Pai é julgado pelo feminicídio da esposa no dia do aniversário do filho

A psicóloga Marina Cunha tinha 35 anos quando foi asfixiada em sua casa no São Mateus, há sete anos


Por Sandra Zanella

24/06/2025 às 18h14- Atualizada 24/06/2025 às 18h43

No dia do aniversário do filho primogênito, que completa 14 anos nesta terça-feira (24), o empresário Pedro Araujo Cunha Parreiras está sendo julgado pelo feminicídio da esposa e mãe de mais duas filhas do casal, a psicóloga Marina Gonçalves Cunha, de 35 anos, supostamente morta por esganadura pelo companheiro dentro da própria casa, no Bairro São Mateus, Zona Sul de Juiz de Fora. O crime brutal aconteceu no dia 21 de maio de 2018, mas só foi descoberto mais de duas semanas depois, já que o réu ludibriou a família, alegando que ela estaria viajando, após supostamente matá-la e jogar o corpo dela nu e com o rosto desfigurado em uma mata no Parque da Lajinha. A sessão no Tribunal do Júri é presidida pela juíza Joyce Souza de Paula e começou às 9h com o sorteio dos jurados: quatro mulheres e três homens. A acusação tenta demonstrar inclusive que o mesmo filho, com 6 anos na época, às vésperas de completar 7, presenciou parte da ação criminosa, que incluiu o carregamento do corpo da mulher enrolado em um edredon dentro de um carrinho de supermercado para tirá-lo do apartamento e colocá-lo no porta-malas de um carro, até ser desovado na Cidade Alta.

“O Ministério Público espera que a justiça seja feita, mesmo depois de sete anos, condenando o acusado Pedro pela morte da Marina. Foi um fato bárbaro, que vitimou não apenas a Marina, mas também três crianças que faziam parte desse núcleo familiar. Essas crianças sofreram os efeitos secundários do crime e, graças a Deus, hoje estão abrangidos no núcleo dos avós”, destacou o promotor Vinicius Chaves, logo antes do julgamento. Os momentos mais emocionantes no Tribunal do Júri foram os depoimentos dos pais e do irmão de Marina. Eles narraram como foram angustiantes os dias em que a psicóloga ficou desaparecida, a frieza de Pedro naquele período – no qual ele até fez uma viagem turística para o Rio de Janeiro com os filhos – , e a trágica surpresa sobre a morte da vítima. Ao todo, foram arroladas nove testemunhas pela acusação e cinco pela defesa. Marlene, mãe de Marina, contou como tem sido difícil conviver com a ausência da filha e a responsabilidade de criar os três netos. “Eles sofreram muito, mas graças a Deus estão bem.” O menino, entretanto, teria ficado mais agressivo e simulado situações de esganadura, o que reforçou a suspeita de que ele teria presenciado o crime ou até visto a mãe morta, já que ele teria comentado que ela estava com o rosto muito machucado. As crianças são acompanhadas por psicólogos.

“Eu só queria entender como uma pessoa ‘normal’ mata outra, não chama a polícia e nem pede ajuda”, desabafou o irmão, Marino. “No dia seguinte, ele ainda deu comida na boca da minha mãe, não entendi essa demonstração de carinho.” Ao contrário das câmeras do prédio, que filmaram parte da ação, os equipamentos de gravação de dentro do apartamento estavam desligados. O pai da vítima, Marino Liberato, disse que Pedro trabalhava, mas não conseguia prover a casa. “Eu ajudava (…) Minha esposa e eu sofremos muito (com a morte), a família toda sofre, porque é muito ruim e triste.” Além dos três familiares, foram ouvidas como testemunhas de acusação a funcionária do casal, dois policiais civis que atuaram na investigação, o síndico do prédio onde aconteceu o crime, uma amiga de Marina e um colega de profissão dela, este último por vídeo. Ele esteve com a vítima durante a última viagem dela a São Paulo para o curso de coaching e contou que ela pretendia se separar de Pedro. “Fiz contato com ele quando ela estava desaparecida, e ele disse que ela tinha ido para um retiro espiritual, algo assim.”

