Mais mulheres no mundo do crime

Ocorrências policiais registradas na cidade evidenciam a participação e autoria crescente de mulheres em crimes. Enquanto em 2010, cem mulheres foram presas em todo o ano, no primeiro semestre deste ano, já são 84 prisões no município. E o número continua subindo, já que alguns flagrantes aconteceram nas últimas semanas. No dia 18 de julho, duas mulheres, de 22 e 30 anos, foram presas pela Polícia Militar por assalto à mão armada a um taxista no Bairro Vitorino Braga, Zona Sudeste. Em outros casos recentes, crimes graves envolvendo mulheres estão sendo investigados. No dia 20 do mês passado, duas jovens conseguiram danificar a grade dos fundos de uma loja de informática na Avenida Independência, entrar no estabelecimento e furtar cinco notebooks. Toda a ação, que não durou mais que 13 minutos, foi gravada pelo circuito de segurança, mas as mulheres ainda não foram identificadas, pois usavam lenços tampando os rostos. O crime agora é investigado pela 1ª Delegacia de Polícia Civil, em São Mateus. Ainda no mês passado, uma mulher foi a isca para atrair um homem de 32 anos, que acabou esfaqueado e roubado por um assaltante na Rua Antônio Lagrota, região Central, no dia 26. Na mesma data, um idoso caiu em um golpe aplicado por uma mulher, em uma agência bancária.
Levantamento realizado pelo 2º Batalhão da PM mostra a ligação de pessoas do sexo feminino com o tráfico de drogas, considerado a principal causa das prisões de mulheres em todo o estado e também na cidade. De janeiro a junho deste ano, 20 mulheres foram detidas por envolvimento com comércio ilegal de entorpecentes em Juiz de Fora. Conforme levantamento da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), 39 mulheres estão na Penitenciária Ariosvaldo Campos Pires, no Linhares, pelo mesmo motivo, o que representa 46% do total de 84 detentas da unidade. Outras 14 estão atrás das grades por cometerem homicídios ou outros crimes contra pessoa. Nove estão na prisão por furto e outras sete por roubo (ver quadro).
Segundo a Polícia Civil, em muitos casos, são elas que escondem armas para utilização em crimes cometidos no município. "Como temos dificuldade para dar buscas em mulheres, elas passaram a guardar as drogas e as armas. Geralmente precisamos pedir apoio de uma policial militar feminina para confirmar a suspeita. Principalmente nas rixas de bairros e galeras, são elas que levam as armas", conta o delegado da 3ª Delegacia de Polícia Civil, Rodolfo Rolli.
Apesar de as últimas estatísticas na cidade mostrarem um envolvimento frequente das mulheres com o crime, a Seds diz que houve queda de 16% no número de encarceradas, se comparado 2010 com este ano (ver quadro). Já pesquisa do Grupo de Trabalho Interministerial, parceria entre a Secretaria Especial de Políticas para Mulheres do Governo brasileiro e o Ministério da Justiça, ao qual o Departamento Penitenciário Nacional é vinculado, confirma que, no país, o número de mulheres ingressadas no sistema penitenciário e policial vem aumentando gradativamente. Entre 2000 e 2006, o crescimento feminino nas unidades prisionais atingiu 135,37%, sendo a região Sudeste a que apresentava o maior número de prisioneiras.
De acordo com o delegado de Polícia Civil Rodolfo Rolli, a relação direta do tráfico com a dependência das drogas coloca as mulheres em situação vulnerável e pode levá-las à prática de outros crimes e até mesmo à condição de vítimas. "Para manter o vício, elas passam a praticar pequenos furtos e roubos. Tornam-se cúmplices ou até autoras de outros crimes para conseguir dinheiro, que será absorvido pelo entorpecente. Muitas vezes, também viram ‘mulas’ do tráfico, mas ficam devendo aos traficantes, o que pode ser perigoso."
Companheiros e drogas: portas de entrada
"Elas vão para a cadeia por amor." A frase disparada pela diretora da Penitenciária Ariosvaldo Campos Pires, Ândrea Valéria Andries Pinto, resume a história de vida de muitas mulheres que hoje estão nas celas em Juiz de Fora. Na maioria dos casos, segundo a assistente social das varas criminais do Fórum Benjamin Colucci, Angélica Afonso, mulheres foram obrigadas a levar drogas para o presídio masculino, sob ameaça de morte da família se não o fizessem, e acabaram presas. Outras não aguentaram ver os filhos presos e também cometeram ilícitos, levando celulares e drogas para as prisões. Há ainda aquelas que foram pegas por se associarem aos companheiros.
"Geralmente entram no crime por conta das drogas ou dos relacionamentos", diz Angélica. A coordenadora do Núcleo de Urgências Criminais e Execução Criminal da Defensoria Pública de Juiz de Fora, Luciana Gagliardi, confirma que muitas estão na Ariosvaldo porque foram flagradas tentando entrar com drogas para companheiros ou namorados presos.
A percepção é a mesma do delegado da Polícia Civil, titular do Grupo Tático Operacional (GTO) de Tóxicos, Fernando Camarota. "É claro que existem aquelas que estão no tráfico independentemente dos maridos ou namorados, mas geralmente entram por conta dos companheiros, ou para ajudá-lo ou para assumir o lugar dele quando é preso. Uma das que prendemos, era amante do traficante e a responsável pela contabilidade."
