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Catadores têm esperança renovada


Por DANIELA ARBEX

08/01/2012 às 07h00

Acompanhe o passo a passo da mudança

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"Nossa"! A expressão de espanto é do morador de rua, Paulo Tadeu Soares da Silva, 57 anos, ao se olhar no espelho pela primeira vez em muitos anos. A imagem que ele viu refletida na lâmina de vidro não lembra em nada a daquele homem cabisbaixo, de cabelos desgrenhados e barba que há quatro anos não era sequer aparada. Personagem da matéria publicada pela Tribuna, no último dia 25 de dezembro, ocasião em que o jornal mostrou a realidade de pessoas que vivem na invisibilidade social, Paulo começou a resgatar, ali mesmo, na cadeira do salão que proporcionou sua transformação, a cidadania perdida, em 2004, quando foi desligado do último emprego com carteira assinada. Os depoimentos dele e de Antônio Carlos Alves da Silva, ambos catadores de material reciclável, comoveram a cidade no Natal. Por causa da reportagem, os dois experimentaram mudanças. Antônio, que puxa diariamente 500 quilos de resíduos, entra em 2012 com a promessa de um emprego formal, garantia de apoio na educação dos dois filhos e até a expectativa de obter uma casa para instalar a família. Já Paulo ainda não conseguiu tanto, mas inicia o novo ano saindo das sombras da indiferença social.

"Você está até bonito", brinca Roberto Carlos Ribeiro, do Salão Clássico, no Centro, responsável pelo corte de Paulo. Roberto e João Batista dos Santos, proprietário do salão, realizaram o serviço com o respeito de quem valoriza o outro. Deram a Paulo o mesmo tratamento oferecido a qualquer cliente do negócio mantido há 30 anos. "Aqui ninguém é bom, estamos todos aprendendo", comentou João Batista, durante o atendimento ao homem em situação de rua. Ser enxergado sem a lente do desprezo já é considerado por Paulo um bom começo.

A mudança de olhar talvez seja explicada pelo fato de que a história desse brasileiro poderia ser a de qualquer um. Informações obtidas junto ao Ministério do Trabalho, a pedido da Tribuna, revelam que Paulo, o morador de rua, teve sua primeira carteira assinada, em 1973, quando foi empregado, em São João do Meriti (RJ), por uma distribuidora de veículos e peças. Pelo menos outros cinco registros trabalhistas foram localizados na pesquisa. O último, como vigia em Divinópolis, há sete anos, confirma a versão do catador sobre seu passado de trabalho. Mas mesmo com CPF ativo, título de eleitor regularizado e todos os documentos de identificação, Paulo até existe para o sistema de dados do Governo, porém tornou-se invisível para a sociedade de consumo há sete anos, ao perder, junto com o emprego, o endereço. Sem poder pagar o aluguel da casa onde morava, restou a ele o despejo e a via pública como abrigo. Em pouco tempo, deixou o status de chefe de família para assumir uma situação de miserabilidade.

 

‘Última opção de sobrevivência’

Ao ser entrevistado em dezembro, Paulo contou que nada o feria mais do que ver as pessoas segurando suas bolsas ao cruzarem com ele pelas ruas. "Essa é a maior humilhação. Sou um trabalhador, embora a gente seja julgado pela aparência. Deixo minha barba assim exatamente para afastar as pessoas. Mas o que tenho dentro de mim não corresponde ao que sou por fora", afirmou, na ocasião. Dias depois, ao deixar de lado a ‘armadura’ que carrega para defender-se da indigência social que lhe foi imposta, Paulo aceitou a proposta do jornal de mudar sua aparência e atitude, a fim de que o novo capítulo da sua vida comece a ser escrito. Após a transformação, Paulo, quase irreconhecível, foi cumprimentado nas ruas pelos outros catadores. "Ficou ótimo", parabenizou um deles. Com os olhos marejados, o morador de rua reforçou o que havia dito. "Sou trabalhador. Essa vida de rua foi minha última opção de sobrevivência", revelou, garantindo que ainda espera por novas oportunidades.

A história do catador sensibilizou o professor adjunto da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis da UFJF, Victor Paradela, levando o docente a postar uma mensagem no site da igreja metodista que frequenta. "Fiquei emocionado com a leitura do depoimento desse catador de papel aqui de Juiz de Fora, publicado domingo passado. Creio que nossas igrejas poderiam fazer algo, não apenas pelos catadores, mas por outros excluídos da sociedade. Mesmo que não se possa organizar um trabalho sistemático de apoio, só o fato de discutirmos a maneira como vemos essas pessoas, já faria uma grande diferença." Victor disse em entrevista à Tribuna ter considerado a matéria um alerta. "Oferecer tratamento digno é algo que está ao alcance de qualquer pessoa. Essa tomada de consciência é importante para que tenhamos não apenas uma sociedade mais justa, mas com maior equilíbrio. O rompimento de nossos paradigmas, a partir de um novo olhar do outro, pode ajudar a construir uma sociedade mais solidária e menos violenta", acredita.

 Paulo

 

Homem que puxa 500kg diários recebe ajuda

A revelação da impressionante rotina do catador de material reciclável, Antônio Carlos Alves da Silva, conseguiu, de imediato, mobilizar a comunidade. Pai de dois filhos, Antônio puxa diariamente mais de 500 quilos de resíduos, incluindo o peso do carrinho. A atividade informal de catador foi a maneira que ele encontrou para sustentar sua família. Por mais de dez horas de trabalho diários, ele recebe cerca de R$ 45. Nem a insalubridade da função, que ainda exige esforço sobre-humano, faz o catador dar uma pausa na rotina. Trabalha de domingo a domingo com a mão quebrada, porque sabe que seu faturamento é diretamente proporcional ao ritmo de produção. Tudo isso, porém, poderá mudar. Com uma proposta de emprego à vista, Antônio torce para que os duros dias na rua estejam chegando ao fim.

Além disso, desde que a matéria foi publicada, em dezembro, Antônio e sua família foram ‘adotados’ por moradores do Bairro São Mateus, onde ele faz a coleta do material, e por dezenas de leitores que telefonaram para a Tribuna para oferecer auxílio. Desta forma, o catador foi cadastrado em um trabalho social de uma entidade não-governamental, que garantirá uma cesta básica mensal. Já o engenheiro e consultor ambiental, Rogério de Campos Teixeira, se uniu a um grupo de residentes do bairro para oferecer apoio na educação formal dos filhos de Antônio. Além de material escolar, os adolescentes de 12 e 16 anos poderão contar com aulas extraclasse, se necessário. O objetivo, segundo Rogério, é garantir a permanência deles na escola. Esta ajuda, aliás, vem ao encontro do esforço do catador para manter os filhos estudando. Quando o mais velho comunicou ao pai que iria deixar a sala de aula para ajudar no orçamento doméstico, Antônio e a esposa foram contra. Isso porque o catador semianalfabeto sonha que os filhos tenham destino melhor do que o seu e cheguem, inclusive, à faculdade.

A moradia precária numa área de invasão no Bairro Borboleta também pode ficar para trás. A possibilidade de conseguir um novo endereço está sendo discutida, embora ainda não exista um projeto definido sobre isto. O fato é que a saída do imóvel de quarto e sala, que não possui sequer janelas, garantiria qualidade de vida para a família do catador, que hoje divide espaço para dormir em cômodo único. Feliz diante das novas perspectivas, Antônio garante que está sendo movido a esperança. "Tudo começou a mudar. Hoje, quando passo pelas casas recolhendo material, as pessoas brincam comigo e dizem que fiquei famoso. Rezo para que todas as propostas que recebi sejam concretizadas."