HPS atende mais de 5 mil vítimas de trânsito
Cinco mil e trinta e dois atendimentos a vítimas de acidentes de trânsito foram realizados no Hospital de Pronto Socorro (HPS) em 2011, o que representa uma média de 14 novos pacientes por dia na unidade só neste setor. Na comparação entre os últimos quatro anos, o número de vítimas de atropelamentos, quedas de motos e batidas de carro teve um salto na instituição (ver quadro), revelando o recrudescimento da violência no trânsito de Juiz de Fora. Em 2008, haviam sido registrados 3.526 casos, com média diária de dez atendimentos na unidade. As ocorrências no tráfego também têm reflexos para o serviço de Resgate do Corpo de Bombeiros. Se em 2008, elas representavam 20% do total de chamados, no ano passado, o índice chegou a 29%. Em janeiro deste ano, os números continuaram em alta. Segundo dados do Pelotão de Policiamento de Trânsito da PM (PPTran), foram 593 acidentes neste período no município. Embora as estatísticas de fevereiro ainda não estejam disponíveis, é possível identificar, pelos boletins de ocorrências, que a situação persiste.
Uma preocupação maior tem sido com as motocicletas. Nos três últimos anos, o número de motos emplacadas no município sofreu um aumento de 17,97% (ver quadro). No mesmo período, as ocorrências envolvendo estes veículos, atendidas pelo Resgate, subiram 40,43%. Se em 2009 foram 195 socorros prestados, dois anos depois, as estatísticas apontam um salto para 327. No mesmo período, cresceu, também, o número de mortes de motociclistas, que passou de 13 para 24, conforme a Secretaria de Saúde. Já no HPS, principal porta de entrada para os serviços de urgência e emergência em Juiz de Fora, foram socorridas 1.082 vítimas deste tipo de acidente em 2009 e, no ano passado, o índice atingiu 1.559, um aumento de 18%.
Leitos
Segundo o diretor do HPS, Clorivaldo Rocha, o custo operacional da unidade, para tratar vítimas de traumas em acidentes de trânsito, é de aproximadamente R$ 2 milhões ao mês. De acordo com ele, isso representa uma ocupação média entre 70% e 80% dos leitos e de todo o valor necessário para manter a instituição. O custo é elevado porque estes pacientes necessitam de um atendimento diferenciado. Eles ficam internados, submetem-se a exames de raios-X, passam por cirurgia e, às vezes, são encaminhados ao CTI. Sem contar o momento de reabilitação, que pode chegar a 20 dias, já que muitos precisam passar por fisioterapia. O diretor também afirma que a maioria dos acidentados é formada por homens, com menos de 40 anos de idade. Os traumas representam a maior causa de óbitos registrados no hospital.
Pesquisadora da violência no trânsito, a doutora em sociologia e professora da PUC/MG Andreia Santos lembra que o número de acidentes era elevado antes do surgimento do novo Código de Trânsito Brasileiro (CTB), em 1997, e que, depois, chegou a sofrer um declínio. No entanto, no início da década de 2000, voltaram a ter ascendência. Andreia aponta a fiscalização precária e a falta de campanhas educativas como os principais motivos. O problema é que o condutor acha que dirige bem, que nunca vai sofrer um acidente. A maioria é muito segura de suas ações. Conforme a socióloga, que é juiz-forana e se graduou na UFJF, o quadro não é exclusividade do município, mas repete-se principalmente nos grandes centros. Se o Poder Público não fizer a sua parte, a realidade não vai mudar.
De acordo com a socióloga, a demanda crescente por leitos para acidentados nos hospitais causa prejuízos ao Sistema Único de Saúde (SUS). Ela comenta sobre um diagnóstico realizado em 2003 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O índice de leitos ocupados nos hospitais de pronto socorro chegava a 55% naquela época. Infelizmente, não há um estudo mais recente, mas posso garantir que hoje esta taxa é maior.
Cerca de 40 mil motos em circulação
A maioria das vítimas que chega ao Hospital de Pronto Socorro (HPS) é em decorrência de casos envolvendo motos, segundo o diretor da unidade, Clorivaldo Rocha. De acordo com os registros da Polícia Militar, 128 ocorrências foram contabilizadas em janeiro, com dois óbitos. Em todo o ano de 2011, foram 1.641 registros e nove mortes, enquanto, no ano anterior, haviam sido contabilizados 1.431 casos, com dez óbitos.
No dia 10 deste mês, por exemplo, um motociclista, 23 anos, bateu em um carro que saía da garagem de uma oficina. Ele foi levado para o HPS e passou por cirurgia, pois estava com fraturas. Neste caso, a vítima foi autuada por ser inabilitada. Flagrantes de abusos também podem ser notados na cidade. Na sexta-feira, 17 de fevereiro, a Tribuna observou um motociclista na Rua Espírito Santo, próximo à Catedral Metropolitana, circulando pela calçada, onde o movimento de pedestres é intenso durante todo o dia.