Estratégias de acusação

O MP quer levar ao Conselho de Sentença as qualificadoras do crime e causas de aumento de pena. Pedro foi pronunciado por homicídio qualificado por motivo fútil, com emprego de asfixia, recurso que dificultou a defesa da vítima e feminicídio, além de ocultação de cadáver e fraude processual. “O inquérito policial está repleto de material probatório, passando por autos de apreensão, exames de local de crime – desde o momento em que ela foi localizada, onde o corpo foi jogado, até mesmo as imagens do circuito interno do prédio, na Rua Monsenhor Pedro Arbex, onde o crime se desenvolveu. Marina, infelizmente, – uma menina linda, nos seus 35 anos de idade, inteligentíssima, psicóloga no auge da sua carreira – foi morta por esganadura, pela asfixia, uma morte agonizante, precedida de uma discussão banal, por questão envolvendo dinheiro, sendo que, nos bastidores do processo, nós sabíamos que, embora o dinheiro fosse uma dificuldade, isso não era fator essencial que pudesse justificar a morte dela.”

Sobre o recurso que dificultou a defesa da vítima, o promotor destaca que ela teria sido atacada quando saía do banheiro. “A maior prova é que existem manchas de sangue no quarto, sobre a cama do casal, no banheiro. E o pior, o filho presenciou o grunhido, o arrastamento do cadáver.” Sobre a fraude processual, Vinicius observa que o réu teve tempo de lavar o corpo, as roupas da vítima e colocá-las para secar, além de limpar a cena do crime. “Houve também a ocultação de cadáver. Se não fosse o vigia de um condomínio próximo parar para urinar ali, o corpo dela até hoje não teria sido descoberto.” A comprovação sobre a identidade só foi possível pela numeração da prótese de silicone. O promotor enfatiza que, logo após o crime, “Pedro levou os filhos ao Maracanã e à praia, continuou uma vida ‘normal’. Fez uma viagem como se nada tivesse acontecido. Na verdade, ele mentia para a família, dizendo que Marina havia ido embora depois de uma discussão e que ela queria se separar”.

Sobre a demora até o julgamento, segundo o promotor, se deve à complexidade do processo e “aos inúmeros recursos interpostos pela defesa técnica no decorrer”. “Infelizmente o processo se alongou, embora o Pedro tenha permanecido preso preventivamente”. Com exceção de alguns dias em que ele obteve liminar de habeas corpus em junho de 2018, o réu ficou detido no Ceresp. Conforme o promotor, Marina e Pedro haviam se separado uma vez. “Eles casaram depois que ela engravidou do primeiro filho.” Durante o período da separação, ele teria tido outro relacionamento. “A relação do casal já não era boa, era desgastada.” Para o promotor, houve premeditação. “Ele demorou 25 minutos desde o momento em que saiu do prédio para desovar o corpo da Marina e voltar. Sabia exatamente o local onde o cadáver podia ser deixado, na Avenida Eugênio do Nascimento, onde havia rebaixamento para ele conseguir entrar com o carro e remover o corpo do porta-malas até o local onde foi efetivamente jogado dentro de uma mata.” O promotor complementa que as filhas de 2 e 5 anos na época, e o menino, de 6, ficaram sozinhos em casa. “Foi o tempo que ele teve para ir ao supermercado 24 horas, voltar com algumas compras, pegar o carrinho de mercado, enrolar o corpo, jogá-lo no fundo do carrinho e sair dissimuladamente até o carro e o local da desova.”

Manifestações

Faixas com pedidos de justiça foram estendidas na frente do Fórum Benjamim Colucci. Aos poucos, o plenário começou a ficar cheio de familiares, amigos e pessoas que lutam contra a violência contra a mulher. “A verdade é que toda mulher, independente da profissão, independente da idade, da etnia, da orientação sexual, deveria estar aqui hoje. Esses casos de feminicídios são uma crescente. Nós estamos morrendo a cada sete minutos. Os casos de violência só aumentam” dispara Ticiana Didres, presidente da Comissão de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher da OAB na cidade.

Diante da espera de mais de sete anos pelo julgamento, ela aponta morosidade no Poder Judiciário. “A sensação de impunidade das mulheres vítimas de violência doméstica é absurda. O índice de prescrição dos crimes de violência doméstica são gigantescos. Então estar aqui hoje representa, na minha concepção, uma fala nossa diretamente a todo o Poder Público. Nós não vamos nos calar, nós não aceitaremos ser mortas, agredidas ou silenciadas.”

A Tribuna acompanha o julgamento, durante todo o dia, no Fórum Benjamim Colucci. Por volta das 18h, todas as testemunhas foram ouvidas, tendo início o interrogatório do réu.