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Polícias fecham cerco ao tráfico na Zona Sul


Por Guilherme Arêas, Sandra Zanella e Eduardo Valente

14/04/2012 às 06h00

Policiais cumpriram oito mandados de prisão expedidos pela Justiça

Policiais cumpriram oito mandados de prisão expedidos pela Justiça

As polícias Civil e Militar realizaram uma megaoperação, batizada de "Zona Sul", na madrugada de ontem, para combater o tráfico de drogas que acontecia de forma escancarada em dois bares – Observatório e Krismara – na Rua Morais e Castro, no São Mateus. A situação já havia sido flagrada e denunciada em várias reportagens da Tribuna. A mesma área também é alvo de constantes reclamações da vizinhança, que se queixa de perturbação do sossego, já que o movimento de clientes, formado principalmente por jovens, ultrapassa o limite dos estabelecimentos, invadindo calçadas e, até, a própria pista. Com oito mandados de prisão expedidos pela Justiça, cerca de 35 policiais civis, apoiados por 30 militares, iniciaram as batidas por volta de 1h e apreenderam porções de cocaína, crack e maconha durante as revistas a suspeitos. Quinze pessoas, entre responsáveis pelos estabelecimentos, supostos traficantes e adolescentes, que atuariam como "aviões", foram conduzidos à sede da 1ª Delegacia de Polícia Civil, cuja sede fica na mesma via, a poucos metros dos bares.

Todos prestaram declarações, e cinco homens permaneceram presos, sendo encaminhados ao Ceresp. Entre eles estava o proprietário dos dois bares, Elizeu Conrado, 53 anos. Ele teve o flagrante confirmado por associação ao tráfico e pelo crime de descaminho, já que quatro máquinas caça-níqueis, constituídas com placas importadas, foram apreendidas nos estabelecimentos. "Antes, o tráfico só acontecia no bar dele e, depois que ele comprou o do lado, o movimento também migrou para lá. Havia permissividade e conivência", destacou um dos delegados responsáveis pela operação, Eurico Cunha Neto. Contra o homem, já havia mandado de prisão expedido pela Justiça com base nas investigações da Civil, que duraram quatro meses. No período, a polícia fotografou e gravou 40 horas de imagens do comércio ilícito.

"Havia uma reclamação muito grande da própria comunidade sobre essa situação. Esse tráfico escancarado, a cem metros da delegacia, era uma afronta à polícia e à sociedade. Consideramos um verdadeiro abuso, que não podia continuar", disse Eurico. "As fotos e imagens mostram a movimentação intensa. Eles escondiam entorpecentes em orelhões, que também poderiam estar sendo usados como disque-drogas, em bancas e terrenos. Já estávamos com policiais à paisana nos bares e tivemos que fechar as ruas, para evitar fugas, inclusive a Coronel Pacheco, onde costumavam esconder parte do material", completou o delegado. Para o comandante da 32ª Companhia da PM, capitão Ricardo Schafer, houve êxito na ação. "Considero que esse era o principal ponto da Zona Sul de reclamação de bagunça, baderna e uso de drogas."

Os outros quatro suspeitos levados para o presídio, com idades entre 18 e 26 anos, foram autuados por tráfico e associação para o mesmo crime. Contra um deles também havia mandado de prisão. Já outro homem acabou preso na manhã de ontem, quando os policiais voltaram às ruas para busca e apreensão em 11 endereços de supostos fornecedores dos entorpecentes que abasteceriam o tráfico naquela região. Na ação, desencadeada nos bairros Ipiranga, Santa Cecília, São Mateus, todos na Zona Sul, e Dom Bosco, na Cidade Alta, o jovem engoliu três papelotes de cocaína ao ser surpreendido pelos policiais e precisou ser medicado no Hospital de Pronto Socorro (HPS). Os demais conduzidos na megaoperação foram enquadrados como usuários, com exceção de uma garota, 15. Conforme as investigações, ela atuaria como "guarda-roupa", escondendo as substâncias nas roupas íntimas. Apreendida por tráfico, a adolescente foi encaminhada à Vara da Infância e Juventude.

"A operação não terminou. Dois oito mandados de prisão, conseguimos cumprir dois, sendo um o do comerciante, que era nosso alvo principal. Mas vamos continuar as buscas para prender essas outras seis pessoas que estão envolvidas no esquema", enfatizou o delegado José Márcio Carneiro. Já o capitão Schafer garantiu que os militares também continuarão com ações preventivas e repressivas para inibir a venda e o uso de drogas na área. "A população se sentia muito incomodada. Vamos intensificar o policiamento rotineiro e as abordagens a suspeitos."

 

Todos os frequentadores foram revistados

O delegado Eurico Cunha Neto, um dos responsáveis pela operação "Zona Sul", explicou o porquê de a manobra ter acontecido numa noite de quinta para sexta-feira, embora a incidência de tráfico possivelmente seja maior no fim de semana. "Escolhemos um dia em que os bares não estão muito cheios para preservar a integridade física da maioria das pessoas, que é de bem. O movimento estava abaixo do que esperávamos, mas, numa sexta ou sábado, nossa ação poderia causar pânico e tumulto, já que alguém poderia reagir de forma violenta. Cumprimos nosso objetivo de mostrar para a Zona Sul e para Juiz de Fora que a polícia está atenta e trabalhando."

