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Dois anos após morte de criança, inquérito continua aberto


Por Daniela Arbex

29/10/2013 às 07h00

Última foto de Arthur, de 5 anos, na cerimônia do casamento

Última foto de Arthur, de 5 anos, na cerimônia do casamento

Vinte e nove de outubro de 2011. Era para ser um dia de festa, quando a família Alvim se reuniria em Juiz de Fora para um casamento. De Belo Horizonte saíram Arthur Santos Cangussu Alvim, 5 anos, e os pais dele, os fisioterapeutas Christian, na época com 37, e Daniela, 35. Viajaram fazendo planos para o fim de semana na cidade, quando o menino se encontraria com os primos. Na bagagem, o casal trouxe calça e camisa sociais do filho único, compradas especialmente para a ocasião, além do inseparável livro de história do herói Relâmpago MC Queen, do filme "Carros", personagem preferido da criança. Quando a cerimônia religiosa foi iniciada no final da tarde, na Capela Santa Filomena, Arthur foi filmado dando tchau para a câmera. Depois disso, olhou para o banco de trás e piscou para Christian, como sempre fazia. Na festa, o garoto mencionou a intenção de ir ao banheiro. O pai pediu à criança que antes de entrar no cômodo acabasse de comer o doce que trazia. Com um brigadeiro na mão, ele e Christian ficaram brincando em torno da divisória de alvenaria de 2,55m de altura que separava o banheiro do salão. O relógio marcava 20h30. Os segundos seguintes, porém, mudaram toda a história da família. Destroços da parede que tombou inteira, de repente, se espalharam pelo chão. O fisioterapeuta correu para socorrer um idoso, atingido levemente no ombro por tijolos. Foi quando uma mulher gritou que havia alguém preso debaixo dos escombros. Após cavar com as mãos, Christian deparou-se com Arthur, que morreu minutos depois, nos braços do pai, a caminho do hospital. Dois anos depois do trágico episódio, completados exatamente nesta terça-feira (29), ninguém foi responsabilizado. O inquérito que apura o caso já passou por cinco delegados da Polícia Civil e, até hoje, não foi concluído.

"Um minuto antes, eu era o homem mais feliz do mundo ao lado da esposa que amava e do filho mais perfeito que um pai poderia ter. Brilhante, educado, carinhoso, Arthur era o meu companheiro e grande amigo. Amigão do peito, como falávamos, após fazermos um cumprimento, tocando a testa um no outro. Um segundo depois, tudo muda. Somente após o enterro dele, no domingo, minha ficha caiu. Bateu um desespero imenso. Eu e a minha esposa passamos vários dias sob o efeito de medicação. A pior parte foi voltar para Belo Horizonte. Viajamos para Juiz de Fora em três. Voltamos em dois, com o carro vazio, deixando Arthur para trás", emociona-se Christian, porta-voz de um drama sobre o qual a esposa dele ainda não tem condições de falar.

O fisioterapeuta se lembra que, após retirar Arthur dos escombros, ele e a esposa seguiram para o HPS, onde uma equipe médica já os esperava, dada a gravidade do caso. No caminho, um motorista do Samu que também estava na festa tentava medir o pulso do menino. No pronto socorro, a vítima foi levada rapidamente para o centro cirúrgico. Os médicos entubaram o menino e iniciaram procedimentos de ressuscitação. Do lado de fora, Christian tentava entender o que havia se passado. Como, ao esbarrar em uma parede, ela ruíra? Quinze minutos depois de dar entrada na unidade hospitalar, o pai de Arthur entrou novamente na área reservada ao corpo clínico. Olhou para uma das médicas e perguntou sem coragem de ouvir a resposta. "Nós perdemos ele, não foi?" Sem encontrar as palavras, ela apenas acenou com a cabeça, em um sinal afirmativo. Às 21h40, Arthur foi declarado morto por esmagamento de crânio e múltiplas fraturas na região da cabeça, conforme ratifica o laudo de necropsia 3.266/2011, assinado pelo médico legista Agner Alexandre Moreira.

Um filme passou, então, pela cabeça de Christian. Nele estavam as cenas do nascimento de Arthur, cuja gravidez planejada no quinto ano de seu casamento foi muito comemorada. Também as primeiras vezes em que o menino, aos 2 anos de idade, começou a fazer aulas de natação. A desenvoltura na piscina impressionou os professores do colégio particular de Belo Horizonte, onde Arthur seria matriculado em 2012 para cursar o primeiro ano do ensino fundamental. Mochila e merendeira compradas, a criança tinha sido aprovada nos testes e era uma promessa no esporte e nos estudos. "Passado todo esse tempo, sinto muita mágoa pelo jogo de empurra com o caso do meu filho, pelo descaso da Justiça. Eu tenho direito a uma resposta. Não foi um saco de batatas que se perdeu. Foi a vida do meu filho. Não quero que ele seja só mais uma vítima", desabafa o fisioterapeuta.

