Vagas nas ruas emperram tráfego na área central
O já saturado fluxo de veículos da área central fica ainda pior nesta época do ano, por causa do movimento no comércio, quando o volume de automóveis em circulação aumenta em aproximadamente 20%, de acordo com a Settra. Com isso, fica mais evidente a dificuldade de escoamento do trânsito em ruas estreitas e com permissão para estacionamento de carros. Em muitos locais, vagas de Área Azul e carga e descarga ocupam os dois lados das ruas. Ou seja, onde poderiam circular três automóveis simultaneamente, passa apenas um. É o caso das ruas Braz Bernardino, Fernando Lobo, Halfeld e Floriano Peixoto (parte baixa). Em outros pontos, vias estreitas têm a capacidade reduzida à metade pelas vagas. A situação pode ser encontrada, por exemplo, nas ruas Fonseca Hermes, Barbosa Lima e São João Nepomuceno. Em outros corredores, como ruas Santa Rita, Batista de Oliveira e o trecho central da Avenida Itamar Franco, entre a Avenida Rio Branco e a Batista de Olivieira, apesar de duas pistas liberadas, a fluidez também é prejudicada pelo tráfego intenso.
Neste período, as retenções são inevitáveis e exigem paciência de motoristas e pedestres, principalmente, em frente a entradas e saídas de estacionamentos privados e ruas com grande concentração de lojas, nas quais carros param no meio da pista para embarque e desembarque de passageiros. A implantação de um novo modelo, no qual as vias poderiam ter a capacidade de fluxo ampliada com a retirada das vagas, será um dos assuntos a serem discutidos durante a elaboração de um estudo técnico, ainda não iniciado, para a implantação do Plano Municipal de Mobilidade Urbana. Conforme determinação do Governo federal, o estudo deve ser concluído em até três anos.
De acordo com o engenheiro e especialista em trânsito Luiz Antônio Moreira, é necessário avaliar que seriam pontuais as eventuais melhorias no tráfego com a retirada das vagas. "Certamente, em algumas ruas, o fluxo melhoraria de forma imediata. Mas é preciso observar que, em outras artérias, o problema continuaria, como as avenidas Rio Branco e Itamar Franco. É preciso fazer um estudo para verificar o impacto em cada área. A próxima administração municipal não vai poder fugir da revisão de um novo plano na setor de transportes. Já passou da hora de isso ser feito." Uma das alternativas apontadas por engenheiros de trânsito é a construção de edifícios-garagem no Centro, o que atualmente é vetado pela Lei de Uso e Ocupação do Solo, de 1990. "Esses prédios seriam aliados porque, na verdade, os veículos não precisariam mais estar estacionados na via pública, e sim fora dela. Para isso, é preciso rever toda a legislação vigente de forma que crie incentivos e benefícios para quem quiser investir neste tipo de empreendimento", avalia Moreira.
Vagas removidas
Um exemplo de que a redução das vagas para carros nas ruas pode facilitar o escoamento pode ser observado no Bairro Fábrica, Zona Norte. No local, o trânsito melhorou após a retirada de áreas de estacionamento público e remoção de canteiros na via principal. Depois das intervenções, a Rua Bernardo Mascarenhas ganhou uma nova pista de rolamento, diminuindo as retenções, principalmente em horários de pico. No corredor, além da nova pista, entre as ruas Eduardo Weiss (via de acesso ao Monte Castelo) e Tereza Cristina, e da retirada de canteiros próximo ao Instituto Federal (IF Sudeste), houve a troca da pavimentação em toda a extensão. Também foram instaladas 23 placas de sinalização vertical, informando sobre a proibição de estacionar. A exceção ocorre para vagas de carga e descarga, que agora estão apenas em um dos lados, na direção Centro/bairros.
Segundo o presidente da Sociedade Pró-Melhoramentos dos bairros Fábrica e São Dimas, Marlos Novaes, 90% da comunidade aprovam as intervenções. "Poucos comerciantes questionam as mudanças. Por outro lado, observamos que não há mais vendedores de automóveis ocupando a via. Eram mais de 50 carros deste tipo diariamente por aqui." Ele afirma que o trânsito está melhor após alterações, e os reflexos podem ser observados, inclusive, em bairros próximos.
