Parada Gay por direitos iguais
Cerca de 80 mil pessoas, segundo os organizadores, e 33 mil pelos dados da Polícia Militar, foram ontem às ruas para a 10º Parada Gay. Com concentração marcada para o meio-dia no Parque Halfeld, o movimento começou a crescer a partir das 13h, quando os quatro trios elétricos, posicionados na esquina da Rio Branco com a Rua Floriano Peixoto, se deslocaram para o ponto inicial do evento. Viemos para a avenida reivindicar nosso direitos, não privilégios. Precisamos de políticas públicas que nos contemplem. Não queremos nem mais, nem menos que ninguém, ressaltou o coordenador de projetos e um dos organizadores da Parada Gay, Oswaldo Braga. Já para o presidente do MGM, Marco Trajano, o ano passado representou um avanço para a comunidade gay em termos jurídicos, com a aprovação da união estável homossexual, porém, pontuou a necessidade de avanço no legislativo. Vivemos em um estado laico, e assim ele deve permanecer, defende. Para ele, a questão da homofobia precisa ser constantemente debatida. Fico feliz em ver que esta não é só uma luta dos gays, mas de toda a sociedade, que deve ser livre de qualquer preconceito.
O hino nacional, este ano, ficou a cargo da travesti Xuxu, que cantou sua versão remixada, seguida de uma música de sua autoria. É uma responsabilidade muito grande para um artista cantar o hino, ainda mais hoje, que canto para meu maior público. Após o hino, o tradicional beijo entre o presidente do MGM, Marco Trajano, e seu companheiro de mais de 20 anos, Oswaldo Braga, marcou o início oficial do desfile às 14h10. Após se beijarem, os dois convocaram os que compareceram ao evento para também beijarem seus companheiros. Apesar do caráter festivo, a Parada é um evento político. Ela ocorre há dez anos e serve para mostrar nosso orgulho em dizer que nosso amor não é diferente do de ninguém, explica Trajano.
Presidente do Movimento Gay da Bahia, o professor e antropólogo Luiz Mott, destacou a parada de Juiz de Fora como única. Aqui vemos toda a população participando, pessoas de todas as classes sociais. Em Salvador, por exemplo, isso nunca iria acontecer. Só vemos algo assim em Juiz de Fora, que é sempre aberta para a comunidade. Para o estudioso, a cidade é pioneira na questão dos direitos dos gays e deve servir de exemplo para todo o país.
Pelos jovens
Este ano, o centro das ações do MGM foram os jovens. A razão, segundo Oswaldo Braga é a vulnerabilidade destes a doenças sexualmente transmissíveis, bullying e violência. Esta é uma população que vem sendo deixada de lado por programas governamentais e não pode ser esquecida. Para chamar a atenção dos jovens, o militante e fundador do Grupo de Adolescentes Gays (GAG) do MGM, Guilherme Alves, foi eleito o rei da parada. Meu papel foi representar a juventude gay que vem sofrendo muito com a homofobia. Temos que criar a consciência de que precisamos lutar e nos engajar em uma causa que não é só minha, mas de todos. Nunca deixar de ser quem somos, mas com responsabilidade.
Presente no trio elétrico, o também integrante do GAG Christian Romanhol pontua também o caráter da parada de abrir os olhos dos jovens para a prevenção. Hoje (ontem) a cidade é nossa. Estamos contribuindo também para que o jovem busque a consciência dos seus direitos.
Para Trajano, as ações do MGM já surtiram efeito. Percebemos que nossas ações deram resultado e que a parada tomou conta dos jovens, principalmente nas redes sociais. Muitos vieram nos ajudar como voluntários e percebemos a comunidade envolvida, ressalta. Trazer um jovem como rei da parada foi uma maneira de mostrarmos a discriminação que eles vêm sofrendo, acrescenta Oswaldo.
Manifestação nas ruas com caráter político
A operadora de telemarketing Roberta dos Santos Borsate, pela terceira vez na parada, teve este ano uma emoção especial. Pela primeira vez ela esteve no evento acompanhada da mãe, a costureira Silvania Furtado Mello. Tenho dois filhos homossexuais e vim hoje acompanhar minha filha. Sempre apoiei. Acho que todos têm o direito de ser como devem ser, como desejarem, pontua. Muitas vezes o preconceito começa dentro de casa. Estou muito feliz de ter minha mãe hoje ao meu lado. Acredito que a Parada ajuda a diminuir cada vez mais esse preconceito contra os homossexuais, destaca Roberta. Pela primeira vez na Parada de Juiz de Fora, o ator e transformista Evandro Vale, de Dores de Campos, veio com as melhores expectativas para o evento. Junto com amigos, ele enalteceu o caráter político e de defesa dos direitos dos homossexuais do desfile juiz-forano. Vou a eventos em várias cidades e vejo que aqui está tudo mais colorido como deve ser. É o dia que temos para levantar nossa bandeira.
Presença habitual na cidade no dia da Parada Gay, Isabelita dos Patins cobrou mais união entres os setores da cidade, principalmente por conta do cancelamento do concurso Miss Brasil Gay. Acredito que a união faz a força. Nesta época vem gente do todos os cantos do país para Juiz de Fora. Mesmo assim, a cidade merece todos os elogios. É melhor mostrar a alegria do que a situação que vemos hoje, com a corrupção do país. Aqui recebo muito carinho da população.
Triagem do público
Assim como no ano passado, um forte esquema de segurança foi montado com o intuito de coibir brigas e realizar buscas por armas brancas e de fogo. As vias perpendiculares à Avenida Rio Branco receberam grades instaladas para controlar o acesso do público. Dessa forma, participantes suspeitos passavam por revista. Integraram as operações de segurança no Centro 383 Policiais Militares e 20 Guardas Municipais. Para evitar que conflitos chegassem à avenida, a polícia realizou a operação Pit Stop desde as saídas de bairros e durante o trajeto até o local do desfile.
O único susto ocorreu já próximo à Praça Antônio Carlos, ainda na Avenida Presidente Itamar Franco, quando um pequeno incidente atrasou a dispersão do evento. O primeiro trio elétrico chegou a esbarrar na fiação elétrica, e foi preciso que os participantes descessem do veículo, mas ninguém saiu ferido. O segundo trio só conseguiu deixar a avenida às 17h50.
*colaborou Renata Brum








