Histórias de revolta e dor na 040

Trocar a fralda e dar banho são mais que cuidados, são momentos de carinho e aconchego entre mãe e filho. Mas a pensionista Simone Aparecida da Silva, 35 anos, moradora de Ewbank da Câmara, não pôde desfrutar desses instantes com o caçula. Ele nasceu depois que ela já não podia mais realizar tarefas simples. Simone foi mutilada. Perdeu parte do braço direito, teve fratura exposta nas duas pernas e ficou em cima de uma cadeira de rodas por mais de um mês e meio após ser atropelada na BR-040, em 2008. Logo após o acidente, ela engravidou e teve que contar com ajuda do marido e da filha mais velha, na época com 10 anos, para conseguir cuidar do bebê. Hoje Ruan tem 4 anos. Mesmo criança, o menino já entende o drama. "Ele me disse: ‘Mãe, se pudesse tirava um braço meu e dava para a senhora", conta Simone, com lágrimas nos olhos.

Reviver a lembrança do acidente, ocorrido na tarde de 12 de abril de 2008, não faz bem à pensionista. Mas ela sabe que é preciso relatar o que vem acontecendo na tentativa de sensibilizar o Governo, diante do perigo da via, considerada uma das mais importantes estradas federais do país. Na segunda matéria da série "Estrada do Medo", a Tribuna mostra que não há segurança para quem trafega de veículo, nem para quem mora em seu entorno ou precisa atravessá-la diariamente. Faltam melhorias na capacidade viária, obras de retorno e passarelas. Sem isso, o resultado são acidentes, mortos, feridos, vidas desfeitas e rotinas alteradas.
"Minha vida não é normal, como era. Mudou tudo. Antes trabalhava com as mãos, fazia unha e cabelo para fora. Naquele dia, voltava de um trabalho em Juiz de Fora e desci do ônibus na rodovia. De repente, vi o carro rodando. Não deu tempo de nada. Só cruzei o braço, na tentativa de me proteger. Ele foi decepado na hora. Tive fratura exposta nas duas pernas. Perdi muito sangue e fui perdendo a visão, mas me lembro de tudo até chegar ao hospital. Mas pior do que a dor física, é a emocional. Hoje não posso fazer nada. Tenho limites, não consigo andar muito, não posso pegar peso, sinto dores crônicas, minhas pernas incham. Agradeço muito a Deus de estar viva ainda, mas quem é vítima de acidente sabe que nada volta ao normal. Custei a me adaptar. Ficavam me olhando, tinha vergonha. Quando você nasce com a deficiência, é uma coisa, mas quando você fica deficiente por conta de um acidente, é difícil. O preconceito físico existe sim. Me sentia a única diferente, precisei de muita ajuda psicológica. Sempre que chegava em frente à BR-040, entrava em pânico, tinha crises de choro. Até hoje tenho medo. Quem depende dela sabe que pode sair de casa sem saber se vai voltar."
‘Coração apertado’
Muitos realmente não voltaram. A família do lavrador Orlando Gonçalves Pereira, 73 anos, conhecido como Landinho pelos moradores de Ewbank, ainda sofre com sua ausência. O trabalhador rural morreu esmagado por uma bobina de aço de 8,9 toneladas, que caiu de um caminhão, no km 756, em 2004, quando caminhava pelo acostamento. A mulher, a filha adotiva e os netos tiveram que aprender a viver sem o homem, que era o arrimo da família. "Ele era tudo na nossa vida. Ele não teve filhos, mas me criou como filha biológica. Hoje sinto falta dos seus conselhos", relembrou Lucimar Dias de Paula Jesus, 45.
As perdas são frequentes. Em um dos dias em que a Tribuna esteve na BR, em 27 de agosto, outro trabalhador rural foi vítima de atropelamento. Evandro Belo do Nascimento, 48, voltava de bicicleta da fazenda onde trabalhava como ordenhador quando foi atravessar a via e acabou sendo atingido por um caminhão. Ele chegou a ser levado para o hospital de Santos Dumont com traumatismo craniano, sendo transferido com urgência, para a Santa Casa, em Juiz de Fora. Três dias depois, não resistiu e morreu. A Tribuna acompanhou a tensão da família após o acidente. Na varanda de sua casa, de onde avista a rodovia e inúmeros acidentes, a mãe do ordenhador Isaura Maria do Nascimento, 69, prenuncia: "Desde cedo, meu coração estava apertado."
Cruzes evidenciam as perdas na via
Somente este ano, de janeiro a julho, dez pessoas foram atropeladas na via, entre Juiz de Fora e Belo Horizonte, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF). Quatro morreram e seis ficaram gravemente feridas. As mortes frequentes levaram comunidades a fazer manifestações nos últimos meses, tomando as pistas da rodovia para cobrar providências do Governo federal. Desde janeiro, foram nove paralisações, o que provocou 86 horas de fechamento da estrada, conforme levantamento da PRF realizado a pedido da Tribuna.
