Ladrões agem com violência, espancam e intimidam vítimas

Frentista sofreu corte no rosto ao ser jogado no chão
Vítimas espancadas, apedrejadas, esfaqueadas e até baleadas. Os casos de pessoas agredidas durante ações criminosas têm sido registrados com frequência e amedrontado a população de Juiz de Fora. Só no último final de semana, quatro pedestres foram vítimas de assaltos violentos. De junho até agora, foram registrados pelo menos 30 casos, sendo sete em junho, 14 em julho e nove até agora neste mês. Em um deles, na madrugada desta segunda-feira (12), um homem, 32, foi esfaqueado em tentativa de assalto na Rua Morais e Castro, no Alto dos Passos, Zona Sul. Ele contou à PM que caminhava pela via, pouco depois da meia-noite, quando foi abordado pelo ladrão armado com faca. A vítima teria reagido, entrando em luta corporal com o criminoso, que acabou provocando duas perfurações em seu braço esquerdo. Ao tentar segurar a faca, o pedestre também sofreu um corte na mão esquerda. Diante do roubo frustrado, o bandido deixou o local e não foi encontrado. A vítima foi medicada no Hospital de Pronto Socorro (HPS).
Na mesma via, um radiologista, 36, foi agredido em assalto na madrugada de domingo. Ele trafegava de bicicleta pela Morais e Castro por volta das 4h, quando foi rendido por cinco criminosos. Após retirar o ciclista à força do veículo, o bando ainda jogou a vítima no chão e a agrediu a socos e chutes. Também na madrugada de domingo, um homem, 31, foi agredido com uma paulada na cabeça na Rua Benjamin Constant, Centro. Ele relatou à PM que, após a pancada, caiu ao solo e teve roubados mochila com notebook, dois celulares e um relógio.
Outro registro aconteceu na Avenida Itamar Franco, próximo ao cruzamento com a Avenida Doutor Paulo Japiassu Coelho, no Bairro Cascatinha, Zona Sul. Uma jovem, 23, relatou que voltava do trabalho na companhia de dois amigos, por volta das 7h de domingo, quando foi abordada por um assaltante armado com faca. Ao tentar escapar junto com os colegas, a mulher foi alcançada pelo bandido, que a pegou pelo pescoço e a arrastou para um matagal. O ladrão ainda jogou a vítima no chão e roubou a bolsa dela com R$ 121, celular, óculos, cartão e documentos.
A cada relato, as vítimas expressam o pavor de quem ficou na mira de criminosos. Em um caso registrado pela Polícia Militar no dia 12 de julho, um casal foi roubado, sendo o homem de 35 anos agredido na Avenida dos Andradas, região central. De acordo com a ocorrência, ele foi encontrado sangrando e com as roupas rasgadas. A vítima relatou aos policiais que estavam em patrulha que, ao sair de um bar, o casal teria sido abordado por um grupo de 15 pessoas. Os suspeitos agrediram o homem com socos e chutes. Em seguida, fugiram com R$ 300 e um celular. Receoso, ele pediu que não fosse identificado e não quis dar detalhes sobre o caso. "Fiquei com diversos hematomas pelo corpo. Foi muito ruim, não gosto nem de lembrar.Tive medo de morrer," desabafou.
Outra vítima que carrega marcas físicas e psicológicas da violência sofrida durante ação criminosa é um frentista de 32 anos que trabalha em um posto de combustíveis da Zona Sul. Por volta das 4h do dia 3 de julho, a vítima, que pediu para não ter o nome divulgado, estava no caixa do posto quando um rapaz se aproximou perguntando se havia cigarros para vender no local. Em seguida, o criminoso anunciou o assalto. "Ele já foi colocando a mão na cintura. Na hora, achei que estava com uma arma de fogo, minha única reação foi correr." O frentista contou que, neste momento, foi atingido por uma rasteira e caiu, cortando o rosto. Ele precisou levar três pontos e ficou com uma cicatriz na face. O criminoso fugiu sem levar nada. Depois do episódio, a vítima, que trabalha entre 18h e 6h, mudou sua rotina no trabalho. "Agora só confiro o caixa e tiro notas fiscais pela manhã. Até às 23h, tem outros dois trabalhando comigo. Depois deste horário, atendo os clientes e espero o próximo dentro do meu carro. Se acontecer qualquer coisa, fica mais fácil fugir. Dá medo, mas tenho que trabalhar."
