Ouça agora

Desafio de concluir obras viárias em 2012


Por MARIANA NICODEMUS

01/01/2012 às 07h00

Juiz de Fora inicia o último ano da atual Administração Municipal com a esperança da concretização de obras urbanoviárias prometidas e tão almejadas pela população frente aos crescentes problemas de mobilidade urbana. O prefeito Custódio Mattos garante que as expectativas para 2012 são boas: é possível que, ainda este mês, comecem os trabalhos de reestruturação da Avenida Getúlio Vargas. E, embora viadutos, pontes e trincheiras – cuja construção sustenta a possibilidade de amenizar os transtornos enfrentados diariamente por quase 520 mil juiz-foranos – pareçam, aos olhos da comunidade, longe de sair do papel, o chefe do Executivo afirma que as obras estarão concluídas até o final deste mandato.

Em março de 2010, Estado e Prefeitura anunciaram investimentos de R$ 66 milhões na modernização do centro viário da Juiz de Fora, prevista para ser finalizada até setembro de 2012. De lá pra cá, a cidade já conviveu com interferências em importantes corredores de tráfego, como Avenida Presidente Itamar Franco (antiga Independência) e Rua Santo Antônio, e, agora, assiste à remodelação de sua principal artéria, a Avenida Rio Branco. Antes mesmo que as 80 intervenções previstas para esta via sejam concluídas, a transformação da Avenida Getúlio Vargas – que ganhará canteiros centrais e calçadas mais largas, com plataformas avançadas para embarque e desembarque nos pontos de ônibus – deve começar. Porém, a parte do projeto original que previa o fim da Praça do Riachuelo, com a construção de novas pistas e um novo calçadão no local, não será executada agora. A reurbanização da Avenida Rio Branco consumirá R$ 12,6 milhões, enquanto a da Avenida Getúlio Vargas está orçada em R$ 6,1 milhões.

"A fonte de financiamento que me permite fazer as duas obras é a mesma, então estou menos adstrito à questão física e mais ao custeio. São obras que interferem de maneira tão decisiva no dia a dia das pessoas que não posso correr o risco de não ter dinheiro para manter um ritmo acelerado de execução", explica Custódio Mattos, lembrando que a prioridade é a segurança dos pedestres.

"Fazendo a diferenciação entre o passeio de circulação e a plataforma de embarque e desembarque de ônibus, vamos melhorar as condições de conforto e beneficiar a operação do transporte coletivo. Com os canteiros centrais, as milhares de travessias da Getúlio serão canalizadas para as faixas de pedestres, garantindo mais segurança", explica o subsecretário de Mobilidade Urbana, Carlos Eduardo Meurer. "Quando investimos em segurança para o pedestre e em transporte coletivo, também oferecemos melhores condições de fluidez para o tráfego geral, por isso é este o nosso foco", ressalta o titular da Settra, Marcio Bastos.

 

Pequeno impacto

Apesar de a Prefeitura apostar no pacote de intervenções como pontapé inicial em favor de melhorias no sistema viário, população e especialistas não acreditam em benefícios significativos decorrentes das reformas em andamento. "Só estamos vendo a construção de canteiros", reclama a autônoma Cristiane Fernandes, 26 anos, moradora do Morro da Glória. "Acho que os efeitos das obras durarão pouco, pois o problema é, na verdade, o excesso de carros que se joga nas ruas todos os dias", pondera a estudante Vanessa Andretto, 23, do Bairro São Mateus. "Faltam acessos que contornem a cidade e vias expressas, mas as obras previstas nesse sentido não serão realizadas tão cedo", diz o comerciante Leo Mário, 63, que mora no Centro.

"As obras que estão sendo feitas hoje são de função arquitetônica e estética", comenta o consultor em mobilidade urbana José Ricardo Daibert. "As modificações que estão sendo realizadas na Rio Branco, por exemplo, vão impactar muito pouco o fluxo", concorda o especialista em transporte e trânsito José Luiz Britto. "Vamos ter cada vez mais automóveis nas mesmas vias, que não têm como comportar o tráfego. Estamos chegando a um ponto em que ficaremos engessados, e a cidade vai parar. Não temos acessos novos em construção, salvo a BR-440, que está parada, e algumas obras com perspectiva remota de serem feitas em 2012. A construção dos viadutos e trincheiras prometidos é urgente, ou, nos próximos dois anos, teremos uma questão crítica de trânsito em Juiz de Fora", completa Britto.

 

Prefeito diz manter compromisso

A já anunciada edificação de três pontes, dois viadutos, duas trincheiras e respectivos acessos complementares seria a esperança da população para amenizar os problemas decorrentes do fluxo intenso de veículos na área central. Com a transformação da Avenida Brasil em eixo estrutural da cidade e o fim das paradas de veículos nas passagens da linha férrea, as obras ofereceriam a possibilidade de reduzir retenções, sobretudo, nas avenidas Rio Branco e Itamar Franco. Com a chegada de 2012 e os consequentes impedimentos inerentes a anos eleitorais, pode parecer tarde para que obras de grande porte sejam executadas, mas o prefeito Custódio Mattos garante que as modificações no traçado da cidade serão concluídas este ano.

"Eu mantenho o meu compromisso, intenção e avaliação de que faremos essas intervenções no curso do meu mandato. São obras que podem ser executadas com rapidez, desde que haja recurso, e eu creio que, em poucas semanas, teremos planejamento específico quanto a isso", afirmou o chefe do Executivo, em entrevista à Tribuna, no último dia 22 de dezembro. O projeto apresentado em 2010 inclui a construção de mergulhão e ponte na Praça dos Poderes, trincheira na Rua Benjamin Constant, viaduto e ponte na região do Clube Tupynambás, ponte na Antônio Lagrota e viaduto no Mariano Procópio, além da ligação da Avenida dos Andradas com a Rua Bernardo Mascarenhas.