Todos os frequentadores dos bares foram revistados, e algumas pessoas ficaram assustadas com a movimentação. A Polícia Militar cercou a área e fechou a Morais e Castro, no trecho entre as ruas São Mateus e Tavares Bastos. A saída dos frequentadores dos bares só era permitida após liberação por parte dos policiais civis. Uma sacola plástica com cocaína foi jogada no meio da rua. Outras porções de crack e maconha foram localizadas nos bolsos de algumas pessoas detidas. "Aqui ocorria o tráfico tipo formiguinha. Cada um carregava pouca quantidade", explica a delegada Sheila Oliveira, que, ao lado dos delegados Eurico Cunha Neto e José Márcio Carneiro, comandou a ação. Um advogado que teria se irritado no momento da abordagem foi conduzido à delegacia por desacato. Servidores da Vara da Infância e Juventude também foram empenhados para dar apoio, devido à presença de adolescentes.

"Essa área preocupa, porque está numa região com grande circulação de pessoas, sem contar que os bares ficam na mesma rua da delegacia. Não poderíamos deixar que o tráfico e uso de drogas ocorresse desse jeito, a céu aberto", concluiu a delegada Sheila, titular do recém-criado Núcleo de Apoio Operacional da Polícia Civil, voltado para o enfrentamento de ocorrências de destaque e as que necessitem de uma intervenção mais rápida, desde tráfico de drogas, até atuação de quadrilhas, sequestro, cárcere privado, entre outras. O grupo agiu na parte operacional, com base nas investigações feitas pela 1ª Delegacia. Já a PM contou com homens da 32ª Companhia e da 3ª Companhia de Missões Especiais (3ª CME). Taxistas que trabalham em um ponto em frente aos estabelecimentos comemoraram a ação policial. "A situação aqui já estava ficando preocupante. Atrapalhava até o nosso trabalho", comentou um profissional.

O delegado Eurico lembrou que os traficantes estão cada vez mais articulados. "A cada dia que passa, eles estão bem mais informados e começam a utilizar outros artifícios para não serem pegos, como portar a droga em pequenas quantidades. Por isso, a investigação, com 40 horas de filmagens, e as fotos, foi fundamental para identificarmos os traficantes e pedirmos à Justiça os mandados de prisão e de busca. Estamos falando do coração da Zona Sul."

 

Reclamação de barulho em outro ponto

Além do uso e venda de drogas nas proximidades de bares do São Mateus, outras situações preocupam a comunidade. Na Avenida Itamar Franco (antiga Independência), no mesmo bairro, a perturbação do sossego prejudica moradores que alegam não conseguir ter o sono tranquilo nas madrugadas. Uma lanchonete, aberta de quarta-feira a sábado até às 7h, estaria atraindo jovens que, ao saírem de festas, procuram o local para lanchar. "É uma algazarra. Eles gritam, ligam som alto nos automóveis e nos ameaçam quando pedimos silêncio. Não estamos conseguindo dormir", afirma um morador de 53 anos, que preferiu não se identificar com receio de retaliações. Outro vizinho do estabelecimento, 77, diz que o ambiente nas proximidades da lanchonete é tolerável até 23h. "Depois disso, fica desagradável. Carros estacionam na contramão, motoristas buzinam, batem porta, e pessoas consomem drogas perto dos veículos."

De acordo com um dos representantes do Conselho de Segurança de São Mateus, José Luiz Britto, um grupo de moradores protocolou requerimento no Ministério Público, solicitando providências quanto à perturbação do sossego. "Entre 2h e 5h, o problema fica ainda mais evidente. Já tivemos também reuniões na Secretaria de Atividades Urbanas (SAU), mas nenhuma solução foi apontada. O que precisamos é seguir o exemplo de cidades que tiveram a coragem e a sensatez de proibir o funcionamento de comércios deste tipo depois das 23h. Assim foi em Diadema (SP) e São Caetano do Sul (SP)."

Em nota, o assessor de imprensa do 27° Batalhão da PM, tenente Flávio Campos, disse que a polícia realiza diversas ações para coibir os excessos de barulho na área. Entre setembro e novembro, foram 27 operações na Avenida Itamar Franco, sendo algumas em parceria com a Prefeitura. Neste período, 147 veículos foram abordados e 126 autos de infração de trânsito, registrados.

A responsável pela SAU, Graciela Vergara Marques, afirma ter conhecimento da situação do estabelecimento na Avenida Itamar Franco e respondido aos questionamentos do Ministério Público. No entanto, ela explica que a pasta só pode atuar com relação à perturbação do sossego ocasionada por som automotivo. "Entre janeiro e março, foram 34 notificações deste tipo." Sobre o comércio, Graciela disse que o dono não pode ser responsabilizado "porque a poluição não é causada por ele". Além disso, o Código de Posturas estipula que o horário de funcionamento de estabelecimentos comerciais, em Juiz de Fora, não pode ser limitado.

Para denunciar perturbação do sossego, conforme a Polícia Militar, o morador deve ligar para o 190. Tenente Flávio explica, porém, que o boletim de ocorrência só pode ser registrado se a pessoa se identificar. "Nas situações em que o solicitante não se predispõe em se identificar, a Polícia Militar faz o contato com o autor da perturbação e o orientará a abaixar o volume do som, ou até mesmo desligá-lo, dependendo das circunstâncias."