Exame de CNH deve ser monitorado por câmera

Candidatos de JF enfrentam outros problemas durante o exame, como as condições das ruas
Com o objetivo de garantir mais transparência nos exames para obtenção de Carteira Nacional de Habilitação (CNH), o Departamento de Trânsito de Minas Gerais (Detran-MG) estuda a implantação de câmeras de monitoramento nos carros das autoescolas utilizados pelos candidatos durante o teste prático direcional. Além de imagens, os equipamentos serão usados para gravar as conversas entre examinadores e candidatos, e o material será enviado para o sistema de dados do órgão. A medida pode ser um meio de acabar com as reclamações dos reprovados que não concordam com o resultado do exame. Hoje o índice de reprovação na prova prática, em Juiz de Fora, está em torno de 76%.
De acordo com o chefe da Divisão de Habilitação e Controle de Condutor do Detran, delegado Anderson França, o método será usado para impedir irregularidades e possibilitar que o concorrente recorra quando não concordar com a reprovação. Uma empresa paulista estuda a viabilidade do monitoramento, e o projeto está para ser aprovado. Sistema semelhante está em teste no Estado do Rio de Janeiro.
Em Juiz de Fora, os equipamentos devem dar respaldo àqueles que reclamam dos quesitos subjetivos de análise durante a prova direcional e também do modo de tratamento de examinadores. A Tribuna esteve nos locais de provas e conversou com alguns candidatos. A maioria dos ouvidos teme os exames, não só pelo grau de dificuldade da prova, mas por ter que lidar com temperamentos diversos dos avaliadores. Sem saber a quem recorrer, muitos se sentem acuados e alguns desistem do processo para conquistar a CNH.
"Quem está tirando a carteira já sofre pressão psicológica própria e ainda fica exposto às grosserias do examinador. Estamos nervosos, em uma situação difícil, e não é certo que ajam de forma ríspida", reclama a assistente social B., 28 anos. A funcionária pública federal, L., 46, também questiona a tensão a que o candidato é submetido e a forma de cobrança de alguns examinadores. "Alguns sequer falam bom dia, boa tarde. Só isso já inibe, constrange o aluno. Outra falha é que dão os comandos muito em cima. Ao invés de avisar que na próxima rua teria que virar à esquerda, eles falam em cima. Em um dos meus exames, perguntei porque não tinha passado, e ele me disse que não olhei no retrovisor. Tentei argumentar, e ele já me deu boa tarde e saiu. De uma outra vez, um deles gritou comigo para soltar a embreagem, gritou mesmo. ‘Solta a embreagem, solta.’ Soltei, deixei o carro morrer e fui reprovada. Conheço gente que ficou traumatizada e não quis mais retomar o processo. Eu dei sorte e, no último exame, fiz o teste com um examinador que é exemplo de educação."
Já a estudante, J., 21, critica a forma subjetiva de avaliação. "Ficamos nas mãos deles. É subjetivo. Não sabemos se vamos passar ou não, mesmo se acertarmos ou errarmos. Hoje (dia 8 de julho), no meu terceiro exame, fui aprovada. Desta vez, cheguei a deixar o carro morrer por duas vezes, mas, mesmo assim, passei. No meu segundo, fiz tudo certinho, não deixei o carro morrer, mas fui reprovada. A alegação era de que eu não tinha olhado o retrovisor." Também estudante, A., 24, concorda com a colega. "A avaliação é subjetiva, e o aluno não pode reclamar. Muitos deles te induzem ao erro. Mandam você ir para a direita onde não se pode entrar, ou apontam para a esquerda, falando para ir para a direita."
Contran prevê penalidade a examinadores
Desde agosto passado, uma legislação específica do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) determina penalidades tanto para instrutores de autoescolas quanto para examinadores do Detran. Segundo a Resolução 358, do órgão, a negligência na transmissão das normas constantes da legislação de trânsito e a falta de respeito e urbanidade aos candidatos são consideradas infrações.
Ainda segundo a norma, deixar de orientar corretamente os concorrentes no processo de aprendizagem ou deixar de portar o crachá de identificação como instrutor de autoescola ou examinador habilitado quando a serviço também são consideradas falhas.
Os profissionais que agirem em desacordo com a resolução estarão sujeitos a advertência por escrito, suspensão das atividades por até 60 dias até a cassação do credenciamento.
De acordo com a delegada responsável pela Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran), em Juiz de Fora, Cristiane Maciel, é preciso que, ao se sentir lesada, a pessoa que fez o exame procure o órgão e faça a queixa por escrito. "A partir dessa manifestação, é instaurada sindicância administrativa para apurar as reclamações. Se as atitudes forem confirmadas, os profissionais serão punidos."
Aluno também reclama de estresse durante a aula
Outra reclamação entre quem passa pelo processo de conquista da CNH é em relação ao estresse dos instrutores, profissionais que são responsáveis por repassar os ensinamentos aos candidatos ainda durante as aulas nos centros de formação de condutores (CFCs). Segundo as queixas, o elevado número de candidatos matriculados nas autoescolas tem sobrecarregado os instrutores. Alguns chegam a trabalhar mais de 12 horas diárias no trânsito, resultando em cansaço e irritabilidade, problemas que se refletem no trato com os aprendizes.
A professora R., 31, chegou a passar por seis instrutores em uma autoescola até decidir trocar de estabelecimento. O motivo, segundo ela, impaciência e rispidez dos profissionais. "Não me adaptei com a primeira instrutora. Troquei de instrutor. No início ele era calmo, mas, com o tempo, também foi ficando estressado. Como ele tornou-se instrutor de legislação, tive que fazer as aulas com outros. Uns não tinham horário, outros, não me adequei. O ruim é que meu processo de aprendizado ficou prejudicado. Cada um tem um jeito de ensinar. O que percebo é que eles estão cada vez trabalhando mais e mais, e, no trânsito, que já é um ambiente estressante."
Ruas sem infraestrutura são outro desafio na prova
Os candidatos à CNH reclamam ainda da situação precária de algumas vias nos locais de provas. No Monte Castelo, na Zona Norte, ruas esburacadas e com sinalização falha comprometem o desempenho dos aprendizes. Na Rua Geraldo Gomes Ribeiro, onde os examinadores pedem que o condutor "desenvolva" o carro, há trechos com asfalto deteriorado e outros são de pedras. Já na Rua Júlio Fausto de Souza, além da falta de pavimento, há crateras. Na esquina da Rua Coronel Pedro Porto com Rua Branca Mascarenhas, apesar de ser de parada obrigatória, não há sinalização vertical, nem horizontal.
"A rua é totalmente esburacada, e é justamente onde eles pedem para desenvolvermos o carro. Temos que passar a terceira marcha em uma rua que deveríamos andar a 20km/h. Sem contar que falta sinalização. Tem via sem faixa divisória de pista ou o pare inscrito no asfalto", reclama a estudante A., 24. "Acho um absurdo fazer exame neste lugar. Há mato, pedras soltas, buracos na rua. Prejudica bastante nosso desempenho", dispara a atendente E., 33.
Um instrutor de autoescola, 28, confirma as reclamações. "Eles se queixam bastante dessa situação.O pior é que vieram e asfaltaram parte das ruas, mas deixaram algumas nessas condições."
Já no Nova Era, também Zona Norte, as queixas principais são de falhas na sinalização e falta de asfalto em duas vias íngremes, onde são realizados os testes de controle de embreagem. "É difícil controlar o carro nesta via irregular. É um absurdo", reclama a estudante J., 21.









