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Pedestres ignoram passarelas


Por Júlia Pessôa

09/03/2012 às 06h00

Pessoas aguardam, enquanto passarela fica vazia

Pessoas aguardam, enquanto passarela fica vazia

Juiz de Fora teve duas vítimas de atropelamentos por trens em 48 horas. Na manhã de ontem, uma mulher, de 26 anos, foi atingida por uma composição enquanto cruzava a linha férrea da Rua Halfeld, no Centro, por volta das 9h. Conforme informações da Secretaria de Saúde, a vítima teve ferimentos leves, sendo socorrida pelo Samu. Em seguida, ela foi encaminhada ao HPS, onde foi medicada e liberada. Na terça-feira, um homem de 51 anos morreu após ser atropelado no trecho da ferrovia que fica no Barbosa Lage, na Zona Norte. Segundo levantamento da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), durante todo o ano de 2011, foram registrados oito acidentes desta natureza.

A MRS, que administra e mantém a malha ferroviária no país, não forneceu informações sobre o registro de acidentes em Juiz de Fora, mas adiantou que, na maioria dos casos, as ocorrências se devem à imprudência dos pedestres. "Existe sinalização sonora e luminosa, além de muros e funcionários orientando a travessia. Ainda assim, muita gente desrespeita. Muitas vezes, isso acaba em atropelamento ou outro tipo de acidente", aponta o gerente de concessão e arrendamento da empresa, Sérgio Henrique Carrato.

Percorrendo diferentes locais de travessia para pedestres, no Centro e nos bairros, ao longo da via férrea, a Tribuna observou que, em todos os pontos, há abusos de pedestres. Na Praça da Estação, onde houve o atropelamento de ontem, é comum observar pessoas se arriscando enquanto o maquinário se aproxima, ignorando a sinalização. No local, muitos correm para cruzar a linha na frente do trem, e uma multidão espera, sem usar a passarela. "No tempo que uso para subir a escada, atravessar a pista e descer para a calçada novamente, o trem já passou. Não compensa", diz o vendedor Geraldo Vieira.

Imprudência

"Isso acontece devido à desinformação ou descaso em relação às normas de segurança em ferrovias", pontua o professor da UFJF Fernando Marques Nogueira, pesquisador das ferrovias e defensor da criação da graduação em engenharia ferroviária. A falta de cuidado é confirmada pelo assessor de comunicação organizacional da 4ª Região da Polícia Militar, major Sebastião Justino. "As pessoas esquecem que os trens têm dificuldade de frenagem. Muitas vezes, é impossível evitar o atropelamento, e, em alguns casos, as vítimas são fatais."

Segundo Carrato, o investimento em medidas de segurança é uma das maiores prioridades da MRS. Entre as iniciativas, estão a construção de um muro de alvenaria ao longo de toda faixa ferroviária que corta a cidade e de sete novas passarelas, além de investimentos que viabilizem o aumento do uso das passagens suspensas já existentes. "Também vamos intensificar campanhas de educação e prevenção. Esperamos, ao longo do tempo, que a convivência entre a população e os trens no espaço urbano fique mais harmônica." Para o engenheiro Fernando Marques, tais ações são essenciais para que a travessia seja mais segura. "É primordial que haja infraestrutura para garantir a segurança dos pedestres."

 

Uso de drogas afasta população

O atropelamento de ontem, na Rua Halfeld, poderia ter sido evitado se a vítima tivesse optado por atravessar a passagem construída acima da linha férrea. Juiz de Fora tem, além desta, mais oito passarelas, situadas no Retiro e no Nossa Senhora de Lourdes, na região Sudeste; e outras nos bairros São Dimas, Cerâmica, Industrial, Benfica e Francisco Bernardino (duas), na Zona Norte. A Tribuna percorreu seis e constatou que o recurso não é utilizado pela maioria dos pedestres. Entre os principais motivos estão a insegurança e a dificuldade de acesso. No primeiro caso, há locais que costumam ficar desertos e têm iluminação precária.

Apesar de a PM não ter registros sobre os crimes que ocorrem especificamente nas passarelas, o assessor de comunicação organizacional da 4ª Região da PM, major Sebastião Justino, afirma que flagrantes de pessoas usando entorpecentes nos locais são frequentes. "Já cansei de ver meninos usando drogas ali, e a polícia, de vez em quando, dá uma batida", diz um morador do Cerâmica, referindo-se à passagem do bairro. Nos outros dispositivos da cidade, também há receio de assalto ou violência, sobretudo à noite.

Segundo major Justino, a corporação faz patrulhamento assíduo das passarelas, tomando providências em cada caso e efetuando prisões quando necessário. Conforme o gerente da MRS Sérgio Henrique Carrato, a empresa está organizando projetos de parceria com a PM, a Prefeitura e a Cemig, visando a aumentar a segurança. "Queremos solicitar rondas periódicas da polícia e revitalizar a iluminação das passarelas. Com mais recursos de segurança, elas tendem a ser mais utilizadas."

Outro problema que dificulta o uso destes espaços é o número de degraus. Entre os bairros Araújo e Benfica, está uma das estruturas mais altas, com 37 degraus. "Sinto muita dor subindo escadas e também tenho medo de altura. Por isso, tenho que esperar o trem passar", diz a aposentada Sebastiana de Fátima de Souza. "Não dá para passar com carrinho de bebê ou cadeira de rodas, é impossível", destaca o policial militar José Carlos Neves. "Esta aqui é usada o dia inteiro, até de noite, porque é de rampa", acrescenta ele, referindo-se à passagem que liga o Bairro São Dimas, na Zona Norte, aos fundos do Terminal Rodoviário Miguel Mansur. No entanto, algumas pessoas ainda temem o local porque têm que passar por um corredor ermo na rodoviária até chegar à travessia.

Novas passarelas

Atualmente, há quatro passarelas com rampas em construção: Nova Era, Jóquei Clube I, Jóquei Clube II e no Barbosa Lage, todas na Zona Norte. Além disso, existem estudos em andamento sobre a possibilidade de retirada das escadas e substituição por rampas em três pontos: Benfica, Cerâmica e Bairro Industrial. "Estamos fazendo um pacote de investimentos para que a população tenha mais conforto, mobilidade e segurança", anuncia Carrato.

 

Fluxo de trens deve crescer até 20%

Em fevereiro, a MRS anunciou, em audiência pública, na Câmara Municipal, que o fluxo de trens que corta Juiz de Fora deve crescer entre 15% e 20%. Além disso, informou que a velocidade das composições também poderá aumentar. A sessão visava a discutir os transtornos causados pela presença da ferrovia na área urbana. Para o engenheiro e pesquisador de ferrovias Fernando Marques Nogueira, a passagem dos trens com mais rapidez pode ser um agravante no número de acidentes. "Em uma velocidade baixa, de 25km/h, o trem já demora a frear por causa de sua extensão, mas é possível parar. Quanto mais a velocidade for aumentada, maior o perigo, porque a frenagem é mais difícil."

A velocidade que a MRS pretende atingir não foi divulgada, mas o gerente de concessão e arrendamento Sérgio Henrique Carrato assegura que o fluxo e a rapidez não serão intensificados enquanto estudos de impacto no trânsito não forem realizados. A empresa deve inaugurar, em maio, um centro de controle operacional informatizado, que vai funcionar no atual prédio da empresa, ao lado do Terreirão do Samba, a fim de melhorar a segurança do transporte. "No Brasil, algumas pessoas desrespeitam a travessia por achar que o trem anda devagar, e elas conseguem passar na frente. Mas o aumento dessa velocidade será feito de maneira totalmente segura."