Confronto em residencial leva medo a 380 famílias

Durante a tarde, quase todo o efetivo da 32ª Companhia de PM foi deslocado para a ocorrência
As cerca de 380 famílias que vivem no Residencial Araucárias, no Bairro Sagrado Coração, na Zona Sul, viveram momentos de pânico ontem por causa de brigas envolvendo grupos de moradores do local contra habitantes do vizinho Vale Verde. Munidos de pedras, pedaços de pau e armas brancas, os envolvidos se enfrentaram dentro do condomínio. Com o clima tenso, vários trabalhadores não tiveram condições de sair de casa por medo e faltaram às suas atividades. A informação é de que os confrontos haviam começado na véspera e se estenderam por várias horas, o que levou a Polícia Militar a ir até o local por pelo menos três vezes.
O residencial foi construído por meio dos programas "Prefeitura casa própria" e "Minha casa, minha vida". Assim como a situação no Araucárias, os enfrentamentos e a violência também acontecem em outros condomínios erguidos da mesma maneira em Juiz de Fora. A situação chegou a tal ponto que os beneficiários estão abrindo mão do imóvel próprio por medo da violência e do tráfico de drogas. Uma das explicações é que esses projetos reúnem, em um só lugar, pessoas oriundas de várias parte da cidade, que acabam não se reconhecendo como pertencentes ao novo local de moradia.
Ontem quase todo o efetivo da 32ª Companhia da Polícia Militar, responsável pela Zona Sul, precisou ser destacado para conter a rixa no Araucárias. Segundo a PM, os primeiros militares chegaram por volta das 9h, mas precisaram voltar outras duas vezes para acalmar os ânimos. "Os motivos são banais, ou sequer eles têm motivos. Os confrontos acontecem simplesmente por diferenças de bairros, aliados ao consumo de drogas", explicou o comandante da 32ª Cia, capitão Ricardo França.
Os beneficiários do "Minha casa, minha vida" relataram que as brigas começaram na noite de segunda, quando houve uma confusão generalizada. Por medo, os vigias que trabalhavam na guarita foram embora. "Quem não tem medo de morar aqui? Isso virou um Carandiru, está um inferno viver aqui", desabafou uma moradora. Outro condômino afirmou que, além das agressões, o tráfico de drogas é constante. "Nós que somos de bem, ficamos acuados, mas não tenho para onde ir."
O comandante da 32ª Cia destacou que as confusões no residencial são frequentes, e, na maioria das vezes, envolvem adolescentes. "O problema aqui é social. Existe uma ociosidade muito grande entre os menores, isso favorece a criminalidade como um todo. Aqui, infelizmente, quando virarmos as costas, vão arrumar briga de novo."
Por volta de 17h, os policiais deixaram o local. Assustadas, muitas pessoas ainda permaneciam do lado de fora de suas casas. Duas mulheres, 22 e 32 anos, um jovem de 18 e dois adolescentes de 17 foram conduzidos para a delegacia. A PM apreendeu uma faca, um revólver calibre 32 municiado e dois radiocomunicadores, que, segundo os militares, teriam sido furtados da guarita de segurança do residencial.
Com a necessidade do reforço policial no condomínio, o atendimento a ocorrências da área de responsabilidade da 32ª Cia teria ficado comprometido. Uma delas aconteceu na Rua Ibitiguaia, no Bairro Santa Luzia. Um homem, 52, tentou arrombar o depósito de uma loja de materiais de construção, usando uma barra de ferro. Populares conseguiram capturá-lo e o deixaram preso no local cerca de uma hora e meia até a chegada da PM. "Isso prejudica toda a cidade. Deixamos de atender vários chamados por estarmos empenhados no atendimento às rixas no residencial," concluiu capitão França.
Disputa por tráfico afasta moradores
Ainda na Zona Sul, o tráfico de drogas e a violência resultante dele têm levado sérios problemas a outros beneficiários dos programas "Prefeitura casa própria" e "Minha casa, minha vida", que chegam a abrir mão do tão sonhado imóvel próprio. Moradores do Vivendas Belo Vale I, no São Geraldo, estão preferindo se mudar e pagar aluguel fora do que continuar convivendo com traficantes dentro do condomínio. O conjunto de 32 sobrados, totalizando 128 unidades habitacionais, foi entregue em julho de 2011. O local deveria reunir a tranquilidade e a segurança de um residencial fechado, em um bairro considerado calmo pela polícia, mas o relato dos moradores é de que a situação chegou a tal ponto que há disputa pelo domínio da venda de drogas, especialmente o crack.
