes.
Herdeira dos discos

“Meu filho e a namorada dele tinham 17 anos quando anunciaram que um bebezinho vinha por aí. Foi um susto, fiquei preocupado”, relembra João Roberto, mais conhecido como Bebeto, dono do famoso Museu do Disco. Já Maria Regina, sua esposa, conta que, desde o início, comemorou. O casal tem dois filhos, e a neta Nicolli é filha do primeiro.
Apesar do susto, Bebeto conta que a chegada da neta, a única e, segundo ele, “a preferida da família”, foi muito especial. Desde pequena, Nicolli contou com a presença constante dos avós, seja nas apresentações escolares ou nas influências musicais. Aos cinco anos, já escutava Michael Jackson, e hoje, aos 18, cursa Cinema na UFJF, uma escolha que carrega muito da bagagem herdada da convivência com os avós.
Cercada de DVDs, CDs e muitos vinis ao longo da infância, Nicolli sempre se interessou pelos hobbies dos avós. Durante as férias, costuma ajudar na loja da família e já conhece boa parte dos clientes. Para incentivar a paixão da neta, o avô a presenteou com um toca-discos e, desde então, a coleção de vinis só cresce. “Os discos dos Beatles são os nossos favoritos”, conta.
Aprender a andar de bicicleta, nadar, fazer bolinha de chiclete e maratonar as animações da Barbie foram algumas das experiências vividas ao lado dos avós. Hoje, a troca continua e Nicolli também apresenta seus gostos à família, especialmente à avó, que topa todas as aventuras. Juntas, já foram a shows de Taylor Swift e Bruno Mars, no Rio de Janeiro. Entre discos, filmes e palcos compartilhados, o que permanece é o desejo de estarem sempre juntos vivendo, geração após geração, tudo aquilo que dá sentido à vida.
Onde mora o cuidado
A reportagem da Tribuna conheceu João Vitor Passarela e Maria Aparecida de Almeida, a Zizinha, por meio das redes sociais. Em um vídeo publicado no TikTok, João, de 22 anos, aparece maquiando a avó de 89. A cena, marcada pelo cuidado, logo chamou atenção. Estudante de Publicidade e Propaganda, ele costuma registrar em seu perfil momentos simples, mas cheios de significado ao lado da avó: os dois tomam café juntos, arrumam os cabelos e compartilham momentos cheios de companheirismo.
@jvpassarella_Foi aniversário de 90 anos da amiguinha, e ela só queria ir toda arrumada e de maquiagem 🤏🏻🥹♬ Home – Matthew Hall
Apesar de não ser adepta das tecnologias, Zizinha se diverte ao participar das brincadeiras no celular com o neto. “Os parentes de Brasília me veem no telefone e acham o máximo”, conta orgulhosa. Ela reconhece que, mesmo com a diferença de gerações, os dois aprendem muito no convívio juntos. “Passo para ele a bagagem da vida e, ao mesmo tempo, me sinto incluída na rotina agitada dele”, diz.
João é o único neto de Zizinha, que teve dois filhos. Ela não esconde a emoção ao relembrar a chegada dele: “foi uma bênção. Eu estava ansiosa, mas foi gostoso demais”. Mais do que companheiros de rotina, os dois são também confidentes. João compartilha que a avó foi uma das primeiras pessoas da família com quem se sentiu à vontade para falar sobre sua orientação sexual. Apesar do receio inicial por conta da diferença de gerações, ele foi acolhido com carinho e compreensão. “Ela sempre se mostrou aberta e disposta a entender o meu mundo”, destaca.
Há cerca de dois anos, João passou a morar com os pais, Paulo e Mônica, na casa com Zizinha, onde também vive com o tio. No início, eles brincam que houve o período de adaptação, mas hoje a convivência fortaleceu ainda mais os vínculos, especialmente durante as conversas “cabeça” que compartilham todas as noites. “A casa cheia me faz bem”, finaliza Zizinha, que vê na nova rotina uma chance de estreitar, ainda mais, os laços.

*estagiária sob supervisão da editora Fabíola Costa









