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Apedrejamentos já feriram duas pessoas em ônibus


Por Renata Brum

10/05/2011 às 07h00

Uma série de apedrejamentos a coletivos urbanos na região Sudeste da cidade, cometidos por um grupo que seria formado por crianças e adolescentes, foi tema de reunião, na tarde de ontem, entre representantes da Polícia Militar e da Viação São Cristóvão. Em dois meses, seis ocorrências foram registradas. Em duas delas, houve feridos. Em 7 de abril, um cobrador da linha Vila Ideal 315 tomou uma pedrada na região do pescoço. Já no último sábado, a vítima foi uma dona de casa de 53 anos. Ela foi atingida no rosto por uma pedra, que chegou a quebrar os óculos. Segundo a PM, o grupo já foi identificado e é formado por meninos de 9 a 12 anos de idade. O mais novo, ainda conforme a PM, é considerado o líder e seria o mesmo menino filmado na Vila Olavo Costa, fumando um cigarro de substância semelhante à maconha, cujo vídeo foi divulgado mês passado. Desde o episódio, que ganhou repercussão nacional, ele está abrigado, mas sairia com frequência do lugar.

Quem convive com a possibilidade do apedrejamento está temeroso. "Ficamos sem saber o que fazer. Eles entram sempre perto do Matadouro Municipal pela porta de trás do ônibus e não querem pagar. Na hora que os colocamos para fora, buscam as pedras e apedrejam os carros. Chegam a nos ameaçar e já enfrentaram até mesmo os policiais, falando que nada poderia ser feito contra eles", contou um cobrador de 33 anos.

A dona de casa atingida também relatou o medo. "Fiquei apavorada. Sempre ouvi falar desses apedrejamentos, mas, quando uma pedra nos acerta, é diferente. Se eu não tivesse de óculos, poderia ter atingido minha vista ou sido até mesmo fatal. Tinha uma idosa bem próximo, e ela podia ter sido atingida na cabeça."

O encarregado do Departamento Pessoal da Viação São Cristóvão, João Freesz, cobrou ação para evitar novas vítimas em reunião realizada na tarde de ontem com a PM. "Foram seis ocorrências em dois meses, com danos materiais, mas, num intervalo de 30 dias, tivemos duas vítimas, o que nos preocupa."

Liderança

Segundo o tenente da 135ª Companhia da PM, Marcus Leandro Silva, há relação do garoto com as recentes ocorrências. "Já o identificamos. Ele tem uma família desestruturada e estaria vivendo sob o domínio de traficantes, na função de olheiro. Ele tem um poder de liderança até sobre os mais velhos e não tem limites. Essa é nossa preocupação. Todos os órgãos têm limites de competência, e a PM tem feito até além do que é sua função. Nosso intuito é unir forças para tentar resolver principalmente a situação dessa criança de 9 anos. Se o encontrarmos na rua o levaremos para Vara da Infância, mas infelizmente nossa papel termina aí."

Policiais do Grupamento Especial em Atendimento de Crianças e Adolescentes em Situação de Risco (Geacar) também estiveram presentes ao encontro. De acordo com a militar responsável pelo Geacar, sargento Regina Santana, que acompanha de perto o menino de 9 anos, ele não tem aceitado permanecer na unidade. "Vamos lá todo dia. Ele tem total assistência, alimentação, lazer, mas volta para rua. Somente na Semana Santa, ele saiu do abrigo cinco vezes. Temos tentado de tudo. Ele falou que o sonho dele era jogar em um grande clube carioca. Conseguimos contato com o time, que autorizou o representante daqui a patrociná-lo, mas ele foi um ou dois dias e não voltou. Ele passaria um dia no batalhão. Conseguimos até uma farda, mas ele fugiu. Não sabemos mais o que fazer."

Pelo Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), crianças não podem ser acauteladas ou internadas em Centros Socioeducativos. Conforme a juíza da Vara da Infância e Juventude, Maria Cecília Gollner Stephan, a adaptação do menino tende a ser gradativa, um processo de longo prazo. "Ele não tem referência nenhuma. Precisamos ter paciência. Ele está acostumado com uma situação de rua, tem vício de rua. É devagar que ele irá se adaptar à nova rotina. A recaída é natural, mas ele está sob os cuidados dos atendentes do abrigo. Quando sai, os técnicos vão atrás dele para que volte."