"A lógica dessas obras é tentar tirar da área central parte dos veículos que faz a ligação Norte – Sul – Norte, que hoje utiliza, basicamente, a Avenida Rio Branco. Conseguindo efetivamente implantar o binário da Avenida Brasil, o viaduto do Tupynambás a conectaria ao Bom Pastor, criando um anel adicional que receberia parte da crescente demanda do eixo Rio Branco/Itamar Franco", explica Carlos Eduardo Meurer.

Para o especialista em transporte e trânsito José Luiz Britto, a execução de tais obras, aliada à finalização da BR-440, representaria o ponto de partida para duas medidas essenciais para a melhora do sistema de trânsito de Juiz de Fora: a transposição ferroviária e a existência de um anel viário, capaz de desviar parte dos veículos que hoje utilizam o Centro como passagem. Por outro lado, o especialista lembra que a abertura de novas vias incentiva o uso de automóveis individuais . "Também deveríamos pensar em restringir a circulação de veículos, dando preferência aos pedestres. É nesse sentido que o mundo tem se mobilizado pela melhora da qualidade de vida nas cidades. As pistas laterais da Rio Branco poderiam ter calçadas alargadas e ciclovias, por exemplo."

 

 

Promessa de mais coletivos

O prefeito Custódio Mattos alega que é preciso equilibrar qualidade e preço para manter o sistema de transporte coletivo. Investir fortemente na modernização do modelo, segundo o chefe do Executivo, poderia significar um custo alto que, rateado entre os usuários, elevaria o valor da passagem. "Podemos ter um sistema de extrema qualidade, mas muito caro, o que não é bom porque exclui os pobres. E podemos ter um sistema muito barato, mas de péssima qualidade, que também não é bom, porque não satisfaz a ninguém. Das 50 maiores cidades brasileiras para as quais a Associação Nacional de Transporte Público (ANTP) dispõe de dados sobre tarifas, estamos entre as duas mais baratas há cerca de dois anos. Então, nosso sistema passa inteiramente no critério que eu privilegio, que é o do preço, para garantir que pessoas de baixa renda possam andar de ônibus. Quanto à qualidade, nossos ônibus são novos e limpos. As críticas são quanto à pontualidade e lotação", admite o prefeito.

Segundo Custódio, a Settra realiza atualmente pesquisa para levantar em quais linhas e horários há problemas de lotação acima do limite tolerável. "A partir dos resultados, criaremos um indicador que vai nos permitir, ao longo dos anos, medir a evolução desse tipo de conforto. E em todas as linhas que tiverem, em determinados horários, com lotação acima do desejável, nós colocaremos mais ônibus." Com a concorrência pública que prevê a contratação de empresa especializada para elaboração do estudo técnico de reestruturação do sistema de transporte coletivo urbano de Juiz de Fora suspensa pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE), a própria Settra irá elaborar, com base em pesquisas internas, uma proposta de reformulação do sistema atual para embasar nova licitação.

 

Especialistas criticam foco de investimentos

"Quem planta asfalto colhe congestionamento. Quem planta investimento em transporte público colhe mobilidade urbana e qualidade de vida, com menos engarrafamentos, menos poluição e menos acidentes." A afirmação do consultor em mobilidade urbana José Ricardo Daibert resume as expectativas de especialistas consultados pela Tribuna quanto a possíveis soluções, ainda que a longo prazo, para os problemas enfrentados pelos juiz-foranos no trânsito. Para Daibert, o que tem sido prometido para a população é investimento apenas no transporte individual, na contramão da tendência mundial.

"É via alternativa, é mergulhão, é transposição da linha férrea. E onde está o corredor de transporte coletivo, o aumento da capacidade dos veículos, a melhora da operação do sistema?", comenta, lembrando que a última intervenção voltada para o transporte público foi a implantação da faixa seletiva para ônibus na Avenida Rio Branco, em 1981. "A saída não é abrir vias na medida em que a frota aumenta, mas reverter os investimentos, para que estes recaiam sobre a maior mobilidade do transporte público e coletivo."

Daibert explica que os automóveis em circulação hoje em JF transportam metade das viagens motorizadas da população. Isso quer dizer que o dobro de ônibus que temos hoje – passando de 571 para 1.142 carros – carregaria a mesma quantidade de pessoas que os 190 mil carros que compõem a frota da cidade. "Isso mostra, aritmeticamente, que a resposta está na velocidade com que se consegue migrar as pessoas para o sistema coletivo."

Para o professor do curso de arquitetura e urbanismo da UFJF Klaus Chaves Alberto, reduzir o volume de automóveis que circulam na área central por meio da modernização do sistema de transporte coletivo urbano é urgente. "Está na hora de revisar o plano diretor de transportes, definir prioridades e colocá-las em prática. É preciso recuperar bons projetos que não foram bem implementados, como o sistema troncalizado", sugere.

Para o subsecretário de Mobilidade Urbana, Carlos Eduardo Meurer, as intervenções físicas em andamento no Centro priorizam justamente a circulação de coletivos. "O modelo de adequar a cidade para o carro particular não tem mais como ser expandido. Se não temos condições de dar a fluidez que gostaríamos para a circulação de veículos individuais, propomos uma mudança de modelo, melhorando o transporte coletivo e oferecendo conforto e segurança para deslocamento a pé."