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Denúncia de cárcere privado de idosas é levada à polícia


Por Michele Meireles e Marcos Araújo

12/12/2012 às 21h17

No quarto, sujeira, roupas e cobertores espalhados

No quarto, sujeira, roupas e cobertores espalhados

Uma cuidadora de idosos é suspeita de manter em cárcere privado e de agredir duas irmãs, de 80 e 86 anos, em um apartamento na Rua Santa Rita, no Centro de Juiz de Fora. Além dos supostos maus-tratos, a empregada estaria, em posse de uma procuração, recebendo todos os rendimentos das vítimas, cujo valor é de cerca de R$ 25 mil por mês. O caso, que corre em segredo de Justiça, foi revelado ontem pela advogada e pelo sobrinho das idosas. Segundo a advogada Thereza Rampinelli, elas estão internadas na Santa Casa de Misericórdia. Ela também afirmou que umas das vítimas apresenta inanição, enquanto a outra está machucada, com indícios de ter sido maltratada.

A denúncia veio à tona na última quinta-feira, depois que vizinhos das idosas comunicaram aos familiares, que residem no Rio de Janeiro, o que estaria acontecendo no apartamento das irmãs. "Nós sempre tivemos desconfiança. Tentávamos ligar há cerca de quatro meses, e a cuidadora sempre dava uma desculpa. Raramente conseguíamos falar com elas", contou o sobrinho Wagner Sucasas Gomes.

Para ele, os vizinhos demoraram a denunciar por medo de represálias. "Eles estão em estado de terror, tanto que trocaram as fechaduras e se sentem ameaçados." Umas das vizinhas, que não quis se identificar, ficou muito abalada com a história e afirmou que, há muito tempo, não frequentava a casa das irmãs. "A funcionária delas nunca me fez nada, mas era muito nervosa, então, para evitar problemas, deixei de visitá-las."

Quando chegou a Juiz de Fora, Wagner encontrou a casa revirada e a tia mais velha em "estado cadavérico". O sobrinho ainda teve outra surpresa: a tia mais nova havia sido internada no hospital pela cuidadora, que alegou que ela havia caído. "A encontramos com hematomas no rosto, não podemos acusar, mas como uma senhora que não anda pode ter caído no banho?"

A advogada relatou que, quando foi visitar as senhoras, há cerca de oito meses, desconfiou da situação. Segundo Thereza, as idosas estavam mal cuidadas e comendo apenas macarrão instantâneo e pão. "Também estranhei que a cuidadora estivesse recebendo os aluguéis delas, que somam cerca de R$ 25 mil mensais." Ainda conforme a advogada, a funcionária conseguia receber os vencimentos através de uma procuração. Segundo ela, na segunda-feira, quando foi ao banco pedir o bloqueio das contas das clientes, deparou-se com a cuidadora tentando fazer uma saque de R$ 10 mil.

No sábado, a 7ª Vara Cível concedeu a retirada da idosa do apartamento, transferindo-a para a Santa Casa. O laudo médico aponta que a senhora de 86 anos chegou à unidade hospitalar com "quadro de confusão mental e esquecimento, sendo incapaz de gerir bens e pessoas. Apresenta quadro crônico e irreversível". A Justiça também determinou que o apartamento fosse lacrado e concedeu a tutela da idosa mais velha ao sobrinho.

Nesta quarta-feira (12) a família permitiu a entrada da imprensa no imóvel. Nos quartos, muita sujeira, papéis, roupas e cobertores espalhados. Na dispensa da cozinha, só havia leite em pó, biscoito e adoçante. Na geladeira, tinha apenas iogurte e gelatina. "Como duas senhoras com grande poder aquisitivo não tinham nada em casa?", questiona a advogada. Um detalhe chamou a atenção: por toda parte da casa havia imagens de santos. "Elas eram tão devotas e viviam em um inferno", desabafa o sobrinho. A família também afirma que não encontrou nenhuma das joias das senhoras.

A Tribuna esteve na casa da cuidadora na tarde de ontem, mas ela não quis comentar a denúncia e disse apenas que seu advogado já está cuidando do caso. Ontem a noite, a advogada e o sobrinho foram à delegacia registrar o caso. A delegada que estava no plantão e recebeu a queixa, Regina Gomide, informou que vai avaliar o teor da denúncia e encaminhar o caso à delegacia competente.

 

 

‘Idosos precisam saber cobrar seus direitos’

 

Para o assistente social e integrante do Conselho Municipal dos Direitos dos Idosos, José Anísio da Silva, o Pitico, o caso é mais uma mostra do quanto a violência contra a terceira idade vem crescendo em Juiz de Fora, indicando que é preciso uma intervenção efetiva das autoridades para enfrentamento do problema. "A violência é uma questão pública e precisa ser combatida com medidas públicas. Esse combate não pode ser relegado a ações isoladas. É preciso haver um corpo de políticas que dialoguem entre si. Hoje a gestão pública não é compartilhada, não existe interação entre os gestores de saúde, educação e assistência social, o que acaba servindo de obstáculo para a solução do problema." Ele também lembra que a sociedade tem que ser cobrada para assumir uma nova postura diante da velhice. "Os idosos precisam saber cobrar seus direitos e fazer com que o Estatuto do Idoso seja conhecido. Isso é fundamental, pois os integrantes da terceira idade representam 13,5% da população de Juiz de Fora, num total que varia de 70 mil a 75 mil pessoas com idade a partir de 60 anos. Só este ano, 20% dos eleitores que participaram do pleito eram de idosos."

Dados divulgados esta semana mostram que, em todo o país, as denúncias de violação a direitos humanos dos idosos registradas pelo Disque 100 tiveram um salto. Entre janeiro e novembro deste ano, o aumento foi de 199% na comparação com o mesmo período de 2011. De acordo com o balanço divulgado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, esses casos saltaram de 7.160 no ano passado para 21.404 em 2012.