Ouça agora

Secretaria de Saúde fará auditoria no Hospital Ana Nery


Por Daniela Arbex

24/04/2013 às 06h00

Secretário assiste a imagens feitas pela Tribuna

Secretário assiste a imagens feitas pela Tribuna

Escolhido pelo Poder Público para o futuro credenciamento de leitos de referência em saúde mental, o Hospital Ana Nery apresenta problemas no atendimento dessa população. Na semana passada, a Tribuna esteve na unidade localizada em Grama durante o horário de visitas e encontrou situações preocupantes, como a de uma paciente mantida presa, dentro do quarto (ver vídeo abaixo), na enfermaria que recebeu parte dos 19 portadores de transtorno mental retirados do São Domingos, instituição que teve o fechamento decretado pela Secretaria de Saúde. Por diversas vezes, ela esmurra a porta, em cena considerada rotineira pelas colegas de ala, mas condenada pelo secretário de Saúde, José Laerte Barbosa, que assistiu, a pedido do jornal, as imagens gravadas (ver vídeo no site da Tribuna). Também há problemas na enfermaria destinada aos pacientes crônicos com necessidade de reabilitação. Além de sujeira nos banheiros, chamou atenção o fato de os alimentos serem deixados junto aos leitos, embora muitos dos atendidos não apresentem a mínima condição de comer sozinhos. Como os pacientes não têm ajuda de terceiros, as refeições ficam ao lado das camas, expostas por longo tempo, sendo alvo inclusive de insetos. Diante da situação, José Laerte anunciou a realização de uma auditoria no local, bem como de inspeção sanitária.

"Estamos fechando um hospital psiquiátrico por falta de condições de atendimento. Por isso, não podemos permitir que situações como essa perdurem em um hospital clínico, o qual pretendemos que seja o nosso parceiro na psiquiatria. Não há justificativa para se trancar pacientes em quartos. Isso é semelhante a cela forte", afirmou. O antigo Sanatório Vieira Marques é, segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), um hospital geral com natureza de organização privada, mas com 256 dos 275 leitos contratados pelo SUS. Além de ter como especialidade a clínica geral, o Ana Nery tem 219 leitos destinados a pacientes crônicos e 32 aos de psiquiatria. O fato de muitos atendidos apresentarem alto grau de dependência torna mais grave o descaso com as refeições. Com um irmão internado há meses na unidade, uma dona de casa que prefere não se identificar confirma que já precisou socorrer outros internos na hora das refeições já que sozinhos eles apresentaram limitações para comer.

Luiz Mário Abzaid, um dos diretores da unidade, mostrou-se surpreso em relação às questões de limpeza e de atendimento identificadas pelo jornal. "Temos técnicos de enfermagem responsáveis pela assistência aos pacientes, conforme preconiza as portarias do Ministério da Saúde. Quanto à limpeza, temos um quadro de funcionários trabalhando em escala."

Já Cyríaco Brandão, diretor-geral, admitiu a existência de dificuldades no atendimento de pacientes com perfil diverso ao que o hospital está habilitado. Segundo ele, o Ana Nery está credenciado para o tratamento a dependentes químicos, mas não está estruturado para o atendimento de psicopatias. Ele diz, ainda, que recebeu, a pedido do próprio Município, os pacientes oriundos do São Domingos para que ficassem por apenas 30 dias. No entanto, o prazo vem se estendendo e, com ele, os problemas enfrentados pela instituição.

Jorge Montessi, que também responde pelo Ana Nery, acrescentou que a unidade tem buscado ampliar a capacidade de atendimento com qualidade, por meio da contratação de mais profissionais ligados à limpeza e de novos técnicos de enfermagem. "O perfil do hospital é de reabilitação de pacientes crônicos e não de saúde mental. Temos conseguido reabilitar algumas pessoas, mesmo havendo casos de familiares que não visitam o seu doente com medo da obrigação de levá-lo para casa. Também atendemos ao pedido de ajuda feito pelo Município para a transferência de pacientes psiquiátricos. Quando eles foram trazidos para cá, aumentamos o número de técnicos de enfermagem e de funcionários da limpeza. Estamos, inclusive, reformando uma enfermaria para que recebam atenção maior. Temos lutado para manter a instituição viva com qualidade pela importância que ela tem para a cidade e região. Mesmo com a defasagem na tabela do SUS, há seis anos sem reajuste, temos buscado dar soluções para os problemas e temos conseguido", explica Montessi.

José Laerte confirma a informação de que a instituição vinha mantendo contato com a secretaria e alegando dificuldades para o atendimento desse público. Segundo ele, a auditoria assistencial vai verificar as condições de atendimento da unidade e subsidiar a tomada de providências. "O fato é que o futuro credenciamento de leitos de psiquiatria em hospital geral terá que ser acompanhado de um projeto terapêutico."

 

 

19 pacientes psiquiátricos foram para Ana Nery

O processo de desospitalização de pacientes psiquiátricos em Juiz de Fora ganhou contornos importantes este ano com o encerramento das atividades do Hospital São Domingos, cuja interdição comprovou a precariedade do atendimento oferecido a essa população. Mas a medida é apenas um capítulo de uma história que ainda está em construção. A maior parte dos 200 ex-pacientes do São Domingos foi transferida para a antiga Casa de Saúde Esperança e para a Clínica Aragão Villar, além do Hospital Ana Nery. Deste grupo, 19 pessoas foram para o Ana Nery, 16 foram encaminhadas para um dos 12 serviços residenciais terapêuticos (SRTs) do município e pelo menos 40 altas foram viabilizadas. Restam agora 340 pacientes internados e o desafio de oferecer a cada um assistência humanizada.

Para criar uma rede de atendimento extra muro, o município pleiteou junto ao Ministério da Saúde a implantação de 20 novos serviços de residência terapêutica. Metade deles teve a aprovação do Governo federal. Os novos SRTs serão do tipo 2, ou seja, destinados a pacientes com maior grau de dependência e alto grau de cronicidade. Isso garantirá cem novas vagas fora dos hospitais, mas o prazo médio para o início de implantação deste serviço é de seis meses.

Outra medida será a transformação do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) II – o Casa Viva, para Caps III, para garantir o funcionamento 24 horas. A implantação de mais um Caps 24 horas na Zona Norte também faz parte do projeto de desospitalização na cidade que hoje conta com apenas três centros. "Também já foi pedido o credenciamento junto ao Ministério da Saúde de duas unidades de acolhimento para atender aos usuários de Caps que não têm como permanecer em casa. Com dez vagas em cada uma, essas unidades permitirão a permanência por até seis meses", afirma o secretário de Saúde, José Laerte. A construção desses espaços foi autorizada, recentemente, pelo Ministério da Saúde por meio de portaria.