Conforme o comandante do Pelotão de Policiamento de Trânsito da PM (PPTran), tenente Jean Michel Amaral, o aumento do número de ocorrências envolvendo motos está ligado às características daqueles que adquirem o veículo. Geralmente são jovens entre 18 e 23 anos, que também são os principais causadores de acidentes. Tenho a informação de concessionárias da cidade de que 50% das vendas concretizadas são para pessoas sem habilitação. É um dado preocupante. Segundo a assessoria do Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos de Minas Gerais (Sincodiv-MG), muitas das vendas, de fato, são feitas para condutores inabilitados porque a lei permite. No entanto, o sindicato não confirmou o índice apresentado pela Polícia Militar. De acordo com o Departamento Estadual de Trânsito (Detran-MG), são mais de 40 mil motos em circulação no município, mas não existe um levantamento com o número de habilitados na categoria A.
‘A situação está cada vez pior’
O comandante do Pelotão de Policiamento de Trânsito da PM (PPTran), tenente Jean Michel Amaral, alerta para uma situação: embora o número de carros em Juiz de Fora seja cinco vezes maior que o de motos, o índice de atropelamentos provocados por veículos de duas rodas já se equipara. Em 2011, 40% destes acidentes foram causados por automóveis de passeio e 30%, por motos. Este é um dos motivos, segundo o tenente, para as blitze voltadas os motociclistas serem mais frequentes. Além disso, pela facilidade de locomoção, elas são utilizadas constantemente em crimes. Segundo o tenente, as motos são perigosas e de fácil aquisição. Com R$ 500 de entrada e R$ 100 por mês, a pessoa consegue comprar uma. Infelizmente não haverá redução no número de acidentes.
O presidente da Associação dos Motoentregadores de Juiz de Fora, Antônio Carlos Lourenço, o Toninho Motoboy, argumenta que grande parte dos acidentes com automóveis não é causada por profissionais. A situação está cada vez pior. Quando comecei a andar de moto na cidade, há 20 anos, a realidade era outra. Também é importante frisar que, nem sempre a culpa é dos motociclistas. Muitos condutores de veículos são incapazes de olhar o retrovisor ao mudar de faixa. Outro problema, apontado por ele, é a maneira como os exames para conseguir a carteira são realizados. Aquela pista não consegue simular as adversidades que encontramos nas ruas.
Ações são compartilhadas entre PM e Settra
Diante da violência no trânsito, a população cobra uma maior fiscalização e mais rigor contra os abusos. Segundo o comandante do Pelotão de Policiamento de Trânsito da PM (PPtran), tenente Jean Michel Amaral, há seis anos, a fiscalização era exclusividade da PM, hoje a guarda é compartilhada com os agentes municipais. Isso acontece nas grandes cidades do país. Se tínhamos 230 homens para o trabalho, hoje são cerca de 70. Eles precisam atender toda a demanda de acidentes envolvendo vítimas e executar atividades preventivas, como a Transitolândia, que será ampliada para atender não só crianças, mas também os idosos, e as operações de lei seca.
O secretário de Transportes, Márcio Bastos, afirma que 78 agentes de trânsito estão atuando hoje no município, um contingente 90% maior que o do início de 2009, quando havia 41 profissionais. Bastos ressalta o convênio, firmado entre Polícia Militar, Polícia Civil e Settra, para que os agentes possam emitir boletins de ocorrência em acidentes em que haja vítimas. Desde o início do mês, os profissionais têm esta autonomia. O titular da Settra também menciona as obras de melhorias das avenidas Presidente Itamar Franco (antiga Independência), Rio Branco, Deusdedit Salgado, Olegário Maciel e Rua Santo Antônio como artifícios para oferecer mais segurança aos condutores e pedestres, já que, segundo ele, a frota aumenta, em média, 8% ao ano. Ainda de acordo com o secretário, diversas atividades educativas têm sido desenvolvidas com o objetivo de coibir os acidentes. Uma delas é o projeto Monitores de travessia, que recruta e capacita voluntários, e a campanha Dê o exemplo, com blitze temáticas nas ruas do município.
Investimentos
De acordo com o assessor de comunicação do 4º Batalhão de Bombeiros Militar (4º BBM), capitão Marcos Moreira Santiago, a ampliação da frota de veículos na cidade e as dificuldades do trânsito, em vias já saturadas, contribuem para o registro das estatísticas. O militar ressalta o crescimento da capacidade do Resgate, que adquiriu veículos novos com a Taxa de Incêndio. Ele informa que 70% das sete ambulâncias em operação foram compradas por meio da taxa. No entanto, o assessor pondera: Se atendêssemos menos ocorrências de acidentes, poderíamos investir em prevenção e projetos sociais, mas, infelizmente, precisamos de, cada vez mais, disponibilizar recursos humanos.
Tenente Jean Michel Amaral defende que, para diminuir as ocorrências, é necessário investir em engenharia de tráfego e tecnologia, o que hoje não é uma realidade do município. Nas grandes cidades do mundo, câmeras nas principais rodovias monitoram e acompanham o comportamento dos condutores, e isso ajuda a reduzir os abusos. O comandante também não vê alternativa a curto prazo. Não acredito em diminuição das ocorrências porque a frota aumenta a cada dia. Conforme o Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos de Minas Gerais (Sincodiv-MG), somente em 2011, foram emplacados, em Juiz de Fora, 15.456 veículos, contando apenas carros e motos, e excluindo veículos de carga.








