Transporte irregular de carne pode oferecer riscos

O flagrante feito pela Tribuna em frente a um açougue, no Centro, mostra o descumprimento de uma regra crucial para o transporte seguro de peças de carne: a carcaça é manuseada sem que haja proteção plástica, como determina a Portaria 90, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. O registro mostra, inclusive, que o funcionário encarregado leva a mão diretamente sobre o material. Segundo especialistas, faltas deste tipo abrem espaço para a contaminação do alimento, que pode levar à transmissão de doenças ao consumidor. Por isso, é preciso estar atento para uma série de cuidados na hora de comprar carne (ver quadro).
O veterinário da Inspeção Municipal da Secretaria de Agropecuária e Abastecimento, João Emídio Júnior, explica que a legislação determina que, além do plástico protetor, as carnes bovina e suína precisam ter a origem inspecionada. Isso tem que estar atestado em uma etiqueta-lacre nos grandes cortes. Nesses casos, o cliente pode pedir ao açougueiro para assegurar a procedência do produto, bem como data do abate e validade, por meio da apresentação desse dispositivo. Já para pequenos cortes, embalados a vácuo, a etiqueta com informação de origem tem que estar junto ao produto. Ainda segundo o veterinário, a mesma legislação obriga que o varejista sinalize em seu estabelecimento, por meio de placa, o nome do fornecedor e o número de registro do órgão de inspeção.
Em Juiz de Fora, o diretor do Matadouro Municipal, Marcelo Detoni, afirma que uma equipe de controle de qualidade interna e outra formada por representantes do Ministério da Agricultura atuam no local para garantir que as normas sanitárias sejam cumpridas. Juntos, esses funcionários fazem o monitoramento de todas as etapas de trabalho, desde o abate até o transporte. Sobre a entrega do material, ele explica que todos os caminhões foram trocados para que se adéquem às exigências estabelecidas, e os plásticos para que as carnes sejam envolvidas estão sempre a disposição dos distribuidores. Além disso, os trabalhadores têm que usar o uniforme obrigatório, que inclui bota e protetor lombar, no caso daqueles que carregam as peças.
Riscos
A infectologista Rosângela Maria de Castro Cunha ressalta que cuidados com a compra e o consumo de carne são fundamentais para evitar uma série de doenças. Conforme a médica, o alimento manipulado inadequadamente pode causar infecções por bactérias do gênero salmonella e shigella (cloriformes fecais), que causam gastrenterites, diarreia, vômito e febre, além de poderem desencadear infecções generalizadas, caso invadam a circulação sanguínea. Outro risco é o das bactérias do gênero clostridium (que podem estar no solo, no caso de a carcaça ter contato com o chão). Elas podem produzir toxinas, principalmente em carnes armazenadas fora da temperatura adequada, provocando infecção do intestino grosso, com risco de perfuração intestinal. Além disso, há o caso dos staphylococcus (presentes na pele e vias aéreas de pessoas que manipulam a carne), que podem levar os consumidores a quadros de choque tóxico, em que há falência do sistema cardiovascular, associada a febre e erupções cutâneas, além de gastrenterites.
Para evitar essas doenças, a infectologista reforça a lista de cuidados a serem tomados. Entre as recomendações, está a manutenção de carnes que serão consumidas a longo prazo no freezer. O produto deve ser descongelado apenas pelo micro-ondas ou na geladeira, e, nunca, à temperatura ambiente. "Tábuas de madeira devem ser jogadas fora", alerta. De acordo com ela, devem ser utilizadas apenas dispositivos de plástico ou vidro e a limpeza deve ser feita com água sanitária, com o produto colocado sobre a superfície das tábuas durante 15 minutos, antes e depois da utilização. Outra dica é que a carne, mesmo após o preparo, seja sempre guardada na geladeira. Para quem fizer o consumo do produto cru, a atenção sobre a procedência deve ser redobrada.








