Assoreamento do Córrego São Pedro antecipa medo de enchentes

No Democrata, sedimentos são transportados de seções do córrego no Bairro São Pedro
O assoreamento do Córrego São Pedro é acompanhado com preocupação pela população que vive às margens do curso d’água. O temor é de que a gradativa obstrução do leito agrave as inundações, principalmente durante o período chuvoso. Um estudo da UFJF analisa o fluxo de sedimentos transportados em sete quilômetros de leito, entre o bairros São Pedro e Democrata. Embora ainda não haja confirmação de especialistas, a Associação dos Moradores Impactados pela Construção da BR-440 e a comunidade residente no entorno denunciam que o processo se acentuou após o início das obras da rodovia, que deve ligar a BR-040 à Zona Norte. Segundo o engenheiro civil Luiz Evaristo Dias de Paiva, responsável pela pesquisa da universidade, o fluxo de sedimentos nos períodos de seca supera a média de dez a 20 toneladas por dia, que é considerada normal.
O engenheiro, que é doutor em recursos hídricos com ênfase em transporte de sedimentos de rio, explica que "o maior perigo é o córrego perder a capacidade de transporte, o que favorece o depósito de material, aumentando a possibilidade de enchentes".
Causas
Entre as possíveis causas do assoreamento, o engenheiro cita a movimentação natural da bacia, o depósito irregular de material oriundo da construção civil e lançamentos indiscriminados de resíduos sólidos no córrego. "A gente percebe aqui (no São Pedro) sinais típicos de leitos que perdem a capacidade de transporte. Você vê um material argiloso no leito do córrego. Os cursos d’água que apresentam maior potencial, têm um leito com mais pedras," explica, mostrando a pequena "praia" formada no acesso ao Bairro Jardim Casablanca, na altura da Rua José Lourenço Kelmer. A formação argilosa é visível em inúmeros pontos do córrego, inclusive onde a vegetação está conservada, como na áreas rural.
Impactos
Sobre os impactos da construção da BR-440 no assoreamento do curso d’água, a assessoria do Dnit em Minas Gerais argumentou que as obras estariam "ampliando em cinco vezes a vazão do córrego, o que deve resultar em um desassoreamento." Luiz Evaristo não descarta a possibilidade, uma vez que a canalização do leito pode ter essa consequência.
Já na altura do Bairro Democrata, onde as encostas do córrego não apresentam intervenções humanas, percebe-se que o assoreamento é provocado pelo transporte de sedimentos de trechos superiores, conforme explica o professor. "No estudo, fazemos um raio X do fundo do curso d’água. Comparamos o material nos pontos e classificamos a areia, mostrando de onde ela vem. O transporte de material acontece de forma gradativa."
Medições
Nos meses de abril e maio deste ano, três medições foram feitas em quatro seções (ver quadro), três na Zona Rural e uma em perímetro urbano. O maior fluxo de sedimentos se concentrou nas seções três (no início da Via São Pedro, perto do condomínio SpinaVille) e quatro (Democrata). Conforme as medições da UFJF, o acúmulo de materiais entre estas seções oscilou de uma tonelada, no dia 13 de abril, para 20 toneladas, no dia 27 do mesmo mês, alcançando 37 toneladas em 25 de maio.
Luiz Evaristo explica que, os percentuais elevados não representam apenas o depósito de sedimentos, mas também a mistura com o material orgânico do córrego. "As 37 toneladas, por exemplo, consideram o fluxo, e não apenas o que foi depositado. No entanto, ao longo dos anos, esse depósito pode atingir essa taxa." Na área rural – nos arredores da Represa São Pedro e na BR-040, em frente ao Expominas – o fluxo de sedimentos não chegou a um décimo de tonelada por dia.
A pesquisa também indicou variação na vazão do córrego, que passou de 390 litros por segundo (13 de abril), para 793 (27 de abril) e 537 litros (25 de maio), o que, conforme explica o especialista, também potencializa a possibilidade de enchentes. "A pesquisa foi feita no período de baixas vazões, há uma tendência de aumentar a concentração de sedimentos no período de chuvas."
População relata prejuízos e rotina tensa
O eletrotécnico Leandro de Oliveira, 35 anos, que possui um terreno à beira do Córrego São Pedro, na Avenida Presidente Costa e Silva, teme uma nova enchente. Segundo ele, no final do ano passado, a água chegou a entrar dez metros na propriedade. Leandro conta que o problema do assoreamento teria se agravado há um ano, coincidindo com a época de obras da BR- 440. "Eles vão escavando, e a terra vai descendo. Como não podemos mexer, temos que ficar vendo o assoreamento. A água subiu tanto que tampou a saída pluvial. Daqui a pouco, vai invadir o Bosque Imperial", diz, referindo-se ao condomínio vizinho. O eletrotécnico argumenta que já perdeu dez metros de propriedade.
Ao lado do terreno, existem outras três moradias. O acesso a essas casas se dá por uma ponte de madeira, que, na época das chuvas, chega a ser encoberta pela água. Um desses imóveis pertence ao aposentado Geraldo Gomes, 81. "O córrego era fundo, agora só traz sujeira e barro." Em um trecho onde as obras da BR-440 já foram concluídas – em frente à UPA de São Pedro -, a aposentada Rita Rosa de Jesus, 71, também se queixa: "A água chega no portão das casas. O cano instalado para dar vazão não funciona. Perdi terreno por causa das obras."
Enchentes
Também professor da UFJF e engenheiro civil, Cézar Barra, conta que já visitou diversos pontos críticos no entorno do córrego. Segundo ele, a Rua Rosa Fatori Anselmo, no São Pedro, é uma das mais castigadas nos períodos de chuva. Para minimizar os prejuízos, os próprios moradores já teriam levantado muretas para impedir o fluxo de água. Como possível solução, ele aponta o manejo adequado de terraplanagem. "Além das casas, esse assoreamento também pode provocar o alagamento da própria rodovia, já que não há local adequado para o escoamento da água," analisa o professor.
Segundo o presidente da Associação dos Moradores Impactados pela Construção da BR-440, Luiz Cláudio Santos, o trecho da Via São Pedro, próximo ao supermercado Bahamas, onde o canal está concluído, já sofreu inundação. "Isso evidencia o equívoco da construção, que não será suficiente para conter o leito do rio. Por certo, com a contínua impermeabilização da Cidade Alta, além do crescimento desordenado, nos próximos anos, teremos sérios problemas com enchentes." Ele acrescenta que a associação entrou com um processo na Justiça Federal, em fevereiro, em busca de uma solução para o problema.
Tratamento
O Córrego São Pedro é um dos cinco que irão passar por intervenções no projeto que visa a tratar 95% do esgoto de Juiz de Fora. Hoje apenas 9% recebe tratamento. Os trabalhos incluem a implantação de coletores tronco, interceptores, além de estações elevatórias e de tratamento. A fase inicial do projeto é orçada em R$ 110 milhões e deve ser finalizada em dois anos. Segundo a assessoria de comunicação da Secretaria de Obras, o problema do assoreamento está sendo monitorado e deve ser minimizado com a obra.