"Muitas casas estão vazias. Tem gente preferindo pagar aluguel do que continuar aqui, porque não tem liberdade", diz um morador, que deve se mudar em breve. O uso e o tráfico de drogas têm provocado uma onda de furtos dentro condomínio, apelidado de "Carandiru" pela vizinhança. "Mais de 50 pessoas já se mudaram. Ninguém quer ficar lá. Toda semana tem briga com faca ou revólver. As pessoas usam e vendem drogas o dia inteiro", diz uma mulher que se mudou recentemente.
Há dois meses, policiais da 32ª Companhia da PM cumpriram seis mandados de busca e apreensão no condomínio, onde foram encontradas drogas e armas. Dois homens de 18 e 19 anos foram presos por suspeita de envolvimento com o tráfico. Conforme o comandante da companhia, capitão Ricardo França, a ocupação do condomínio por famílias vindas de diversos bairros da cidade tem dificultado o entendimento entre elas. "Mantemos monitoramento constante na região, mas não podemos fazer o policiamento dentro do condomínio. Policiamos as ruas, e, para o trabalho ser mais efetivo, precisamos da colaboração da comunidade."
A assessoria da Secretaria de Assistência Social (SAS) informou que este ano foram realizados dois eventos no condomínio. No primeiro, ocorrido em janeiro, os técnicos da pasta cadastraram famílias necessitadas em programas sociais. No mês seguinte, a SAS realizou uma parceria com a Secretaria de Esporte e Lazer (SEL) para levar atividades esportivas e recreativas aos moradores.
Parque das Águas
O loteamento Parque das Águas, na confluência dos bairros Monte Castelo, Caiçaras e Borboleta, na Zona Norte, apresenta problemas semelhantes. Seis meses após a entrega das chaves das 565 moradias, o condomínio acumula ocorrências de brigas de gangues, sendo que uma resultou no assassinato de um adolescente de 16 anos, em outubro. Uma audiência pública realizada no último dia 28 debateu os problemas de infraestrutura e a necessidade de equipamentos públicos no loteamento.
‘Estrangeiros em sua própria terra’
Procurada pela Tribuna ontem, a secretária de Assistência Social, Tammy Claret Monteiro, informou que vai se reunir com a equipe de abordagem da pasta para pensar em ações que podem ocorrer com objetivo de evitar novos conflitos. "De um modo geral, estamos em alerta em todos os condomínios do programa, mas ainda não tínhamos registro de problemas com tamanha envergadura."
Segundo Tammy, um trabalho de parceria entre a Caixa Econômica Federal e a Secretaria de Assistência Social (SAS) é desenvolvido para acompanhar as famílias sorteadas para as novas moradias. "Muitas não estão acostumadas a viver em condomínios, por isso são necessárias ações educativas, inclusive com palestras. São pessoas que não se conhecem, com escolaridades distintas e outras vivências. É uma mudança de hábito grande. Não sabemos quanto tempo este trabalho precisa durar, se é um, se são dois ou três anos."
A secretária também afirma que o problema é social. Ela lamenta que, enquanto uma demanda é resolvida, a habitação, outras acabam se formando. "Nossas atividades contam com a participação de técnicos, assistentes sociais e psicólogos."
Estranhamento
Para o doutor em sociologia Rudá Ricci, a situação ocorrida em Juiz de Fora reflete na falta de sensibilidade do programa "Minha casa, minha vida", que garante a moradia, mas não pensa nos laços sociais das famílias sorteadas. "Parece que o Estado nos vê apenas como família, e não é isso. Nossa identidade é criada, também, pela vizinhança e pelos aparelhos comunitários onde moramos, seja um comércio ou igreja. Leva um tempo para nos socializarmos com o novo local. A sensação é de estranhamento, tanto para quem era do bairro, como para os novos habitantes. As pessoas se sentem estrangeiras em sua própria terra."
Conforme Ricci, a saída para este tipo de conflito está no diálogo. "Se faz necessário escalar interlocutores que consigam lidar com o problema. Pois, se partirem para a briga, aumenta mais ainda a confusão. É preciso estudar rapidamente quais os valores e as necessidades daquelas pessoas. A saída pode ser simples, como a presença de alguma religião ou algum movimento musical."
A Caixa Econômica, por meio de nota da assessoria de imprensa, informou "que, após a entrega dos imóveis, a manutenção e conservação é realizada pelos moradores, e a segurança deve ser garantida pelos órgãos de segurança pública".









