Marisa Orth recebe homenagem em Ouro Preto e celebra humor feminino

Em entrevista à Tribuna, atriz contou sobre o que a faz se arriscar e como percebe o protagonismo feminino dentro do teatro, do cinema e da televisão


Por Elisabetta Mazocoli

29/06/2025 às 07h00

 

marisa orth
Atriz coleciona sucessos na televisão, no teatro e  no cinema (Foto: Leo Lara/Universo Produção)

A atriz Marisa Orth recebeu o troféu Vila Rica na 20º Mostra de Cinema de Ouro Preto, ao longo da cerimônia de abertura, que aconteceu na quinta-feira (26). Ela, que estrelou a icônica personagem Magda de “Sai de Baixo”, fez Nicinha em “Rainha da Sucata”, a peça “Bárbara”, a matriarca no curta “Kiki Cavalcanti e a origem dos bebês” e, ainda, Mortícia no teatro musical, tem uma carreira que inclui produções na televisão, no teatro e no cinema, sempre mantendo um timing de humor aceso e original. 

Do “Cala a boca, Magda!” à liberdade de poder falar o que quiser e escolher que tipo de humor quer fazer, a artista teve a oportunidade de rever sua obra e falar sobre o trabalho realizado ao longo dos mais de 40 anos de carreira. Em entrevista à Tribuna, durante coletiva de imprensa do festival, ela também contou sobre o que a inspira a se arriscar e como percebe o protagonismo feminino dentro dessa área, ao longo dos últimos anos.

marisa orth
Acompanhada do filho e da diretora Anna Muylaert, atriz exibe troféu (Foto: Leo Lara/Universo Produção)

Ser homenageada na mostra, ao lado da diretora e companheira de trabalho Anna Muylaert, com quem já colaborou e de quem é amiga, para ela, foi uma experiência de celebração. “Você percebe que está sendo vista, e está sendo vista de forma crítica. Me fez pensar pra caramba. (…) A gente fica feliz porque não caducou”, conta. Aos 61 anos, Marisa Orth se vê com muitos planos para trabalhar e ainda outros sonhos, mas também rejeita o papel de “ícone do cinema” — isso porque, como ela mesma diz, ainda quer fazer mais. “Eu fiz meus filminhos. Como atriz, acho que sou respeitada, mas ainda vou me tornar esse ícone, você vai ver”, diz. Recentemente, ela tem realizado desejos antigos, como representar a personagem Mortícia, que ela ama e diz que queria fazer “mesmo se fosse em um comercial de fralda”.

A atriz também estrelou, recentemente, o monólogo “Bárbara”, em que vive uma alcoolista lutando pela sobriedade e equilibra humor e drama. Para ela, são experiências bem diferentes pensar esse humor no audiovisual e no teatro. “O problema do timing de comédia no audiovisual é quando o editor corta seu timing. É mais gente se metendo na sua piada. (…) No teatro, eu controlo meu ritmo. Isso pode complicar, mas também pode ajudar”, explica. Mas, pra ela, tanto a indústria do audiovisual, quanto o teatro estão vivendo momentos muito interessantes no país, ganhando mais protagonismo e reconhecimento.

No caso do teatro, ela entende que isso pode estar acontecendo devido a mudanças culturais depois da pandemia de Covid-19. “As pessoas entenderam que o presencial é uma coisa muito louca. Antes, ninguém nem falava em presencial, é uma palavra quase nova, porque era meio óbvio. Deu uma valorizada”, diz.

Para além dos formatos, ela entende que há algo sempre se renovando no humor — que é sempre uma arte do risco. “É bom chegar a uma certa idade, porque estou mandando se f…. Estou mais corajosa, acho. Mas ao mesmo tempo, posso ser cancelada ou ser presa. É mentira dizer que tiro isso de letra, porque dá medo de ser julgada. (…) Mas tô indo aí, sempre animada”, conta. Também por isso, celebra a passagem pela mostra, acompanhada pelo filho, João Antônio, que se tornou cineasta. “Eu lembro de todas as vezes que vim aqui, graças a Deus foram mágicas. Não tem como falar de Ouro Preto sem falar de magia, encantamento, história. É bonito demais”, conta.

Humor é inteligência

marisa orth
Marisa Orth reconhece espaço e mudanças em mulheres no humor (Foto: Leo Lara/Universo Produção)

Ao abordar o tema da mostra, que é o humor feito por mulheres, ela entende que essa abordagem está longe de ter uma representação fixa ou ser um gênero por si só. Mas juntar esses filmes representa um reconhecimento de um trabalho que, durante muitos anos, não era bem visto. “Parece que, até ontem, a gente não podia muito. Estávamos: ‘Ih, ela é muito inteligente, é engraçada, espanta os homens. Espanta namorado.’ E a gente vai vencendo isso. Conquistar o humor significa que a mulher está tendo a sua inteligência respeitada”, conta.

Essa relação do tempo com o riso também faz com que reveja o bordão pelo qual muitas vezes é lembrada, e que ainda faz com que as pessoas a chamem de Magda na rua — e que é marcado, no programa de televisão, por uma situação recorrente do marido mandar a mulher, interpretada por ela, se calar. “As pessoas não lembram que já era um absurdo aquilo, e que mais absurdo ainda era ela fazer ‘Ain, ain’. Ela adorava, ela acolchoava as agressões que sofria com prazer. Ela era a mulher mais burra do mundo, que gostava que o marido a ofendesse, traísse, humilhasse. (…) Eu olho e fico meio chocada, mas não largo mão da capacidade crítica do público”, conta. Também por isso, hoje, gosta de calibrar o próprio humor “à medida que a bochecha fica vermelha”. “Quanto mais vergonha passo, melhor fica a piada. Você pensa: ‘não vou ter coragem de fazer isso’. Aí é que eu sei que tenho que fazer”, diz.

Cultura para ‘sair do armário’

Para quem está começando no humor, ela aconselha: é preciso sair do armário. Não com a conotação de assumir uma orientação sexual, mas de não ter vergonha de saber o que quer. “Que percam a vergonha, que se assumam engraçadas. Que deixem de fazer a patricinha e falem ‘Ai, dane-se, sou engraçada mesmo'”, diz.

Mas há algo mais que entende como urgente, e que espera poder colaborar para mudar: a necessidade de se fazer humor e arte para todos os públicos, chegando a cada vez mais pessoas. Defende sempre que cultura tem que ser para todos.  “Eu não suporto quando vejo gente dizendo que são os artistas que arruinaram o PIB do Brasil. Mesmo antes dessa lei, as verbas pra cultura sempre foram menos de 1% do orçamento nacional.  (…) Isso atrasa o artista e atrasa o país. Acho uma coisa malvada regular cultura assim”, finaliza.