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Projeto social Abolição ensina capoeira para crianças no Bela Aurora

Há quase três décadas, iniciativa une esporte e arte para manter viva a tradição cultural e contribuir para o futuro das novas gerações


Por Nayara Zanetti, sob supervisão de Carolina Leonel

10/02/2023 às 07h45- Atualizada 10/02/2023 às 09h35

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As jovens Yasmin, 13, e Emily, 11, durante aquecimento para a prática de capoeira (Foto: Leonardo Costa)

Antes de se formar a roda, os instrumentos são preparados enquanto as crianças começam a se alongar. Depois que o primeiro som sai do berimbau, acompanhado do pandeiro e do agogô, a ginga começa a dar o tom de como se dará o jogo de capoeira do dia. Essa é a rotina que conduz a vida do Mestre Eurico, de 59 anos. Para ele, a capoeira é filosofia, é raiz, e foi a maneira que encontrou de contribuir para o futuro das novas gerações. “Tem muita coisa na capoeira que é muito forte, que vem de nossos ancestrais.” Foi pensando em repassar todo o ensinamento dessa expressão cultural brasileira, que Eurico fundou há 29 anos o projeto social Centro Cultural de Capoeira Abolição, que atende crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade no Bairro Bela Aurora, Zona Sul de Juiz de Fora.

“Às vezes você não entende a capoeira, mas ela sempre entende você. Vou seguir com ela a vida inteira. E sempre com ela vou viver.” Esse canto, popular nas rodas de capoeira, é seu guia na vida, conta. O primeiro contato de Eurico com essa expressão cultural foi quando ele tinha 13 anos, mas sua família não tinha condições para pagar as aulas, então ele começou a trabalhar para conseguir participar de uma escola de capoeira no Bairro Santa Luzia. “Desse dia em diante fiz uma promessa para mim: quando eu formasse, não ia deixar criança nenhuma passar pelo o que eu passei por causa de algo que gostasse, no meu caso a capoeira.” Dito e feito. Assim que se formou, Eurico passou a dar aulas de capoeira e, mais tarde, fundou o projeto Abolição, em janeiro de 1994.

O nome do projeto simboliza a independência de Eurico, representa liberdade, transformação e instrumento de educação. E é esse mesmo ideal que ele busca ensinar para as crianças. “A nossa luta é sempre em prol da comunidade e das crianças, porque o nosso principal objetivo é formar cidadãos do bem, que venham nos prestigiar com coisas boas no amanhã. Hoje, muitos alunos que passaram pelo projeto já atuam na sua profissão, tem uma carreira bacana.”

A ideia inicial era oferecer apenas aulas de capoeira, mas com o tempo o mestre sentiu a necessidade de expandir o projeto com outras atividades ao lado da esposa Maria Aparecida Gomes e do filho Eurico Silva Júnior. Atualmente, o Abolição conta com oficinas de capoeira, jiu-jitsu , corte e costura, hip-hop, balé e outras danças. Além disso, as crianças têm acesso a aulas de informática e reforço escolar. Para além da esfera educacional, Eurico conseguiu parcerias que realizam a distribuição de cesta básica de forma gratuita, atendimento psicológico e odontológico para os jovens e suas famílias a um preço acessível. Hoje, mais de 150 pessoas são assistidas pelo projeto.

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Denise de Fátima, que foi uma das primeiras alunas do projeto, atualmente dá aulas de dança (Foto: Leonardo Costa)

Conhecimento passado para diferentes gerações

Todas as aulas são ministradas por colaboradores voluntários e muitos deles já participaram do projeto quando crianças. O Gilmar José de Oliveira, 49 anos, é exemplo disso: ele começou ainda pequeno junto com seu irmão, os dois cresceram nas rodas de capoeira do mestre Eurico. Hoje, seu irmão é mestre em outro grupo e Gilmar dá aulas no Abolição. “É uma retribuição ao que o mestre fez não só para mim, mas para muitos colegas. É saber reconhecer quem me ajudou no passado e dar sequência a esse trabalho”, diz.

Gilmar conta que o Abolição apresentou uma direção para o seu futuro, através do projeto ele conheceu a capoeira e teve a oportunidade de repassar o que aprendeu para jovens do Bela Aurora e de outras regiões da cidade. “Quando você se identifica em um grupo que te apoia e acredita no que você faz é muito gratificante.”

Antes de ser professora de dança no instituto, Denise de Fátima, 53 anos, foi uma das primeiras alunas do Abolição. Junto com seus filhos, ela começou a frequentar as aulas de hip-hop, se encantou pelo o que aprendeu e hoje ensina diferentes ritmos para as crianças com o mesmo entusiasmo de quando era aluna. “Foi um espaço de união para mim e para os meus filhos. Eles já estão grandes e casados, mas eu queria que eles ainda tivessem aqui para aprender mais. Eu aprendo muito”, diz.

O professor de jiu-jítsu Pedro Delmonte não chegou a fazer aulas no Abolição como Gilmar e Denise, mas conheceu o projeto em 2016 e, desde então, contribui ensinando o esporte e ajudando na parte administrativa e de captação de recursos para a instituição. “As crianças chegam aqui muito felizes, dedicadas, com vontade de aprender, focadas no ensino. Com isso, o próprio rendimento escolar delas melhora, porque para você estar no projeto é necessário estar matriculado em uma escola e tirar notas boas”, explica Pedro.

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Da esquerda para a direita, os irmãos Yasmim, Mirela, Isadora e Heitor (Foto: Leonardo Costa)

Lições da ginga

“O que eu mais gosto na capoeira é gingar”, diz Mirela Vitória, 10 anos, uma das alunas do Projeto Abolição. Mirela começou a participar do instituto bem nova junto com seus três irmãos: Isadora, hoje com 8 anos, Heitor, 5 anos, e Yasmin, de 13 anos. “Aqui é tipo uma família para mim, nós conversamos, fazemos amizade, é como uma segunda casa. Eu gosto muito”, conta Yasmin, a irmã mais velha. Os quatro concordam ao falar das lições que aprenderam na capoeira: “responsabilidade, disciplina e a roda de capoeira também traz benefícios para a nossa saúde”.

Desde os 4 anos, Emily Kristina participa das atividades oferecidas pelo centro cultural. Hoje, com 11 anos, ela conta que já fez um pouco de tudo, desde balé a aulas de informática, mas o que gosta mesmo é da capoeira. “Aqui a gente treina, tenta dar mortal, estrelinha e aprende muitas coisas para poder se defender. Isso tudo me ajuda na escola e em casa também”, conta.

Daniela Ribeiro é voluntária na instituição e há cerca de um ano seu filho Matheus, de 4 anos, entrou para as rodas de capoeira. Matheus foi diagnosticado com autismo quando tinha 1 ano e a atividade tem colaborado para o seu desenvolvimento, conforme afirma a mãe. “Meu filho tem melhorado muito a cada dia que passa, a capoeira tem ajudado ele a se relacionar com outras pessoas, a se aproximar das outras crianças, o que antes era muito difícil, ele não gostava de barulho, por exemplo, e agora até canta.”

Ao ver o caminho de seus ex-alunos se entrelaçarem com as novas gerações, mestre Eurico se emociona. “A capoeira é a minha filosofia de vida. Eu não sei escrever nada, mas sei ler qualquer coisa porque aprendi na capoeira. Essa nossa tradição traz muitos benefícios físicos e espirituais. A capoeira vem de ânsia de liberdade, de sofrimento do negro, do gueto, da pobreza. Ela é muito importante para as crianças e para o povo.”

Ele está construindo um centro de treinamento de capoeira no município de Santos Dumont e sonha em levar sua iniciativa para outras cidades do país para que mais jovens tenham a mesma oportunidade de Gilmar, Denise, Mirela, Isadora, Heitor, Yasmin e Emily. Quem tiver interesse em ser voluntário ou contribuir de alguma maneira pode entrar em contato pelo telefone: (32) 98873-6118.