Ouça agora

Mais um caso de violência no tráfego


Por Marcos Araújo

01/08/2012 às 07h00

A Polícia Civil abriu inquérito para investigar o caso de mais uma briga de trânsito que resultou, desta vez, em uma lesão provocada por canivete. O fato é considerado gravíssimo por especialistas, uma que vez que o suspeito de cometer o crime é um motorista profissional. O caso vem à tona sete dias depois de um idoso, 72 anos, ter sido agredido com um chute no tórax pelo motorista de um veículo após uma discussão no trânsito, no Centro. A ocorrência foi registrada no último sábado, em Benfica, Zona Norte, quando um motorista de um ônibus urbano, 34 anos, teria golpeado, com um canivete, o carona de um veículo, também de 34 anos, depois de um desentendimento, na parada do cruzamento das ruas Dona Ana Sales com Paulo Garcia. O titular da 3ª Delegacia, Rodolfo Rolli, afirmou que irá colher o depoimento da vítima. "Depois de ouvi-la, teremos condições de tipificar o delito, que pode ser qualificado como lesão corporal grave ou tentativa de homicídio", ressaltou, acrescentando que suspeito e testemunhas também serão intimados. "Ao confrontar as informações prestadas, vamos saber qual o motivo dos golpes, além de verificar se houve ou não a intenção do suspeito em matar o carona."

Segundo a PM, a vítima, que estava de carona em um Agile, relatou que seu primo conduzia o automóvel, quando parou para a passagem de preferência de um ônibus. Conforme a PM, o condutor do veículo alegou que teria parado obedecendo a sinalização, porém o motorista do ônibus teria reclamado que seria impossível manobrar com o veículo naquele local. Os dois motoristas passaram a discutir, quando um passageiro do coletivo, não identificado, desembarcou e entrou em luta corporal com o carona. Neste momento, como aponta o registro policial, o condutor do ônibus teria saído do veículo, com um canivete, desferindo o golpe contra a vítima, o que ocasionou lesão no tórax. O homem foi socorrido por populares até a Policlínica de Benfica, onde foi medicado e transferido para o HPS. Segundo a assessoria de comunicação da Secretaria de Saúde, o rapaz recebeu alta médica ainda no sábado.

Ainda segundo a PM, o motorista do coletivo, ao ser ouvido, disse que o Agile não havia parado conforme à sinalização, vindo a quase bater no ônibus. Ele também relatou que os dois ocupantes do Agile desceram do carro, gritando xingamentos e promovendo socos e chutes na lateral direita do coletivo, causando pequenos amassamentos, arranhões. Também teria dito que um passageiro, que não soube identificar, lutou com a vítima. Ele teria descido do ônibus para verificar a situação, quando a vítima teria ido em sua direção para lhe dar um soco. Neste instante, o motorista teria pego o canivete de seu chaveiro para se defender, lesionando o carona. O condutor do ônibus relatou que, após o fato, ficou em estado de confusão mental e retirou o ônibus do local. Já no Bairro Francisco Bernardino, foi abordado por uma viatura da Rotam, confessando o que teria ocorrido. Ele foi conduzido à delegacia, em Santa Terezinha, onde prestou declarações e foi liberado mediante o compromisso de comparecimento quando for solicitado.

Agressividade no trânsito preocupa

Para o delegado Rodolfo Rolli, situações como esta, que chegam à extrema violência no trânsito, estão ligadas ao estresse do dia a dia, agravado pelo tráfego caótico. "O tumulto é tão grande que as pessoas ficam nervosas, perdem a cabeça e acabam ocasionando um fato grave, que pode virar uma tentativa de homicídio qualificada por motivo torpe ou fútil, cuja pena varia de 12 a 30 anos de prisão." Especialista em trânsito e membro da Comissão Municipal de Segurança e Educação no Trânsito (Comset), José Luiz Britto, defende que o Poder Público invista em campanhas para educação no trânsito. "Falta respeito, educação e paciência nas ruas de Juiz de Fora. Acostumado a transitar pelo Rio de Janeiro, considero que os condutores juiz-foranos estão mais agressivos, e algo precisa ser feito para mudar este cenário."

Britto destaca que as campanhas devem ser constantes na mídia, mostrando o comportamento a ser adotado pelos condutores. "Conscientização precisa começar na escola, a fim de que as crianças se tornem adultos responsáveis. O fato de ter um profissional do trânsito perdendo a cabeça e partindo para a violência é gravíssimo. Ele usou um canivete, mas poderia ser um pedaço de pau, uma barra de ferro ou até mesmo uma arma de fogo, que resultaria em uma morte. É necessário haver mais tolerância entre as pessoas quando estão no trânsito."

De acordo com gerente de operação da Viação São Francisco, José Roberto Barganha, empresa na qual o condutor suspeito trabalha, tomou todas as providências necessárias no dia do ocorrido. Como ele aponta, o motorista envolvido está há 18 anos no emprego e nunca teve no seu histórico um episódio de violência, tendo em dia todos os cursos de capacitação de condutores. "Foi uma fatalidade, porque temos como regra, para nossos funcionários, sempre manter a calma e nunca se envolver em atritos verbais ou físicos", destacou o gerente, completando que cidadãos e motoristas precisam ter mais educação no trânsito.