Imaturidade para escolher carreira

Mariana ainda não decidiu o que fazer, Lucas vai cursar direito e Estevão quer um curso na área de c
A poucos dias do início das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), uma questão aflige muitos jovens inscritos: a necessidade de optar por um curso de graduação. No Brasil, esta escolha geralmente é feita quando alunos entre 17 e 18 anos concluem o terceiro ano do ensino médio. Alguns, como Lucas Costa, 17 anos, estudante do Colégio Stella Matutina, sabem exatamente o que querem. "Sempre quis cursar direito e, conhecendo um pouco das disciplinas, acho que é a carreira com a qual possuo maior aptidão." Para boa parte dos quase seis milhões de inscritos, entretanto, o momento é de indecisão. É o caso de Mariana Hallack, colega de classe de Lucas. "Ainda não decidi o que fazer, mas como a preparação exige conhecimento de todas as disciplinas, não estou preocupada."
Para estudantes como Mariana, o fato de não precisar decidir o curso pretendido antes do exame de seleção, como ocorre com o Enem, pode ser uma vantagem. A opção só é feita depois que o candidato tem acesso a sua pontuação, cadastrada no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), o que também ajudou Estevão Paes, 18. "Sei que quero fazer algo da área de ciências humanas, mas não bati o martelo por algum curso. É uma preocupação a menos antes da prova."
Na visão do educador e especialista em orientação profissional Maurício Sampaio, escolher a carreira após ter a pontuação em mãos pode afastar os estudantes de sua real aptidão. "Muitos podem escolher uma profissão qualquer só porque sua nota permite o ingresso naquela graduação. É uma maneira de resolver um problema imediato e deixar de ter a pressão e a cobrança dos pais para a entrada em uma universidade, por exemplo." Sampaio destaca, entretanto, que a escolha de uma carreira sem a devida ponderação pode ter consequências graves. "Primeiro, pode causar evasão dos cursos universitários, o que acarreta em prejuízo aos cofres públicos no caso de uma instituição federal que se preparou para receber o aluno por quatro ou cinco anos. No caso das particulares, a perda é para quem está pagando a mensalidade. Para aqueles que não abandonam a faculdade, mesmo não gostando dela, há problemas, como estresse e depressão, em decorrência da frustração profissional."
Segunda chance
Para fugir de um diagnóstico como esse, o jornalista formado pela UFJF Felipe Nascimento, 23, abandonou a carreira assim que conseguiu o diploma e agora pleiteia uma cadeira na medicina, fazendo cursinho. "Quando fiz vestibular em 2006, era muito imaturo e não tive a orientação adequada para escolher minha profissão. Meus pais, que são de Três Rios (RJ), queriam que eu passasse para alguma faculdade, independente do que eu cursasse, e eu vi na universidade uma oportunidade para sair de casa. Mas, durante o curso, vi que o jornalismo não era minha real vocação, mas decidi terminar o curso assim mesmo e acho que tomei a decisão correta. Hoje me comunico com muito mais facilidade com as pessoas, o que certamente fará de mim um médico melhor."
Segundo a psicóloga do Cave, Eliana Balena, casos como o de Felipe, muitas vezes, têm impacto positivo na vida profissional do estudante. "O aluno pode se beneficiar muito de um ingresso um pouco mais tardio, porque ganha mais maturidade, mais experiência de vida. Essa ideia disseminada no Brasil de que o estudante deve ingressar na universidade o mais rápido possível e se formar ainda jovem pode lançar muitos profissionais despreparados no mercado." Ela destaca, ainda, que encarar a opção por uma carreira como decisão definitiva também prejudica a tomada de uma atitude sensata. "Não podemos ser tão deterministas. Qualquer um pode rever sua escolha, independente da idade. Ver a opção por um curso como um caminho sem volta aumenta a pressão sobre o estudante e atrapalha a tomada de decisões."
Maurício Sampaio também argumenta neste sentido, apontando que os próprios centros de formação têm oferecido recursos para aqueles que buscam uma segunda chance serem contemplados com nova carreira. "É preciso ver a graduação como um degrau da formação. Muitas vezes, as pessoas podem ir para áreas completamente diferentes fazendo pós-graduações ou especializações. Além disso, os cursos tecnólogos permitem uma formação e uma recolocação rápida no mercado, e as graduações a distância aumentam a acessibilidade a uma nova formação superior."