As ocorrências confirmam a relação de cumplicidade. Em junho, a PM prendeu um casal na Zona Sul com papelotes de cocaína, maconha, um revólver calibre 38 com numeração raspada e três munições, além de 29 DVDs piratas, dois celulares e material para embalar entorpecentes. Em maio, duas mulheres foram presas e cerca de 1kg de crack apreendido, também na Zona Sul. De acordo com o comandante da 32ª Companhia da PM, capitão Ricardo Schafer, a mulher mais nova, de 27 anos, alegou estar atuando como "guarda-roupas" para a mais velha, de 47, supostamente para pagar uma dívida contraída pelo ex-marido.
A pesquisa da professora de psicologia da PUC Minas, Ilka Franco Ferrari, "Mulheres encarceradas: elas, seus filhos e nossas políticas", que utilizou como fonte relatórios oficiais, produzidos pelo Grupo de Trabalho Interministerial, pelo Centro pela Justiça e pelo Direito Internacional (CEJIL) e entidades que constituem o Grupo de Estudos e Trabalho Mulheres Encarceradas, também aponta para este envolvimento sentimental das presas. Muitas vezes, conforme o estudo, também são os filhos que acabam levando as mães para o mundo do crime.
Perda de valores entre os motivos
Para a escritora e pesquisadora Elizabeth Misciasci, autora do livro "Presídio de Mulheres", e presidente do projeto zaP!, trabalho voluntário desenvolvido nas unidades prisionais femininas, sobretudo de São Paulo, o aumento de mulheres presas na última década se deu pelo grande número de condenações por posse, uso e tráfico de drogas. Segundo ela, em meados do ano de 2006, a situação dos delitos já despertava relevantes preocupações, pois, além de haver uma marcha rápida para o aumento de mulheres no crime, estes também já se transformavam, passando então para uma outra ação delituosa de participação feminina mais ativa. "Mulheres que antes eram detidas, em sua maioria, por crimes passionais, e, da década de 70 até o século XX, por furtos, tornaram-se atuantes em crimes diversos, como assalto a bancos, sequestros, e, principalmente tráfico de drogas."
Segundo a presidente do Conselho da Comunidade em Execução Penal de Juiz de Fora, Cleuza Ribeiros dos Santos, a escalada da criminalidade feminina pode estar relacionada ao desnível e à carência social e à perda de valores morais no mundo contemporâneo. "A necessidade de consumo cada vez maior na nossa sociedade nos leva a desejar bens de forma crescente. Junto a isso, temos a perda de valores e a desestrutura familiar, o que pode levar os indivíduos ao envolvimento com as drogas. Ainda há o desemprego. Estamos vivendo em uma selva de pedras e, muitas vezes, o indivíduo é compelido a determinados atos. Não é uma desculpa para explicar o crime, mas a ampla oferta e a falta de oportunidades pode levar sim as mulheres ao crime."
A mesma opinião é partilhada pelo coordenador da Pastoral Carcerária no município, padre José Maria de Freitas. "O que temos notado é que a perda de valores, a dilaceração da família, a falta de discernimento entre o bem e o mal, a falta de educação e de religião têm levado essas mulheres à criminalidade."
Estudo traça perfil das encarceradas
A pesquisa da psicanalista e professora da PUC Minas Ilka Franco Ferrari mostra que essas mulheres são ainda pouco visíveis, por não representarem nem 5% da população encarcerada no país. "Uma condição de invisibilidade sintomática e legitimadora da desigualdade e violência de gênero", conforme a professora. Até 2007, o Estado sequer havia se preocupado com o levantamento de dados sobre as presas, deixando-os a cargo de pesquisas acadêmicas, jornalísticas e de alguns trabalhos de associações da sociedade civil.
Ainda conforme a pesquisa, muitas vivem em prisões superlotadas, sem condições de higiene e sem atendimento de saúde. Em Juiz de Fora, a Pastoral Carcerária e a Defensoria Pública garantem que a situação das detentas melhorou muito desde a transferência delas do Ceresp para a Penitenciária Ariosvaldo Campos Pires. "Hoje elas vivem em uma situação razoável, mínima satisfatória, onde não existe superlotação e há atendimento médico e frentes de trabalho", informou a coordenadora do Núcleo de Urgências Criminais e Execução Criminal da Defensoria Pública de Juiz de Fora, Luciana Gagliardi.
O estudo ainda traça o perfil das encarceradas. A maioria são jovens, com pouca educação formal, mães solteiras, afrodescendentes, e moravam com os filhos antes de serem presas. São mulheres com o ônus da criação dos filhos. Após o encarceramento, a maioria dos filhos passa a viver sob a tutela dos avós maternos, e a maioria dos companheiros não as visita, ao contrário do que ocorre na prisão masculina. Um número significativo não recebe visita alguma, encontra-se em total desamparo e busca apoio nas drogas que entram no presídio ou em remédios controlados.
Em Juiz de Fora, segundo a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), 50 presas custodiadas trabalham. São oferecidas vagas na faxina da unidade e em uma fábrica de produção de meias, instalada na penitenciária. Além disso, há presas trabalhando na empresa de limpeza urbana do município. Na penitenciária, elas fazem curso de design de sobrancelhas e cabeleireiro. Em relação ao estudo, a escola da unidade atende 50 presas no ensino fundamental e médio.








