ZONAS DE SOMBRA


Por Tribuna

08/02/2015 às 07h00

Nas cerimônias de posse da presidente Dilma Rousseff e dos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, o tema recorrente foi a reforma política. Todos reafirmaram o interesse em colocá-la na agenda do Congresso, por considerarem que o atual modelo está defasado, com várias zonas de sombra que acabam comprometendo a própria mobilidade das legendas e dos políticos. O ponto mais emblemático é o financiamento de campanha. Público ou privado, ele precisa ser mais claro, a fim de garantir a transparência esperada pelas ruas e, ao mesmo tempo, garantir aos próprios envolvidos a segurança necessária para quem lida com tais recursos. A operação “Lava jato” da Polícia Federal é a face visível desse processo. Denúncias de toda ordem colocam o Partido dos Trabalhadores como a bola da vez, sob a acusação de ter recebido, nos últimos dez anos, de US$ 150 a US$ 200 milhões em propina.

Trata-se de algo grave a ser apurado não só pelo montante, mas também pelo modelo. O dinheiro envolve a Petrobras, a maior estatal do país, mas com a participação de acionistas também lesados, se os fatos forem confirmados. O tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, em depoimento à polícia e em esclarecimento aos colegas de legenda, negou as acusações. Foi aplaudido no congresso da sigla, que terminou sexta-feira, em Belo Horizonte.

Ora no poder, o Partido dos Trabalhadores seria, porém, o único beneficiado por tais esquemas? Diante de uma legislação permissiva e de investigação precária, é fundamental ampliar os dados. O delator Pedro Barusco disse, que desde 1997, recebe propina. Esse dinheiro seria para uma ação entre amigos ou também foi drenado para as instâncias partidárias? Questões como essa precisam ser colocadas à mesa não como um elemento para reduzir o desgaste petista, mas para apurar se há outros envolvidos, e que também devem ser chamados a prestar suas contas. A reforma que todo mundo defende, mas ainda parada nas gavetas do Congresso, deve ser um elemento de mudanças, capaz de impedir o uso político do dinheiro público e também de punir autores do “assalto ao caixa” e os demais beneficiários.