Mudanças na Costa e Silva ampliam abusos e riscos

Divisão seria resultado do novo projeto de trânsito
As alterações na Avenida Presidente Costa e Silva, no Bairro São Pedro, Cidade Alta, iniciadas no ano passado, têm causado a insatisfação de condutores, ao mesmo tempo em que outros relutam em se adequar às novas normas de circulação. Com a mudança no sentido de tráfego de vias perpendiculares, a proibição de estacionamento em locais onde antes havia permissão e a precariedade de vias que se tornaram essenciais, os abusos têm se tornado constantes. A Tribuna esteve na área quatro vezes, em horários e dias da semana distintos, e fez flagrantes que mostram pedestres e motoristas em risco. A situação levou moradores a realizarem dois abaixo-assinados dirigidos à Settra. Nos documentos, eles questionam, entre outros fatores, o que chamam de divisão do bairro.
Esta divisão seria resultado do novo projeto de trânsito, que foi pensado no sentido de não permitir que os automóveis vindos de vias perpendiculares continuassem cruzando a Presidente Costa e Silva, garantindo, desta forma, a segurança e a fluidez no tráfego. No entanto, a falta de placas informativas, somada ao desrespeito por parte de alguns condutores, tem resultado no efeito contrário. Um trecho em que pode ser observada essa resistência fica no Pórtico Norte, sentido UFJF/Bairro Santos Dumont. Os motoristas que precisam ir a uma agência bancária no segmento precisam fazer o retorno, seguindo em frente até a Rua Lauro Teles de Mesquita, que é perpendicular, acessar a Avenida Pedro Henrique Krambeck (ao lado da BR-440) e retornar pela Rua Antônio Rufino, onde um semáforo foi instalado. Devido ao aumento no trajeto, muitas pessoas adotam uma manobra considerada mais fácil: fazer um "balão" na própria avenida, apesar de a faixa de sinalização horizontal ser contínua, proibindo a conversão (ver quadro).
Mas os condutores que respeitam as regras de trânsito se deparam com outro problema: a Avenida Pedro Henrique Krambeck, apesar de ter se tornado um corredor viário indispensável, está com condições precárias de tráfego, com buracos nos quais cabe um veículo. Quando chove, outro transtorno: a via se alagada rapidamente, impedindo o fluxo na área.
De acordo com a assessoria de comunicação da Secretaria de Obras, a empresa que foi responsável pelas obras na rodovia BR-440, a Empa S/A, foi informada da situação e convocada a enviar um representante para avaliar a situação. Isso porque o alagamento seria resultado da falha na rede de drenagem da via, construída pela empreiteira. Sobre os buracos, a assessoria informou que são consequência do aumento do fluxo naquela área associada às chuvas. A previsão é de resolver o problema nos próximos dias. Ainda segundo a assessoria, será necessário um trabalho de reforço do solo para que a Empav, em seguida, faça a recomposição asfáltica.
Medidas de segurança
Para o engenheiro especialista em trânsito Luiz Antônio Moreira, cabe à Settra estudar locais onde há maior fluxo de pessoas para adotar medidas de segurança, como, por exemplo, semáforos com botoeira a ser acionada pelos pedestres.
Sobre a situação de motoristas que desrespeitam as regras de trânsito, o especialista avalia que deveria haver melhor sinalização desses locais, ampliando a oferta de retorno dos condutores, principalmente no sentido UFJF/Santos Dumont. "Desta forma, evitamos que manobras sejam executadas de maneira arriscada ao longo de toda a via. Fica a impressão de que o projeto, até agora implantado, carece de complementação."
Abaixo-assinados
Outro motivo de questionamento na área é a dificuldade para transitar no bairro, que teria ficado dividido após as mudanças. A situação, inclusive, levou um grupo de moradores a protocolar o primeiro abaixo-assinado na Settra, reivindicando alterações. Também motivou o novo abaixo-assinado, ainda não entregue à secretaria, os riscos a que crianças estão sendo submetidas em frente à Escola Municipal Presidente Tancredo Neves. A faixa de pedestres que dividia a rua, instalada em frente ao colégio, foi retirada e colocada na interseção com a Rua Lauro Teles de Mesquita (ver quadro). "Nem todas as crianças estão respeitando a regra de trânsito, e isso as coloca em perigo. Acompanhamos a reivindicação dos pais de alunos da escola, mas também cobramos que as alterações sejam repensadas", disse o cirurgião-dentista Henrique Nogueira Reis, 52. Junto com vizinhos, ele está criando a associação de moradores do Jardim Universitário. "A comunidade não pode ser prejudicada por algo criado pela Settra", desabafa.
