Custo alto para revalidação
Os esforços e investimentos necessários para quem complementa os estudos no exterior não terminam quando o estudante recebe o diploma de graduação ou pós-graduação em instituições estrangeiras. Revalidar o documento no Brasil exige mais uma dose de paciência, por causa da burocracia e dos altos custos. A UFJF, por exemplo, cobra o valor mais alto (R$ 2 mil) entre 14 instituições de ensino superior públicas pesquisadas pela Tribuna (ver quadro) na Região Sudeste. O tempo de espera, que em algumas universidades pode chegar a anos, também desanima quem investe neste upgrade na carreira. Ainda assim, o número de brasileiros que busca formação no exterior tende a aumentar, devido aos programas do governo, como o Ciência sem Fronteira, que pretende enviar 75 mil estudantes ao exterior até 2015.
A UFJF recebe, anualmente, uma média de 15 pedidos de revalidação. O número ficou bem menor depois que o processo de reconhecimento dos diplomas de medicina passou a ser coordenado pelo Ministério da Educação (MEC), em 2010. No caso da medicina, as universidades adotavam procedimentos e calendários muito distintos. Então, o MEC quis unificar o procedimento, e agora o Inep aplica uma prova única em algumas capitais, e todos os candidatos interessados participam, explica o gerente de registros acadêmicos da UFJF, Mussolini Sutana Fernandes. No primeiro edital da prova, no ano passado, apenas 96 dos 677 inscritos em todo o país foram aprovados na etapa inicial.
Sobre o alto custo do procedimento na UFJF, a alegação está no envolvimento de diversos profissionais da instituição. A revalidação de doutorado requer banca com cinco professores. Já a de mestrado exige três docentes. Na graduação, o número varia de dois a três. Os documentos necessários para a revalidação são especificados em cada edital lançado anualmente (www.ufjf.br/cdara/revalidacao). Após a entrega da documentação, tem início a analise de vários quesitos, como equivalências de disciplina e carga horária. Todo esse processo, na UFJF, varia de dois a oito meses.
Dos 507 pedidos de revalidação recebidos pela instituição entre 1998 e o início de 2012, apenas 74 foram aceitos. Os procedimentos partiram de brasileiros ou estrangeiros que cursaram graduação e pós-graduação na Bolívia (215), em Cuba (57), no Peru (48), na Colômbia (32), na Argentina (28) e no Paraguai (25). Há casos ainda nos quais o profissional precisa cursar uma complementação, por meio de disciplinas isoladas, na própria UFJF, antes de ter a revalidação aceita.
Menos burocracia
Especialista na defesa dos direitos dos estudantes, a advogada Wanda Gomes Siqueira critica a burocracia e a falta de parâmetros das universidades públicas. Não existe lógica, objetividade, nem critérios mensuráveis nos processos administrativos de revalidação. A autonomia universitária está sendo mal interpretada. As taxas cobradas não seguem qualquer tabela. Os órgãos públicos afrontam o princípio da moralidade administrativa ao tratar o tema como se fosse mercadoria. A especialista defende procedimentos menos burocráticos. Não existe equivalência curricular nem entre cursos de universidades do Brasil, imagina entre os daqui e do exterior. A revalidação, como o próprio nome diz, deveria apenas reconhecer algo que já é válido.
Índice de aprovação é baixo no Brasil
Cerca de um ano após concluir o mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade do Porto, em Portugal, a jornalista Tatiane Hilgemberg ainda não conseguiu revalidar o diploma. Minha primeira ideia foi procurar a Facom (Faculdade de Comunicação da UFJF), porque eles têm o mestrado na mesma área e seria mais fácil para mim, por morar na mesma cidade. Ao entrar em contato com a Pró-reitoria de Pós-graduação, fiquei sabendo da taxa de R$ 2 mil. Resolvi então procurar as faculdades do Rio, conta Tatiane, que tenta a revalidação na Universidade Federal Fluminense (UFF). Como a Pró-reitoria da instituição está em obras, o setor responsável não está funcionando. Sou reconhecida como mestre por 27 países que formam a União Europeia, mas não pelo meu próprio país.
O empresário Luiz Guilherme Villarinho também está na batalha para conseguir revalidar seu diploma de graduação em Administração obtido na Washington College, nos Estados Unidos, em 2003. Os problemas com a documentação já lhe custaram caro. No ano passado, ele não conseguiu se matricular em uma pós-graduação na UFJF justamente por não ter o diploma norte-americano reconhecido no Brasil. Toda documentação está pronta e traduzida. O problema é que algumas universidades só abrem o edital uma vez por ano e não têm departamento específico para isso. Outras demoram até dois anos para revalidar. Agora ele pretende aguardar novo edital da UFJF para fazer a revalidação por aqui, mesmo sabendo que a instituição cobra um dos maiores valores do Sudeste.
Expectativa
Quem ainda está cursando ou busca se especializar no exterior tem a revalidação como preocupação. Mas a burocracia não parece desanimar quem visa a crescer na carreira. É o caso do empresário juiz-forano João Luiz Vieira Júnior, mestrando em Administração pela Universidade del Mar, em Vinã del Mar, no Chile. Ele precisa estar naquele país duas vezes por ano, em janeiro e julho, e fica por 15 dias, numa maratona de estudos. Após ter o diploma nas mãos, pretende usar a experiência lecionando para novos administradores.
Sobre a validação do diploma no Brasil, o próprio site da faculdade indica algumas universidades onde já foram validados. Cheguei a ligar para estas faculdades, perguntando como é feito o procedimento. Mesmo sendo burocrático, é possível conseguir com uma tese bem elaborada.
Estados Unidos
Só os Estados Unidos tinham, no ano passado, 8.777 brasileiros matriculados em instituições de ensino superior, segundo o relatório Open Doors 2011. Além de se preocupar com a revalidação quando retorna ao Brasil, o estudante também precisa verificar antes se a instituição em que ele vai estudar é reconhecida pelo governo do país estrangeiro, recomenda a coordenadora nacional da Comissão Fulbright de Intercâmbio Educacional entre os Estados Unidos e o Brasil, Ann’Andreza Martins. Segundo ela, as instituições norte-americanas mais procuradas por brasileiros são University of Central Florida, New York University, Brigham Young University, University of Florida e Columbia University.








