‘Brasiliana’, da Impulso Filmes, vence etapa nacional do maior festival de documentário musical do mundo

Documentário que reconstrói a memória apagada do grupo terá sua primeira exibição internacional em agosto, em Nova Iorque


Por Maria Luiza Guimarães*

08/07/2025 às 07h00

brasiliana
Cena do documentário (Foto: Reprodução)

O documentário “Brasiliana: o musical negro que apresentou o Brasil ao mundo”, dirigido por Joel Zito Araújo e produzido pela Impulso Filmes, produtora juiz-forana de audiovisual, foi o grande vencedor da competição nacional do In-Edit Brasil, Festival Internacional do Documentário Musical.

O anúncio foi feito em junho, durante a 17ª edição do festival que, segundo os organizadores, contou com número recorde de participantes. A produção foi realizada para o canal Curta! e celebra a importância da cultura negra na formação da identidade musical brasileira, a partir da trajetória do grupo Brasiliana, também conhecido como Teatro Folclórico Brasileiro.

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Equipe durante a premiação na etapa nacional do festival (Foto: Arquivo pessoal)

Em entrevista à Tribuna, o sócio da Impulso Filmes e montador do documentário, Daniel Couto, falou sobre a emoção de conquistar o prêmio na etapa nacional do maior festival de documentário musical do mundo. A seleção oficial reuniu produções de grande relevância, entre elas filmes sobre Cazuza, Hyldon, Baden Powell e Vinicius de Moraes.

Para ele, ser escolhido pelo júri oficial, entre tantos títulos, é significativo, especialmente por se tratar de um trabalho feito fora do eixo Rio-São Paulo e que levou mais de uma década para ser finalizado. O prêmio marca um momento importante na trajetória da produtora e abre caminhos para a circulação internacional da obra, já que garante sua exibição na mostra principal do festival, em Barcelona. O produtor destaca, ainda, que a conquista reforça a possibilidade de realizar projetos de grande alcance a partir do interior.

Reconstrução da memória

Foi mais de uma década entre pesquisa e produção até que o documentário saísse do papel. A longa trajetória se justifica pela complexidade da história e pela dificuldade de acesso ao acervo sobre o grupo Brasiliana, um conjunto artístico que, entre 1950 e 1973, ganhou destaque internacional com seu balé brasileiro e seus espetáculos folclóricos. Apesar do sucesso no exterior, o grupo sofreu apagamento no Brasil, especialmente por trazer aos palcos manifestações culturais como o candomblé, a macumba, o maracatu e a capoeira, expressões que, à época, não representavam a imagem que o país queria projetar.

Em entrevista concedida à Tribuna em dezembro, o diretor do filme, Joel Zito Araújo, afirmou que o silenciamento das raízes negras e indígenas sempre fez parte de um projeto político-cultural do Brasil. “A elite brasileira, mesmo antes da ditadura militar, já buscava esconder a população negra brasileira, em suas tentativas de ‘vender’ o Brasil culturalmente no exterior. Eles sempre tiveram vergonha do Brasil real, de nossa verdadeira composição racial em que, na maioria, somos negros e indígenas”, declarou.

Grande parte da memória do grupo Brasiliana permaneceu preservada apenas fora do país, o que tornou o processo de produção do documentário ainda mais desafiador. Segundo Daniel Couto, a vasta quantidade de materiais em arquivos estrangeiros, como os da BBC de Londres, da França, Grécia e Alemanha, exigiu uma curadoria cuidadosa. Escolher um recorte dentro de uma história tão rica e, ao mesmo tempo, lidar com a dificuldade de acesso a esse acervo, foi uma das partes mais marcantes da produção. 

Para ele, essa experiência reforça a percepção de que outros países valorizam mais a história da Brasiliana do que o próprio Brasil. “Isso dificulta que os brasileiros tenham acesso à própria memória. Me faz pensar sobre quantas outras histórias nossas estão espalhadas pelo mundo, esquecidas ou inacessíveis. Há um esforço enorme para resgatar o que é nosso — e isso por si só já é uma reflexão sobre identidade, pertencimento e reconstrução histórica.”

Próximas exibições

Lançado em novembro do ano passado, durante a abertura da 34ª edição do Cine Ceará, Festival Ibero-Americano de Cinema, o documentário resgata a trajetória do grupo Brasiliana que, ao longo de 25 anos de atividade, percorreu mais de 90 países, levando danças e expressões da cultura popular brasileira a públicos internacionais.

Formado majoritariamente por artistas negros, o grupo antecedeu movimentos como a Bossa Nova e o Cinema Novo, e foi fundamental na construção de uma imagem simbólica do Brasil no exterior, marcada pela musicalidade, afetividade e energia dos corpos em cena. 

Após marcar presença em diversas cidades brasileiras,  o longa-metragem segue sua trajetória em festivais. A próxima exibição acontecerá no dia 21, no Festival de Cinema de Vitória, no Espírito Santo. Em seguida, no dia 27, será a vez do Festival Bonito CineSur, em Mato Grosso do Sul. 

Já em agosto, o documentário passa por São Luís, no Maranhão, e Nova Iorque, nos Estados Unidos, marcando a primeira exibição fora do país. As datas e detalhes da programação serão divulgados no perfil oficial do documentário no Instagram: @brasiliana.doc.

 

*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli