Os desfiles de carnaval eternizados nas ruas
Campeonatos de escolas de samba percorreram diferentes avenidas da cidade, que hoje são locais de memória do carnaval

A raiz do carnaval é a rua. É lá que as fantasias mais elaboradas chamam a atenção, seja de quem acompanha os desfiles ou de quem apenas espia da janela de casa. É onde o ritmo da bateria ecoa, e, no dia seguinte, é lá que as purpurinas e os confetes ficam como rastros de uma festa bem aproveitada. Em Juiz de Fora, até hoje quatro avenidas foram palco dessa tradição popular. Embora as travessias das avenidas Rio Branco, Brasil, Getúlio Vargas e Francisco Bernardino sejam completamente diferentes, há um motivo que as une para além de um simples cruzamento: todas já foram palco dos desfiles das escolas de samba do município.
Juiz de Fora é pioneira quando o assunto é escola de samba. Em 1934, surgiu a Turunas do Riachuelo, primeira escola de Minas Gerais e a quarta do Brasil entre as que ainda estão em atividade. Mas o desfile oficial aconteceu só mais tarde, em 1966, na Avenida Rio Branco. O jornal “Diário Mercantil” descreveu a estrutura montada para o evento como “feericamente iluminado, com uma decoração vistosa e artística e com o Parque Halfeld dotado de arquibancadas para que o público acompanhe bem de perto o concurso”. Além dessa novidade, o carnaval de 1966 também ficou marcado por uma agremiação usar pela primeira vez um carro alegórico. Quem apostou neste artifício foi a Feliz Lembrança, que se consagrou campeã naquele ano.
Naquela época, era comum as pessoas assistirem ao desfile das janelas de suas casas ou, até mesmo, das sacadas dos hotéis, já que a festa percorria a principal avenida da cidade. O número de turistas durante esse período aumentava consideravelmente. Para se ter uma ideia, o “Diário Mercantil” publicou que, cinco dias antes do carnaval de 1966, cerca de cinco mil turistas se hospedaram em hotéis de Juiz de Fora.
A folia vista da janela de casa
Os desfiles das décadas de 1980 e 1990 se eternizaram na memória de Helenir Borges de Mattos. Hoje, ela relembra saudosa a época em que reunia a família e amigos para assistir à grande festa da janela de sua casa. Do primeiro andar do prédio localizado estrategicamente na esquina entre a Avenida Rio Branco e a Rua Rei Alberto, Helenir conseguia ver bem de perto cada detalhe das escolas de samba e acompanhou mais de cinco carnavais de seu “verdadeiro camarote”, como costuma brincar.
“Era uma delícia, minha casa ficava muito movimentada, porque meus filhos, que tinham 19 e 20 anos na época, levavam seus amigos para lá e eu e minha vizinha deixávamos as portas abertas, então a celebração passava de um apartamento para o outro, enquanto tomávamos drinks e olhávamos os desfiles”, conta.