Novos semáforos para melhorar fluidez
Segundo a chefe do Departamento de Segurança de Tráfego da Settra, Sheila Menini, o projeto de reestruturação da Avenida Presidente Costa e Silva envolveu tanto adequação física, com a colocação de baias para estacionamento e alargamento de calçadas, quanto implantação de placas indicativas e sinais luminosos. No fim de janeiro, dois conjuntos semafóricos foram ligados, na interseção da avenida com as ruas Lauro Teles de Mesquita e Alberto Pinto. Conforme Sheila, ainda haverá sinalização nos cruzamentos com as ruas Roberto Stiegert e Sady Monteiro Boechat. Ela afirma que, com estas mudanças, a expectativa é de que os abusos sejam evitados. Sheila considera desnecessária a colocação de sinalizações verticais explicando as rotas de retorno, pois a "própria sinalização já existente é suficiente para que o condutor possa encontrar o caminho permitido".
Ela afirma ainda que os sinais vão inibir as conversões irregulares, já que educam os condutores. "Somado a isso, vamos realizar uma fiscalização mais atuante e eficiente, de forma que os motoristas se sintam inibidos a cometer algum tipo de infração."
Na opinião do advogado Tiago Albuquerque, 32 anos, que mora na Cidade Alta há cerca de dez anos, as mudanças realizadas não contribuem para a fluidez no trânsito e segurança dos pedestres. "Gostaria de ver a instalação de ‘tartarugas’ (sinalização horizontal elevada) separando as pistas de mão e contramão, colocação de rotatórias e permanência constante de agentes de trânsito, orientando e educando motoristas e pedestres a respeito das novas regras, e não agarrados em seus blocos de multa, ao menos nesta fase de transição."
Conforme o engenheiro especialista em trânsito Luiz Antônio Moreira, as rotatórias tornam-se inviáveis na Costa e Silva porque, em alguns pontos, há duas faixas de rolamento no mesmo sentido, além de outra na direção contrária. Além disso, segundo ele, apesar de dar mais flexibilidade aos veículos, os dispositivos comprometem a travessia segura dos pedestres.
Pedestres encontram dificuldade nas travessias
Para o aposentado Antônio Renato Netto, 55 anos, que vive no Bairro São Pedro há 28 anos, há pontos positivos e negativos a serem ressaltados nas mudanças adotadas na Avenida Presidente Costa e Silva. Segundo ele, o fato de as calçadas terem sido readequadas contribuiu para a segurança. "Antes os carros subiam nos pisos, quase atingindo os pedestres. Isso não ocorre mais. Por outro lado, vemos sempre veículos estacionados em locais proibidos, como pontos de ônibus." O também aposentado José Cavalcanti, 65, relata a dificuldade de atravessar. "São poucas as faixas de pedestres, e ninguém respeita. Muitas pessoas atravessam em qualquer área. O pior é que os carros e motos trafegam em alta velocidade"
Outra reclamação comum entre os motoristas refere-se aos bueiros instalados na via. Após recomposição do asfalto, as tampas das estruturas ficaram mais baixas que o pavimento, causando transtornos e prejuízos para donos de veículos.
Conforme a assessoria de comunicação da Secretaria de Obras, engenheiros irão ao local para avaliar os transtornos e tomar providências caso o problema exista. Informou ainda que, se for constatado que se trata de falha da obra, a empreiteira que realizou a intervenção será responsabilizada.
Faixa de pedestre
Uma faixa de pedestre foi instalada embaixo de um conjunto semafórico na interseção com a Rua Alberto Pinto. No entanto, próximo ao ponto de ônibus, quase em frente à Rua Lauro Teles de Mesquita, não há área de travessia. Dessa forma, pedestres estão ignorando a faixa instalada e atravessando em local não permitido. "O correto seria que a faixa estivesse em frente ao ponto, sem contar que a outra travessia está em cima de uma curva. De noite, é muito perigoso", relata a faxineira Cássia de Souza, 29. Outro morador da Cidade Alta, o comerciante Reinaldo da Costa Lima, 47, diz que os excessos são constantes nas madrugadas. "Ninguém está respeitando os semáforos. Com a melhoria no asfalto, isso aqui virou pista de corrida."
Segundo a chefe do Departamento de Segurança de Tráfego da Settra, Sheila Menini, é estudada a possibilidade de instalação de pontos eletrônicos que aferem velocidade, funcionando de forma semelhante a um radar. Ela disse que, em princípio, o projeto não prevê a colocação de quebra-molas, no entanto, ajustes não estão descartados.









