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Onda de crimes abala comércio


Por MARCOS ARAÚJO Repórter

05/05/2013 às 07h00

A onda de criminalidade no comércio, principalmente em padarias, postos de combustíveis, lotéricas, supermercados e joalherias, já provoca alteração na rotina destes estabelecimentos. Várias panificadoras que permaneciam abertas até 22h passaram a fechar as portas mais cedo. Nos postos de combustíveis, o Sindicato dos Trabalhadores em Postos de Serviço de Combustível e Derivados de Petróleo (Sintraposto) estuda a possibilidade de encerramento das atividades após as 22h. A insegurança reflete até na dificuldade de contratação de pessoal. Para trabalhar neste setor no período da noite, por exemplo, encontrar frentista disponível tem sido um desafio. Além do comércio, os profissionais do transporte público coletivo, que trabalham durante a madrugada, alteram as rotas para desviar de locais ermos. Taxistas, para não correrem riscos, como mostrou a Tribuna na última quarta-feira, rejeitam passageiros em atitude suspeita e evitam corridas para áreas dominadas pelo tráfico.

O Sindicato dos Empregados no Comércio de Juiz de Fora reclama que não há um único dia em que uma loja, na região central, não seja alvo de ladrões armados e pretende unir forças para devolver a tranquilidade ao local de trabalho. "O comerciário da cidade está assustado. Todos os dias um de nós tem uma arma apontada para o peito", indigna-se uma representante da categoria. A insegurança ficou ainda mais evidente nessa última semana, quando dois supermercados foram assaltados por bandidos com arma de fogo, uma joalheira foi invadida por ladrões armados e mais duas padarias foram roubadas no feriado de quarta-feira. Nos supermercados, houve pânico entre funcionários e correria entre consumidores. No caso das joalherias, foram pelo menos cinco registros só este ano.

 

Gangues e vandalismo

A violência que assola o transporte público coletivo, que também enfrenta brigas de gangue, vandalismo e apedrejamentos, irá fazer o sindicato da categoria, reunir-se com vereadores, no próximo dia 20, para uma audiência pública. De acordo com o 1º secretário do Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Rodoviário (Sinttro), Armando Souza Castro, também já está sendo programada uma manifestação com faixas e cartazes. "Iremos para as ruas, a fim de chamar a atenção das autoridades." Segundo ele, pesquisa realizada pelo próprio órgão verificou que a Zona Norte e a Cidade Alta são as regiões onde houve maior número de assaltos a coletivo nesse ano.

Castro destaca que o videomonitoramento nos coletivos, apesar de ajudar na identificação de criminosos, não tem sido eficaz na prevenção. Segundo a Settra, a frota municipal é composta por 589 ônibus, e todos já possuem equipamentos. São quatro em cada um, somando 2.356 câmeras. "Os bandidos estão atrevidos e não dão a mínima. Profissionais e usuários nunca devem reagir", alerta o sindicalista, completando que o Sinttro irá solicitar à Polícia Militar mais abordagens nos coletivos nas áreas de maior incidência criminal.

"Antes, tínhamos em média seis assaltos por ano, atualmente, temos esse número mensalmente", destaca o presidente da Astransp, Fernando Goretti. Ele também ressalta que 40% dos usuários ainda utilizam dinheiro no lugar do cartão. "Se houvesse conscientização, a opção pelo uso do cartão iria diminuir o dinheiro em circulação. Isso poderia amenizar a situação." Na visão dele, os assaltos são de difícil prevenção, porque acontecem de forma isolada e em locais e horários alternados.

 

 

Fiscalização da lei dos capacetes

 

Para garantir mais segurança aos frentistas, o Sintraposto aposta no cumprimento da Lei Municipal 12.632, sancionada em 2012, que dispõe sobre a proibição da entrada ou permanência de pessoas utilizando capacetes ou qualquer objeto similar que dificulte ou impeça, parcial ou totalmente, a identificação facial, em postos de combustíveis. A regra também vale para estabelecimentos comerciais, agências bancárias e casas lotéricas. "Entretanto, a legislação não tem sido cumprida. Isso contribui para a onda de assaltos e reflete na dificuldade de contratação de pessoal", afirma o presidente do Sintraposto, Paulo Guizellini. Conforme ele, o órgão vem acompanhando o caso de um frentista que está acamado, depois de levar um tiro. "Há outro que sofreu um distúrbio psicológico e largou a profissão", lamenta o sindicalista

Guizellini aponta que são 700 frentistas atuando nos postos do município, e o sindicato já recebeu diversos apelos da categoria, solicitando mais segurança, principalmente no período da noite. Ele demonstra que, em fiscalização realizada pelo Sintraposto em 27 estabelecimentos na região central e alguns bairros, constatou-se que 100% dos locais vistoriados não seguiam a regra de manter placa sinalizando a proibição de uso do capacete. "A Prefeitura precisa fiscalizar e fazer a lei valer, para amenizar a onda de violência. Em caso de assalto, para o frentista, é melhor largar tudo e preservar a vida. Não temos preparo para lidar com bandido. Por isso, em caso de suspeita, o ideal é ligar para o 190", observa Guizellini, defendendo que, como medida extrema, o órgão já discute a possibilidade de fechamento dos estabelecimentos às 22h como forma de garantir segurança.

