Com cobertura abaixo da meta, Poder Público nega falta de vacinas contra Covid-19 em JF
População relata dificuldades para encontrar vacinas em UBSs da cidade
A imunização da população contra Covid-19 em Juiz de Fora está menor do que a meta estipulada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Dados do Painel de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) mostram que a cobertura vacinal na cidade atinge, até agora, 78% do grupo prioritário, abaixo do ideal estabelecido em 95%. A baixa adesão não se restringe a esse grupo, já que apenas 16 em cada cem juiz-foranos pertencentes ao público geral tomaram a quarta dose contra o coronavírus, segundo o Ministério da Saúde.
No dia 3 de junho, a Tribuna percorreu unidades de saúde para apurar a situação. Na UBS Centro-Sul, a aposentada Gabriele Generoso, de 47 anos, relatou não ter conseguido se vacinar. “Toda vez que chego para me imunizar, não tem doses”. Por conta de problemas renais crônicos, ela faz parte do grupo de pessoas imunocomprometidas, considerado prioritário, e precisa se vacinar, no mínimo, duas vezes a cada seis meses, conforme o esquema vacinal brasileiro contra a Covid-19. Ela conta que a última vez que se imunizou foi no ano passado.

Após não conseguir se vacinar na UBS Centro-Sul, Gabriele foi orientada por funcionários da unidade a buscar a UBS Santa Luzia, mas optou por não ir por conta da distância. “Vacinas como da gripe e Covid deveriam estar em qualquer posto, mas não estamos achando”, lamentou.
Na UBS Santa Luzia, servidores relataram que a nova remessa de imunizantes contra Covid-19 ainda não havia chegado e que, naquele dia, a vacinação estava interrompida por falta de funcionários. Na unidade, a reportagem conversou com outra pessoa pertencente ao grupo de risco: o professor Valdir Silva, 65 anos. Ele também esteve na UBS Centro-Sul e foi orientado a recorrer à unidade do Santa Luzia, com a expectativa de que conseguiria se imunizar. “Lá, me falaram que só tinham recebido 50 doses da (vacina contra) Covid, que acabaram e, então, me disseram para vir. Já aqui, não tem funcionário para aplicar.”

Segundo o professor do Departamento de Parasitologia, Microbiologia e Imunologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Aripuanã Watanabe, a baixa adesão à imunização pode indicar dois problemas: o comportamento da população e a ineficiência das campanhas contra o coronavírus. Isso porque, os poderes municipal, estadual e federal afirmam que não faltam doses da vacina contra Covid-19 e, mesmo com a oferta, os índices estão abaixo da meta, evidenciando um possível desinteresse pela vacinação.
Envio de vacinas
Segundo a SES-MG, o envio dos imunizantes para o município acontece periodicamente. Entre 1º de janeiro e 28 de maio, 36 mil doses foram entregues. Já a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) informa ter aplicado pouco mais de 11 mil doses ao longo deste ano – menos de um terço do total recebido. Em nota, destacou que, no fim de maio, chegaram quase quatro mil novas doses da vacina, que foram distribuídas nas unidades de saúde da cidade.
No dia 10 de junho, a Tribuna tentou contato com todas as 48 UBS urbanas de Juiz de Fora. Somente cinco retornaram – Barreira do Triunfo, Borboleta, Dom Bosco, Retiro e Santa Luzia -, e todas afirmaram que estavam aplicando a vacina contra Covid-19 naquele dia.
Ainda em nota, a PJF afirma que a pessoa pode comparecer em qualquer UBS para se vacinar, independentemente de seu local de residência. No entanto, a reportagem conversou com uma servidora de uma unidade, que preferiu não se identificar, que argumenta a orientação. Segundo ela, apesar da importância da universalidade, a UBS em que trabalha sofre com altas demandas da população que se desloca de outras regiões. Ela garante que o atendimento não é negado, mas o ideal seria que cada usuário procurasse a sua UBS de referência, inclusive para que, em certos casos, sejam exigidas melhorias nas unidades.
Apesar da redução de casos, mortalidade é motivo de alerta
Mesmo com a baixa adesão da vacina, os dados mais recentes, referentes ao período de 1º de janeiro a 9 de junho, mostram que houve redução de 87% no número de casos da doença em comparação ao mesmo período do ano passado. O total de diagnósticos passou de 608 para 77. Já os óbitos reduziram 70%, indo de 17 para cinco registros.
No entanto, o agravante está na mortalidade dos casos, que aumentou em relação ao último ano. Entre 1º de janeiro a 9 de junho de 2024, a proporção entre óbitos e diagnósticos foi de 2,8%. Já no período de 2025, o índice aumentou para 6,5%.
“Esse aumento proporcional de óbitos, parece estar associado à baixa cobertura vacinal”, aponta o pesquisador Aripuanã Watanabe. “Independente de ter doses ou não, as pessoas não estão se vacinando”, analisa. Ele destaca que muitas pessoas se vacinaram uma vez ou contraíram a Covid-19 com quadros “mais leves” e acham que estão imunizadas. No entanto, a atualização das vacinas aumenta, consideravelmente, a proteção daqueles enquadrados no grupo de risco. “Essa manutenção é super importante.”
De acordo com o médico infectologista, Marcos Moura, nada adianta se poucas pessoas se imunizarem, tendo em vista a baixa eficácia da vacina. Segundo ele, a diminuição da cobertura vacinal beneficia a amplificação da multiplicação viral, favorecendo mutações e agravando casos, principalmente em pessoas com comorbidades, idosos e outros grupos de risco. “Sem vacina, todos correm risco de se contaminar.”
Para Watanabe, o caminho é investir em políticas de imunização: “precisamos fortalecer as vacinas, voltar com campanhas e investir em comunicação nas unidades de saúde”. Ele ressalta que não vê mais propagandas sobre os benefícios da vacina contra o coronavírus e aponta: “pode não resolver o problema, mas impacta bastante”.
Questionada sobre ações que estimulam a vacinação na cidade, a PJF afirmou, em nota, que a ampliação da cobertura vacinal depende, essencialmente, da procura de cada cidadão pela UBS. O texto destaca que “a Secretaria de Saúde está comprometida em facilitar o acesso à imunização e, pensando nisso, ampliou os horários de funcionamento das unidades até às 19h, além da abertura das salas de vacina aos sábados, das 8h às 11h”.
*Estagiário sob supervisão da editora Gracielle Nocelli