Na passarela

Desde os cinco anos, a jornalista Samara Miranda desfila no carnaval, ela cresceu no meio da preparação para o evento com a sua casa rodeada de tecidos, brilho e outros acessórios que eram usados nas fantasias que suas tias produziam. Inicialmente a foliã desfilava na sua cidade natal, Ponte Nova, mas aos 15 anos começou a participar do carnaval juiz-forano. Seu primeiro desfile na cidade foi pela escola de samba Águia de Ouro no último ano em que a festa aconteceu na Avenida Rio Branco. Neste ano, ela estreia desfilando como rainha de bateria da Turunas do Riachuelo.
“As ruas e avenidas deixam de ser o local da correria e se transformam em locais sagrados, de celebração e encontros. Eu tenho uma relação com as ruas que passei enquanto carnavalesca de trocas de vivências e transmissão de saberes. É mais do que um local físico, é um sentimento de pertencimento, a essência do carnaval é a rua e ela passa a fazer parte da nossa história”, acredita Samara.
O mapa do carnaval
A concentração começava na altura da Avenida Presidente Itamar Franco (então Independência) e descia a Avenida Rio Branco até o Parque Halfeld. A via foi escolhida para sediar os primeiros desfiles por ser considerada a mais larga da cidade. Cordas separavam os desfilantes do público, que ocupava o trecho entre a Rua Espírito Santo e a Floriano Peixoto. A festa aconteceu dessa maneira de 1966 até 1980. A despedida desse período ficou marcada pelo enredo “Adeus, Avenida”, da escola Real Grandeza, em 1979, lamentando o fim das apresentações na Rio Branco.
Para o assessor da Liga Independente das Escolas de Samba de Juiz de Fora (Liesjuf), Fernando Luiz Baldioti, a Avenida Rio Branco é o verdadeiro cenário do carnaval juiz-forano. A memória afetiva de Fernando com o carnaval na Rio Branco vem desde cedo. Seu primeiro desfile foi lá, nos anos 1970, com a escola Juventude Imperial. Depois, como integrante da Real Grandeza, passou por outros tantos carnavais na avenida.
“Os bairros de várias regiões da cidade desciam para ver a concentração. A arquibancada levava cerca de dois meses para ser montada. Teve uma época em que o desfile acontecia na pista de ônibus, e as laterais ficavam livres para os foliões festejarem. Mas com o tempo as escolas de samba e o carnaval cresceram, e o fluxo de carros e pessoas também, os lojistas da época reclamavam, e isso tudo resultou no fim do carnaval na Rio Branco”, explica Fernando.
A vez da Avenida Francisco Bernardino abrigar o carnaval foi em 1981. As escolas percorreram o trecho da Praça da Estação até a Rua Benjamin Constant. Mas o espaço não deu muito certo, e no ano seguinte o evento migrou para a Avenida Getúlio Vargas, entre as ruas Santa Rita e São Sebastião. No entanto, a montagem das arquibancadas na via causou insatisfação dos comerciantes da região e, com isso, os desfiles retornaram à Rio Branco em 1983 e lá permaneceram até 1988.
Houve uma curta mudança do trecho onde as escolas caminhavam na Rio Branco em 1989. Ao invés de ser próximo ao Parque Halfeld, a folia aconteceu perto do Sport Club Juiz de Fora, entre a Avenida Brasil e a Rua Marechal Setembrino de Carvalho. Como não houve adesão de alguns grupos, o desfile retornou ao trecho da Avenida Rio Branco entre as ruas Espírito Santo e Floriano Peixoto. Entre 1991 e 1993, não aconteceram os desfiles oficiais na cidade, assim como entre 1967 e 1969. A festa voltou só em 1994, na altura do Sport Club.
No ano de 1995, o carnaval da Avenida Brasil era inaugurado, à margem direita do Rio Paraibuna, entre o Terreirão do Samba e a Rua Benjamin Constant, e assim foi até 1998. Em 1999, a Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa) não realizou o evento. De 2006 até 2015, o local dos desfiles se tornou oficialmente a Avenida Brasil, entre a Ponte de Santa Terezinha e a Ponte do Manoel Honório.
Diferente de todos os outros anos, o carnaval de 2017 aconteceu em local fechado, no Parque de Exposições. Após um hiato sem a festa, os desfiles oficiais retornam em 2023, mas em um novo lugar, ainda na Avenida Brasil, na margem direita do Paraibuna, mas entre as ruas Benjamin Constant e Marechal Setembrino, na altura da Ponte do Ladeira.
Recordações de outros carnavais
Para a pesquisadora Rosiléa Archanjo de Almeida e Lima, entre todos os carnavais, o que a população guarda maior afetividade são os desfiles que aconteciam na Avenida Rio Branco. “Só de passar pelo o centro, você sentia aquele clima de folia dias antes da festa. A Rio Branco é um ponto central, ainda que tenha bairros pólos, tudo gira em torno da região central, e isso facilitava o deslocamento para que as pessoas moradoras de bairros mais distantes tivessem acesso ao carnaval”, analisa.
Em 2014, Rosiléa lançou o livro “No ar: Carnaval de Juiz de Fora meio século de identidade”, que resgata a história dos desfiles das escolas de samba na cidade. Embora reconheça que hoje em dia a via não tem estrutura para suportar um evento deste tamanho, a pesquisadora ressalta a importância de reviver essa memória de participação dos foliões em uma festa em local aberto, justamente por fazer referência a principal identidade do carnaval, “que seria essa reunião em que todos os povos podem ter acesso e festejar juntos”.
A última vez que Juiz de Fora sediou o carnaval foi em 2017, mas neste ano a festa foi diferente. Ao invés das escolas percorrerem as avenidas da cidade como de costume, o evento foi celebrado em espaço fechado, no Parque de Exposições. A mudança agradou algumas pessoas, que tiveram uma boa experiência e se sentiram mais seguras, como aponta Fernando Baleia.
“Muita gente criticou, muita gente falou que lá não era o local ideal, mas lá foi feito. Foi um desfile maravilhoso, tinha praça de alimentação, segurança, as escolas adoraram.” Porém, para outros foliões que gostam de celebrar na rua, o local fechado não representou o espírito do carnaval.
“Quando você tira o desfile do centro da cidade e coloca em um local fechado, como foi o último carnaval, eu acho que você impossibilita até os transeuntes de participarem. Carnaval é o povo na rua, é a troca de posição, é você poder ser quem quiser naquele dia. E fazer o desfile aberto é o retorno a essa identidade original. É isso tudo que faz essa festa não sair da nossa memória”, diz Rosiléa.
Independente do local, os dois concordam que a cultura do carnaval de Juiz de Fora tem que ser resgatada. “Juiz de Fora é uma cidade do samba, temos artistas, pessoas que lutaram por esse carnaval, tanto as escolas antigas, quanto as outras que surgiram depois, cada uma tem sua história para preservar. Tem muita gente que vê o carnaval como despesa, mas na realidade ele gera muito lucro para o município”, comenta Fernando.