O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados do Petróleo do Estado de Minas Gerais (Minaspetro), Carlos Alberto Jacometti, concorda que é preciso investimento na fiscalização, mas considera que a proibição do uso de capacete é difícil de ser controlada. "Temos estabelecimentos abertos de todos os lados. Não dá para controlar quem entra. Além de correr risco de constranger clientes." Sobre as câmeras, Jacometti afirma que são úteis para colaborar na investigação, mas não impedem a ação criminosa. "Os ladrões estão, a cada dia, mais audaciosos", observa, completando que são cerca de 60 postos no município e que quase a totalidade possui videomonitoramento.

 

Situação prejudica consumidores

No que diz respeito ao setor das padarias, como aponta o Sindicato das Indústrias de Panificação de Juiz de Fora, o temor de ser assaltado tem levado diversos estabelecimentos a fechar as portas mais cedo. O presidente da entidade, Heveraldo Lima, diz que algumas lojas que permaneciam abertas até as 22h estão encerrando o expediente entre 20h e 21h. "Nossa maior preocupação é com os crimes cometidos com auxílio de motocicletas, pois são ações rápidas, em que dificilmente há a captura dos bandidos", afirma Heveraldo, completando: "Deixando de funcionar até mais tarde, muitos associados já estão reclamando de prejuízo. Isso também traz transtorno para a população, que deixa de contar com nossos serviços até aquele horário." O comerciante também concorda que as câmeras não têm surtido mais o efeito desejado. "A bandidagem já não se preocupa com sua identificação, acho que eles creem na impunidade. O pior é que sei de casos de assaltantes que roubaram padarias, foram capturados e soltos em seguida." O sindicato tem 180 associados e, destes, entre 50% e 60% têm videomonitoramento. "Eu mesmo já tive meu estabelecimento assaltado três vezes, e hoje conto com 16 câmeras", observa Heveraldo. Ele informou que, no mês passado, representantes da categoria se reuniram com o comando da PM, a fim de discutir propostas de segurança para o segmento.

No último mês, também o Sindicato do Comércio (Sindicomércio) de Juiz de Fora cobrou medidas da Prefeitura e da Polícia Militar a fim de devolver a segurança a lojistas, funcionários e consumidores, depois que dois homens armados estacionaram uma motocicleta, por volta das 17h30, na frente de um supermercado, na Rua Marechal Deodoro, e anunciaram um assalto. Havia diversas pessoas esperando na fila para pagar as compras. A dupla fugiu, levando R$1.600. Para o vice-presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio, Wagner França, já passou da hora de medidas concretas começarem a mudar essa realidade. "O comerciário está à mercê da criminalidade", pontua França, acrescentando que, no ramo de supermercados, a entidade vem recebendo queixas de funcionários que atuam no setor de prevenção dos estabelecimentos. "Esses trabalhadores vêm sofrendo retaliação de pessoas flagradas em furto, mas que não ficam presas", denuncia. Ele afirma que representantes dos comerciários irão procurar os outros órgãos de representação das diversas categorias a fim de trabalhar em conjunto para uma solução. "Também estamos preocupados com profissionais que trabalham até depois das 23h, nos shoppings e supermercados. Essas pessoas encontram dificuldade para voltar para casa e ficam expostas na rua tarde da noite."

 

Imagens ajudam a identificar suspeitos

Assessor de comunicação da 4ª Região de Polícia Militar, major Paulo Alex Moreira, afirma que a PM não tem como mensurar os crimes que deixaram de ser cometidos em função da existência de câmeras de segurança particulares. Entretanto, o oficial afirma que a eficiência delas não está apenas na questão da identificação posterior de criminosos. "Elas são importantes ferramentas de inibição de crimes. Não vão blindar 100%, mas é claro que o bandido irá optar pelo local no qual elas não existem." Ele argumenta que não há esse tipo de levantamento, mas, no dia a dia, a corporação realiza diversas prisões em flagrante em função da utilização das imagens das câmeras. "O videomonitoramento é importante para a redução da criminalidade a curto e longo prazos."

Titular da Delegacia Regional de Polícia Civil, Paulo Sérgio Xavier Virtuoso, enfatiza que a ousadia dos ladrões é muito grande, o que não permite o funcionamento pleno da prevenção por parte das câmeras. "Há um benefício indireto, já que são equipamentos primordiais para reconhecimento de criminosos, o que, futuramente, redunda na queda dos casos." O delegado também destaca que a legislação brasileira funciona como fator histórico na questão da sensação de impunidade. "Existem a prisão e a condenação. Todavia, há leis que permitem que a pena seja cumprida em liberdade."

A Prefeitura e a PM também apostam na monitoração eletrônica para conter os crimes. Juntos, os dois órgãos anunciaram que as 54 câmeras de videomonitoramento do programa "Olho vivo" começam a funcionar a partir de agosto. A expectativa é de redução dos índices de criminalidade em torno de 30% a 40%. Em julho, tem início a licitação para aquisição dos equipamentos. A área central da cidade será a primeira a receber o videomonitoramento, com 21 olhos eletrônicos cobrindo o quadrilátero formado pelas avenidas Rio Branco, Getúlio Vargas, Itamar Franco e Rua Benjamin Constant. Em uma segunda etapa, a instalação vai acontecer em 16 ruas da Zona Sul, cinco da Cidade Alta, quatro na região Leste e oito na Zona Norte.