Faltam lixeiras e sobra lixo nas ruas de Juiz de Fora
Principal via de pedestres do Centro, o Calçadão da Rua Halfeld tem 340 metros de extensão, entre as avenidas Rio Branco e Getúlio Vargas, e apenas cinco lixeiras para uso da população. A média é de um dispositivo a cada 68 metros. Neste trecho pequeno, mas de movimento intenso, é impossível não notar a falta que esses equipamentos fazem na manutenção da limpeza da cidade. Embora o calçadão conte com quatro garis com dedicação exclusiva, divididos em dois turnos ao longo do dia, a sujeira é uma constante no espaço, onde há plásticos, papel e embalagens espalhadas pelo chão. O quadro causa insatisfação entre a população, que reivindica a instalação de mais caixas coletoras não só no Calçadão, como em outras vias de grande fluxo de pedestres.
De acordo com o Demlurb, Juiz de Fora possui cerca de duas mil caixas coletoras, concentradas nas ruas centrais e nos bairros mais populosos, como São Mateus e Alto dos Passos, na Zona Sul, além de Benfica, na região Norte. A quantidade de lixo recolhida nesses equipamentos soma 3,5 toneladas por semana, bem menos que as 175 toneladas recolhidas pelas equipes de varrição, no mesmo período.
Segundo o diretor de operações do Demlurb, Paulo Antônio de Souza Delgado, o maior entrave relacionado às lixeiras da cidade é a depredação. Em média, 50 delas precisam ser recuperadas todos os meses, e outras 15, substituídas, sendo que cada uma custa, aproximadamente, R$ 170. O diretor relata que a maioria dos atos de vandalismo contra lixeiras acontece no período noturno e nos finais de semana. Também é comum que catadores danificarem os equipamentos ao tentarem puxar materiais que estão no fundo das lixeiras. Apesar desses problemas, ele garante que os dispositivos são reparados e substituídos com rapidez, já que os funcionários do Demlurb monitoram a situação.
No calçadão, segundo o diretor, havia aproximadamente 22 caixas. Ele explica que os equipamentos não são substituídos na via, porque estão sendo procurados modelos com melhor adequação à arquitetura do trecho, combinando com os postes metálicos. Além disso, as novas versões também devem ser mais resistentes ao vandalismo. No entanto, não há previsão de quando os novos dispositivos chegam a Juiz de Fora para instalação. Estamos buscando fornecedores, mas temos dificuldades em encontrar o modelo ideal.
Prejuízo no trabalho
A falta de lixeiras não deveria servir como motivo para o descarte de lixo nas ruas. É o que acha a servidora do Demlurb Leide Mara Moura, 22 anos, há quatro na profissão. Ela conta que é comum os pedestres atirarem detritos em locais que acabaram de ser varridos, mesmo com a presença dos profissionais. Alguns chegam a falar que se não fizessem isso, faltaria serviço para nós. Na visão de Leide, muitos se esquecem de que, diante do tamanho da cidade, o número de varredores é pequeno, e as ruas sempre vão precisar de conservação. Cada papel jogado nas calçadas só torna o trabalho mais difícil e demorado. As pessoas deviam reconhecer nosso trabalho. Faça chuva ou sol, estamos cuidando do ambiente urbano. Para ela, os resíduos podem facilmente ser guardados até que seja encontrado uma caixa coletora.
Mudança cultural
O coordenador do curso de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFJF, José Homero Pinheiro Soares, defende que em um plano ideal, não deveria haver a necessidade de lixeiras nas ruas. Cada um deveria levar seu lixo para casa, e separá-lo para a coleta seletiva. Na opinião dele, de nada adianta colocar inúmeras lixeiras nas ruas, se a população não tiver educação para lidar com os resíduos, o que deve ser aprendido desde criança. Embora este procedimento possa parecer utópico no Brasil, o professor ressalta que, no Japão, é regra. Infelizmente vivemos em uma sociedade na qual convencionou-se que é normal conviver com o lixo nas ruas. Vemos pessoas de todas as classes sociais jogando detritos em via pública.
Segundo o professor, ao jogar lixo na rua, a população está contribuindo para o crescimento de um problema da qual ela mesma é vítima: as cheias. Toda enchente carrega lixo. Cada vez mais, o solo é impermeabilizado, e a água das chuvas busca um lugar para escoar, que são as redes de captação de água pluvial. Com as bocas de lobo entupidas, esta água não tem para onde ir.
O professor Marconi Fonseca de Moraes, também ligado ao Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental, vem desenvolvendo uma pesquisa acerca da distribuição de cestos coletores na área central, envolvendo o triângulo formado pelas avenidas Rio Branco, Getúlio Vargas e Independência. Segundo ele, a pesquisa, executada com dois alunos, aponta que, de fato, há carência desses dispositivos.Marconi observa que em ruas como a Mister Moore e a Santa Rita, há lixeiras apenas em um dos lados. Na visão dele, isso acaba sendo um estímulo para que as pessoas joguem resíduos no chão, já que precisariam ter sempre um cesto à vista. Entretanto, ele faz questão de frisar que a falta de lixeiras deve ser considerada como agravante de um problema maior, que envolve a conscientização da população. Se tivéssemos um lixeira a cada metro, muitos continuariam a jogar lixo no chão.
Solução dentro de casa
O professor salienta que cada cidade deve ter, e cumprir, seu plano de tratamento de resíduos, mas que somente isso não é suficiente. A população deve fazer a sua parte. Cada papel de bala que uma pessoa joga no chão faz a diferença. Não basta ter consciência ambiental. É preciso ter ação consciente. A solução para o lixo está dentro da casa de cada um. É necessário separar, organizar e reciclar o lixo. Viver é algo que gera resíduos, e as pessoas precisam aprender a reduzir a quantidade produzida. Se não, a situação tende a piorar.