Alternativas para melhorar fluidez em debate
O prazo estipulado pelo Governo federal para que municípios com mais de 500 mil habitantes elaborem seus planos de mobilidade urbana termina em abril de 2015. Conforme a Lei 12.587, o estudo que será realizado deve apontar diretrizes nas áreas de mobilidade, acessibilidade, segurança no trânsito e estacionamentos. Em Juiz de Fora, de acordo com o titular da Settra, Márcio Gomes Bastos, a situação das vagas da Área Azul e possíveis alternativas para melhorar a fluidez na área central devem estar no plano. Hoje a cidade conta com 1.521 vagas no rotativo pago, sendo 1.258 apenas no Centro. Somente no final de 2011 e início deste ano, foram criadas 586. "As mudanças devem ser amplamente discutidas com a sociedade para equilibrar desejos e necessidades de vários segmentos. É válida a ideia de recuperar o espaço viário de forma que diminua as retenções, mas, para isso, é necessário considerar as características do local. Hoje o Centro precisa da Área Azul porque o comércio é forte e atrai pessoas."
Transporte público
O engenheiro e especialista em trânsito Luiz Antônio Moreira afirma que o plano deve ser pensado de forma que o transporte público seja prioridade ao individual. "Uma das maneiras de resolver o problema é criar os edifícios-garagem em áreas de transbordo, afastados do polígono central (entre as avenidas Itamar Franco, Rio Branco e Getúlio Vargas). O cidadão iria de carro até este prédio e, em seguida, completaria a viagem de ônibus. Para isso, precisamos ter um transporte público de qualidade."
Bastos concorda com a opinião do engenheiro e diz que edifícios-garagem podem ser alternativas ao atual sistema, inclusive com a criação de áreas de transbordo para integrar os prédios ao sistema de transporte coletivo. "Também precisamos pensar em ampliação para a área de pedestres e criação de alternativas para carga e descarga."
Conforme o secretário, o esboço do estudo já começou em Juiz de Fora, mas a previsão é que, no próximo ano, seja contratada uma empresa de consultoria especializada para auxiliar nas atividades. "O grande desafio será adequar nosso trânsito ao aumento da frota, que hoje já passa de 200 mil veículos. Os engarrafamentos não são mais exclusividades da região central, mas também de subcentros, em bairros com características comerciais. Precisamos propor e criar caminhos alternativos", avalia.
Área Azul usada de forma irregular
Ao mesmo tempo em que é discutida a situação de rua da região central, vagas da Área Azul continuam sendo utilizadas de forma irregular. Como a Tribuna denunciou duas vezes este ano, vendedores utilizam os espaços para comercializar automóveis. A situação é encontrada, principalmente, na parte baixa da Rua Batista de Oliveira, onde cerca de 20 carros com placas de "vende-se" podem ser vistos durante todo o dia. A prática, além de prejudicar a fluidez no tráfego, derruba o conceito do estacionamento rotativo pago, que é o de democratizar as vagas.
Após denúncia da Tribuna em março, a Prefeitura realizou fiscalização na área no dia 13 de abril, por meio de ação conjunta entre as secretarias de Trânsito (Settra) e Atividades Urbanas (SAU). Na ocasião, foram identificados oito infratores, que seriam responsáveis por 13 automóveis. Cada um foi multado em R$ 520,52 por atividade irregular.
Meses depois, os espaços voltaram a ser ocupados pelos mesmos vendedores. A reportagem retornou ao local em setembro e constatou o problema. No entanto, não houve nova operação para coibir a prática.
De acordo com a SAU, o que compete à pasta é a fiscalização ostensiva na área para coibir a venda de automóveis, o que estaria sendo executado. O problema, ainda conforme a secretaria, estaria na rotatividade da vaga, já que os responsáveis pelos veículos apenas trocam os cartões e permanecem no mesmo local.