‘Mesmo amarrado, ele me batia, pensei que fosse me matar’
Além do frentista ferido, entre junho e agosto, outros seis funcionários de estabelecimentos comerciais, em diferentes regiões da cidade, também foram alvos de ações criminosas onde houve uso de violência física. Em junho, o proprietário de uma padaria que fica na Avenida Rio Branco foi baleado na perna durante um assalto. Ainda no mesmo mês, um policial militar à paisana foi atingido por uma bala no pé durante um roubo em um posto de combustível na Zona Norte.
Na manhã do último dia 7, uma comerciante de 54 anos chegou a desmaiar após ser agredida a socos e chutes e sofrer tentativa de enforcamento durante assalto no Bairro Ladeira, Zona Leste. De acordo com informações da Polícia Militar, a mulher relatou que, por volta das 7h, abria seu estabelecimento comercial – um café- na Rua Maria Perpétua, quando foi surpreendida por um ladrão que entrou no local e anunciou o roubo. A vítima teria reagido à ação criminosa e acabou perdendo os sentidos ao ser espancada pelo bandido. Ao retomar a consciência, a comerciante percebeu que havia sido roubada sua carteira com R$ 700.
No dia 9 de julho, uma mulher de 32 anos foi amarrada e amordaçada durante assalto a um correspondente bancário, no Barbosa Lage, Zona Norte. O boletim de ocorrência aponta que, pouco depois das 8h, uma dupla armada com revólver calibre 38 entrou no local, anunciou o assalto e deixou a vítima imobilizada no banheiro. Os ladrões roubaram R$ 1.135 dos caixas e fugiram. A funcionária rendida contou que teve as mãos amarradas com lacres plásticos e a boca amordaçada com fita adesiva. "O rapaz que estava armado era mais agressivo. Ficaram perguntando se tinha cofre, me ameaçando."
Quatro dias antes, o funcionário de um estacionamento da Rua Batista de Oliveira, no Centro, também viveu momentos de pânico durante um roubo. Segundo ele, por volta das 21h, foi surpreendido por um homem armado enquanto fechava o caixa. Depois de pegar o dinheiro, o suspeito mandou que o trabalhador fechasse o portão de entrada. Insatisfeito com a quantia entregue, o assaltante começou a dar tapas na cabeça do jovem. Em seguida, o suspeito ordenou que a vítima deitasse de bruços e amarrou suas pernas e braços com fita adesiva. "Mesmo quando eu já estava amarrado, ele me batia, pensei que ele fosse me matar", conta a vítima. Ele fugiu levando cerca de R$ 400 do estacionamento e R$ 50 da vítima.
Impunidade deixa suspeitos mais ousados
Para o membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e coordenador do núcleo de estudos sócio-políticos da PUC Minas, Robson Sávio, o cenário de crescimento de criminalidade violenta em Juiz de Fora pode ser uma das explicações para o registro constante de roubos nos quais as vítimas são agredidas. "Quando se tem muitos crimes contra a vida, a defesa da vida passa a ser prioridade na agenda de segurança pública. O aparato de segurança tem que priorizar estes casos. Então a prevenção dos crimes contra o patrimônio fica em segundo plano, desarranjada."
O especialista avalia ainda que, "com o aumento de crimes em geral, gera-se mais demanda. Se o sistema de justiça criminal demora a aplicar punições ou se as mesmas são pouco efetivas, gera-se uma sensação de impunidade. Com isto, os criminosos passam a tentar crimes mais ‘sofisticados.’ Se antes ele era batedor de carteira, passa a cometer crimes maiores e usando outros meios, como armas de fogo". Robson explica ainda que o crescimento na criminalidade causa desconforto na população, que tende a denunciar e registrar mais os crimes. "As pessoas ficam com mais medo e notificam mais. Pode não significar que os crimes estão mais violentos ou que aumentaram ou diminuíram. O que se tem é uma notificação maior."
De acordo com o major Paulo Alex Moreira, que entre os dias 15 e 29 de julho respondeu interinamente pela assessoria organizacional da 4ª Região da Polícia Militar, "há quatro meses, a corporação já observou, de forma mais latente, o aumento nesta vertente criminosa. Mas, para uma cidade do porte de Juiz de Fora, é um número pequeno de notificações." Segundo ele, a PM vem fazendo uma análise constante das ocorrências nas quais os criminosos usaram algum tipo de violência. O major acredita que elas estão relacionadas a três fatores: ao fato de o suspeito estar sob efeito ou abstinência de algum entorpecente, à reação das vítimas e à violência espontânea. "Já temos acompanhamento sobre isso. Aumentamos as abordagens em locais ermos e naqueles onde levantamos que há maior número de ocorrências. O objetivo é antecipar a identificação dos suspeitos e impedir que ele cometa o crime," finalizou.








