Enem tenta inovar, mas acaba repetindo fórmulas
Há dois anos, a reestruturação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e sua transformação em sistema de seleção criou expectativa de que o modelo da prova demandaria uma positiva adaptação da educação brasileira, muito voltada para a aprovação em vestibulares. Com a promessa de não cobrar memorização de fórmulas e datas, mas a capacidade de aplicação cotidiana do conteúdo aprendido na escola, o exame chegou a promover algumas mudanças, incentivando uma postura mais crítica frente ao conhecimento repassado, mas não foi capaz de provocar alterações significativas nos ensinos fundamental e médio.
Na avaliação de especialistas, em sua terceira edição como processo seletivo e já consolidado como principal passaporte para o ensino superior, o Enem parece aproximar-se cada vez mais do formato dos concursos já instituídos.
Entre os avanços do Enem, está "a ênfase mais crítica, que nem todas as escolas pregavam, que passa, agora, a ser exigida", afirma o presidente do Centro de Estudos sobre Ensino Superior e Políticas Públicas para Educação da UFMG, Jacques Schwartzman. Já o diretor do Cave, Lawrence Gomes, avalia que o exame apenas nacionalizou uma tendência que vinha acontecendo com muitos vestibulares. "Antes do Enem, diversas universidades, como a Unicamp e a própria UFJF, já vinham adotando um tipo de prova com questões que aplicavam o conteúdo ao cotidiano, e muitas escolas já tentavam se adaptar a isso."
Se por um lado, a expansão do exame nacional provocou uma dinamização na rotina de ensino e aprendizagem, principalmente nos anos finais da educação básica, por outro fez com que as competências e habilidades exigidas pelo modelo fossem integradas a uma estrutura pré-existente de preparação para concursos. "O Enem foi criado para redirecionar o ensino médio por meio de um instrumento que privilegiava criatividade, racionalidade e solução de problemas. Mas a intenção de avaliar a formação dos alunos e, assim, provocar melhorias no ensino foi obscurecida pela utilização do exame como forma de ingresso no ensino superior. Temos um sistema que basicamente prepara alunos para ingressar na universidade, e hoje é inevitável levar o Enem em consideração nesse processo. Já existem cursinhos pré-Enem, o que mostra que o sistema se adapta e se modifica", afirma Schwartzman. Para Lawrence é preciso ampliar a discussão do modelo junto às instituições de educação. "A proposta de reformular o ensino é muito válida, mas é preciso checar se a adaptação a esta fórmula é possível em âmbito nacional."
Grande vestibular
O economista e doutor em educação Paulo Nathanael de Souza, autor do livro "Caminhos e descaminhos da educação brasileira", acredita que o Enem poderia ser capaz de influenciar mudanças nos métodos de ensino, se não fosse transformado no que chama de grande vestibular. "A educação média tem objetivos e metas que não vão ser obtidos com este atual formato do Enem, voltado apenas para arrumar vaga em universidade. O exame foi criado para avaliar o desempenho dos alunos, mas, aos poucos, foi se aproximando do vestibular, formato que não é muito útil à qualidade do ensino. A melhoria da educação não deveria depender de concursos de ingresso, e transformar o Enem em seleção só ajuda a manter a situação crítica como está."
‘Exame não é varinha mágica’
Para o doutor em educação Paulo Nathanael de Souza, a melhoria da qualidade do ensino básico brasileiro é dificultada pela falta de pertinência da estrutura escolar, ou seja, pela dissonância entre os apelos do mundo moderno quanto ao ensino e o que efetivamente se aplica nas escolas. "Estamos longe dessa harmonia. Os alunos não sabem ler e escrever direito, são incapazes de fazer cálculos matemáticos básicos e estão totalmente despreparados. Frente a isso, apenas ranquear o conhecimento dos alunos para que entrem em uma universidade é muito pouco para o Enem," afirma.
Ele destaca que o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), coordenado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, têm mostrado a defasagem dos estudantes brasileiros em relação aos do resto do mundo. O Brasil é o 42° entre 60 países analisados pelo The Global Talent Index 2011 (índice global de talentos, em tradução livre), atrás de outros emergentes como Rússia e Argentina. O ranking avalia a qualificação de jovens para o mercado mundial, com base na educação básica do país.
Fábrica de profissionais
Na opinião do pró-reitor de Graduação da UFJF, Eduardo Magrone, pesquisas como esta devem ser relativizadas. "Muitas levam em conta apenas o momento de ingresso do jovem no mercado profissional. É preciso analisar como se dá a aplicação da formação superior ao longo de sua carreira. Se a trajetória for ascendente, isso é um bom sinal. "Magrone ressalta, entretanto, que ainda há uma visão da universidade apenas como ‘fábrica de profissionais’, e que isso tende, ironicamente, a formar mão de obra despreparada. "O mercado é altamente mutável. Nem que os currículos fossem revistos a cada semestre, seria possível acompanhar todas as tendências que surgem. Mais importante é investir em uma formação mais humana, que crie pessoas com potencial e competência profissional para acompanhar as mudanças circunstanciais."
Para Paulo Nathanael, a busca por adaptação às transformações do ensino e da sociedade ainda é um grande desafio, sobretudo para a educação básica." Temos escolas que ainda não incorporaram as tecnologias da comunicação, com professores que não conhecem os processos de integração da mensagem tecnológica aos conteúdos programáticos. O adolescente, muito atualizado com seu tempo, chega ao colégio e encontra um discurso antigo, por isso evade ou repete o ano." Segundo Paulo Nathanael, pesquisas apontam que, em alguns casos, a repetência está ligada ao tédio, pois o aluno não se interessa por aquilo que acredita não ter aplicação prática na sua vida. "O Enem não é uma varinha mágica que vai resolver todos esses problemas sozinho. O exame pode até influenciar certas alterações, mas não pode ser tido como o grande fator para o aumento da qualidade de ensino no Brasil", atesta.