A maior parte das paralisações aconteceu em localidades entre Conselheiro Lafaiete e Congonhas. No km 603, em Pires, distrito de Congonhas, cruzes evidenciam as perdas de moradores. Raimundo Martins, Fernando, Natália Firmino, Alessandro Ferreira, Jhonatan Silva, Carmem, João, Adriano. Oito mortes nos últimos anos em uma comunidade que não chega a quatro mil habitantes
Muitos perderam a vida na travessia e não tiveram tempo de se formar, se casar, ver os filhos crescerem e até quitar suas dívidas. "O último que morreu foi o Didi, deixou dois filhos pequenos. Ele tinha comprado um DVD na loja e ainda nem tinha pago. Agora vou rasgar a notinha. Ele estava saindo da igreja, passou na casa de um parente e foi atravessar. Veio um Fiesta, jogou ele para o alto, em seguida passou outro carro por cima. A outra foi a Natália. Ela tinha 27 anos e estava se preparando para casar. Trabalhava em uma empresa e atravessou a estrada de mão dada com uma ajudante. Ela morreu na hora. Também perdemos o Jhoninha, com 19 anos, atingido por um caminhão", narrou Juliana Lisboa, integrante da Comissão de Moradores de Pires. "É muito triste lidar com essas perdas, pois somos como uma família. Só estamos perdendo amigos queridos, trabalhadores, e não podemos aceitar essa situação. Só queremos uma passarela. Promessa que existe desde 2010, mas o que fizeram foi implantar somente o radar. Lucro para eles."
Em Conselheiro Lafaiete, outras comunidades também são forçadas a conviver com as mortes. Na região da Barreira, o tráfego intenso na rodovia associado à falta de retornos coloca a zona industrial e comercial como uma das mais perigosas. Muitos já faleceram, até mesmo empresários da região. Ronaldo Rodrigues Valopis, 45, perdeu o irmão caçula, 39, há quatro meses. "A vida dele foi interrompida. Deixou três filhas e um patrimônio conquistado com muita luta. Ele estava de moto, em frente à Fiat e foi atropelado. O risco aqui é muito grande. Na hora, fui lá. Somos uma família muito unida, e, por ele ser o caçula, todos sentimos muito. Ele ficou 17 dias internado, mas não resistiu. E nada é feito."
Na altura de Gagé, outro bairro de Conselheiro Lafaiete, famílias também são desfeitas em razão da violência na rodovia. "Não gosto de lembrar o assunto, mas nunca esqueço. Ela tinha 14 anos quando foi atropelada. Se ela estivesse aqui, estaria com 25 anos. Fico com medo até hoje, pois não temos alternativa. Para ir no médico, precisamos atravessar e corremos riscos", relata a dona de casa Eni Aparecida da Silva, 41.
O vizinho, o lavrador Dorneval Carlito Bento da Silva, também perdeu um filho atropelado por um ônibus. "Esse foi o terceiro filho que perdi. Uma morreu de coração, outra atropelada por trem e o último atropelado na 040. Ele veio me visitar e foi embora para Lafaiete. Quando estava atravessando, foi atingido por um ônibus."
Perigo vem do alto em Santos Dumont
Em Santos Dumont, o perigo não está somente na travessia. Ele vem de cima. Moradores de pelo menos quatro bairros – Centro, Santo Antônio, São Sebastião e Nossa Senhora da Glória – têm que conviver com o risco diário de quedas de carros e caminhões sobre vias e imóveis. Vivendo em uma casa embaixo do viaduto há 40 anos, no Bairro Glória, Maria Aparecida Costa, 70, diz estar viva por milagre. Em torno de sua residência, há marcas dos últimos acidentes: bananeiras amassadas, postes quebrados, restos de guarda-corpo espalhados (alguns atingiram a janela do imóvel). "Já vi de tudo. Caminhão, carro dependurado. Muitos que caíram, outros que já passaram beirando a casa. Tenho medo, mas peço a Deus para guardar o imóvel. Num dos últimos acidentes, o caminhão caiu sobre o fio de alta tensão, que atingiu a minha casa. Quando saí e encostei na grade, fui eletrocutada, desmaiei. Fui para o hospital e, segundo o médico, só não morri por um milagre. Ainda estou em tratamento."
Milagre também foi o que aconteceu com o empresário sandumonense Patrick Luiz de Meireles, 33. Ele foi o único sobrevivente de um acidente cinematográfico. Na sexta-feira antes do carnaval de 2012, um guincho, que levava um Fox, despencou do viaduto sobre o Bairro Santo Antônio e caiu em cima do caminhão conduzido por ele. Três pessoas morreram, entre eles o ajudante de caminhão e amigo Pedro, que estava ao seu lado no veículo. Ainda abalado, Patrick não gosta de relembrar a tragédia. "É como se tivesse em um filme. Só estou vivo porque desviei de uma poça. Foi o tempo de desviar e, de repente, um caminhão despencou de mais de 80 metros e caiu na nossa cabeça. O pior é que nada é feito. Existe projeto para construir uma estrada por fora da cidade, mas nunca saiu do papel."
A situação tem levado diversas autoridades a intercederem junto ao Ministério dos Transportes, cobrando celeridade na execução dos projetos de melhorias de segurança da BR- 040, principalmente a construção de passarelas. O deputado federal Jaime Martins (PR) se encontrou, em Brasília, no último dia 27, com o ministro dos Transportes, César Borges. "Expus ao ministro a gravidade da situação. Trata-se de um investimento prioritário, uma vez que temos hoje comunidades divididas, onde crianças e dezenas de moradores atravessam a rodovia diariamente."