Especialista avalia que despreparo também é físico
Segundo o especialista em orientação profissional Maurício Sampaio, os estudantes têm razão em se sentir despreparados para optar por uma carreira ao terminarem no ensino médio. "Esta é uma idade com muitas migrações neuronais e desenvolvimento cerebral. O cérebro só alcança a maturidade entre 21 e 22 anos e, só com essa idade, é possível fazer julgamentos a médio e longo prazo. Há um despreparo até em termos físicos que pode prejudicar a escolha da carreira."
Para Pedro Henrique Menezes, 18, a imaturidade foi a principal razão por sua opção em fazer direito, graduação que chegou a cursar por um ano antes de tentar a carreira que realmente o encantou: medicina. "Sempre se pode voltar atrás, mas acho que a pressão em ter que escolher alguma coisa aliada à nossa falta de experiência de vida pode fazer com que optemos por um curso que não é nossa verdadeira vocação." O estudante já foi aprovado no vestibular da UFJF em Governador Valadares, mas continua tentando vaga no campus juiz-forano via Enem.
Maurício Sampaio aponta que, em outros países, a escolha da profissão não está atrelada à conclusão da educação básica, diferente da realidade brasileira. "Nos Estados Unidos, muitos alunos tiram um ano sabático antes de entrar para a universidade, e a própria estrutura dos centros de ensino superior permite que eles cursem matérias genéricas para, só depois de um tempo, escolherem a profissão. No Brasil, quem dita as regras é o mercado, e a média dos diretores de empresas é entre 35 e 40 anos, o que pressiona os jovens a uma escolha precoce."
Para a psicóloga do Cave, Eliana Balena, é preciso relativizar o argumento sobre a imaturidade dos estudantes. "Fazer escolhas, em qualquer fase da vida, é sempre difícil, porque pressupõe assumir riscos, abrir mão de opções, enfrentar consequências. Há um claro descompasso: o jovens sentem-se maduros o suficiente para votar, dirigir, beber, sair à noite e ter uma vida sexual, mas não têm segurança para decidir sobre uma carreira. A idade não pode ser o único critério que determina se ele está pronto ou não. Isso é alcançado pelo exercício da reflexão, da autonomia e do comprometimento de cada um."
Família e escola podem ajudar na orientação
Na visão da psicóloga Eliana Balena, as escolas e famílias dos candidatos têm uma grande importância para que eles façam a melhor escolha. "Desde pequenos, são muito influenciados por estas duas instituições, que devem estimular o desenvolvimento da autonomia para ponderar os motivos pelos quais pretendem fazer a opção por uma carreira." Ela ressalta, entretanto, que é preciso cuidado para que esta influência não se converta em pressão direta ou indireta para que o estudante opte por uma profissão. Foi o que aconteceu com Pedro Henrique Menezes, 18, que chegou a cursar direito por causa da família. "Ao longo do ensino médio, nunca passou pela minha cabeça fazer outra coisa. Minha família tem muitos profissionais bem-sucedidos nesta área, então fui influenciado. Logo que passei para o curso, me arrependi, porque tinha me apaixonado pelas disciplinas de saúde." Segundo o especialista em orientação profissional Maurício Sampaio, a situação é muito comum.
"Ocorre principalmente quando os pais têm sucesso em uma profissão e, por proteção, querem que o filho siga este caminho para que tenham a qualidade de vida assegurada. Isso pode dar certo, mas tem seus ônus e bônus, porque o jovem pode passar a vida culpando os pais por uma escolha errada." Para fazer uma opção consciente, o especialista defende que o candidato tenha, antes de qualquer coisa, autoconhecimento. "Com isso, ele saberá de suas aptidões e habilidades, e poderá aliar isso a uma pesquisa do mercado, das oportunidades de cada área e de seus prós e contras. É interessante também entrar em contato com profissionais do ramo, para trocar experiências." Segundo o especialista, esse é um dos caminhos para tomar uma decisão sensata, como Thiago Wesley, 25. "Já até pensei em fazer outro cursos menos concorridos, mas decidi persistir na medicina, porque é a melhor profissão para aliar minhas habilidades e afinidades à posição que espero ocupar no mercado de trabalho."