 

 

Laudo diz que parede não tinha viga ou coluna

Christian Alvim refere-se à lenta investigação a respeito do episódio e à constante troca de delegados no inquérito policial. Desde 2011, cinco delegados já estiveram com o inquérito nas mãos. Além da área criminal, há um processo cível contra o proprietário do imóvel onde a festa de casamento ocorria, na região do Quintas da Avenida, e contra os responsáveis pela casa de festas, locatária do imóvel na ocasião. Na ação que tramita na 3ª Vara Cível, o laudo pericial número 3.756/2011, emitido pela Polícia Civil, conclui que a parede em questão "não possuía qualquer espécie de vigas ou colunas que pudessem conferir maior firmeza e segurança à estrutura", sendo erigida apenas com blocos de cimento e argamassa. O fato é que "a construção dos painéis foi executada de forma equivocada e provavelmente por leigos", apontou em outro relatório, o engenheiro Amilcar Monteiro da Silva Rebouças. Na Justiça, os representantes da casa de festas tentam provar que a parede já estava lá quando alugaram o espaço. Já o dono do imóvel pede a exclusão de seu nome na disputa judicial, uma vez que o proprietário da casa de festas deveria se responsabilizar por tudo que aconteceu lá naquela noite.

Para os avós paternos de Arthur, Maurílio José Alvim, 67, e Elisabeth Alvim, 67, além da perda do neto, resta a dor de não terem sido procurados pelos organizadores da festa, velhos conhecidos da família. "No dia do episódio, um deles esteve no HPS e nos perguntou sobre o menino. Só consegui responder: está morto. Ele ficou abalado, colocou a cabeça sobre as mãos, foi embora e nunca mais nos procurou", comenta o aposentado Maurílio, referindo-se ao empresário Tarcísio Picorelli Gonçalves.

Procurado pela Tribuna, Tarcísio, que há 30 anos atua no ramo de festas em Juiz de Fora, também desabafou. "Me sinto péssimo com o que aconteceu, porque a gente conhece a família, e o pai da criança brincava com o meu filho quando eles eram pequenos. Éramos vizinhos. Não sei te falar quem foi culpado. Foi uma fatalidade que podia ter atingido outras pessoas. No dia seguinte, derrubamos a outra parede do banheiro feminino por questão de segurança e tivemos muita dificuldade para jogá-la no chão, enquanto a outra parede caiu com um esbarrão. Há 30 anos trabalhando com festas, sempre com todos os alvarás, é a primeira vez que houve um acidente. Por que foi acontecer conosco? Também estamos marcados. Sou pai, avô e, se soubesse o que dizer a esta família, já os teria procurado. Até hoje não sei", revela, emocionado.

A assessoria da Polícia Civil confirmou que a 4ª Delegacia de polícia tem tido grande rotatividade, em função da troca de delegados, e não soube dizer se o inquérito em questão já foi relatado. Por ser dia do servidor público nesta segunda-feira (28), não havia expediente na regional, o que, segundo a assessoria, dificultou o levantamento preciso sobre o andamento do inquérito. Quanto ao processo cível, a última movimentação aponta para a designação judicial de uma audiência de conciliação em fevereiro do próximo ano.

 

 

‘A gente tem que aprender a viver de novo’

Sobreviver à morte do filho exigiu de Christian e da esposa esforço incomum. O fisioterapeuta conta que, por várias vezes, quis morrer, mas entendeu que aquela não era a sua hora. Resolveu que a imagem de Arthur debaixo daquela parede não seria a última lembrança da criança. Nos seu pensamentos, guarda a cena de segundos antes, quando o filho, com a boca suja de brigadeiro, sorria. Ao voltar para Belo Horizonte, o casal não se desfez do quarto do menino. Algumas vezes, os pais dormiram nele, na tentativa de aplacar a imensa saudade do garoto que faleceu a menos de dois meses de completar 6 anos. Oito meses depois da perda do menino, eles tomaram uma atitude corajosa: quiseram ter outro filho. A segunda gestação aconteceu rápido e, no início deste ano, David nasceu não para substituir Arthur, algo impossível, mas para "dar sequência à vida", comentou o fisioterapeuta. Segundo Christian, há um misto de alegria intensa, pela presença do bebê, mas de dor permanente, pela ausência do primeiro filho. "A gente tem que aprender a viver de novo", ensina o pai, cujo consolo ele diz só ter encontrado na religião. "Deus nos deu um novo filho e uma nova chance de viver", diz ele.

Dois anos após o episódio de dor, o pai lembra a última descoberta que fez meses depois do falecimento de Arthur. No dia da tragédia, a criança havia pego a máquina fotográfica do pai para registrar o final de semana. Quando o fisioterapeuta lembrou-se disso, correu para ver as imagens feitas pelo menino. Em uma das fotos, aparecia a página final do livro do relâmpago MC Queen, do filme dos "Carros", personagem pelo qual a criança era apaixonada. O trecho fotografado fez Christian chorar. "Obrigada pela volta, eu me diverti pra caramba."