O drama familiar contra o crack
Na marcha realizada neste sábado na cidade, uma das maiores preocupações das famílias era com a questão do crack. Embora exista a informação de que esta droga se tornou uma epidemia em várias cidades do país, Juiz de Fora não tem dados precisos do número de usuários do entorpecente, apontado como a causa de outros problemas sociais, já que, para manter o vício, muitos dependentes acabam praticando crimes, como furtos e roubos, e destruindo famílias. A chefe do Departamento de Saúde Mental da Secretaria de Saúde, Ana Cecília Villela Guilhon, destaca que há um imaginário sobre o dependente, que nem sempre é compatível com a realidade. Ela diz que as pessoas imaginam o usuário de forma estereotipada, ou seja, do sexo masculino e em situação de rua. "Entretanto, assistimos pessoas de várias idades, homens e mulheres, de todas as classes sociais e com as mais diversas formas de uso."
No município, não é raro se deparar com flagrantes de dependentes em via pública, como em trechos da Rua José Calil Ahougi, no Centro, já batizada de "cracolândia", sob as pontes do Rio Paraibuna e nas margens da linha férrea, conforme já foi denunciado pela Tribuna. Por trás das histórias dessas pessoas, que, na maioria das vezes, têm suas vidas arruinadas, há o drama de seus familiares. Mães e pais que, muitas vezes, se deixam vencer pelo sentimento de impotência, como é o caso de uma moradora da Zona Norte, de 63 anos, que viu sua vida ser devastada na mesma proporção em que o filho, 37, afundou-se no crack, a conhecida "pedra da morte". Desde que o filho torno-se usuário, a aposentada tem sido ameaçada de morte, furtada e roubada. Em quatro anos, 22 boletins de ocorrência foram registrados envolvendo o filho dela, nos quais a mãe ou a companheira dele são vítimas. "Ele quer que eu fique com medo e saia da minha casa, pois seu desejo é transformá-la em um ponto de venda de drogas."
Desde que ele deixou a residência da mãe, há quatro anos, ela vive sob tensão. A senhora, que terá sua identidade preservada, conta que, de tempos em tempos, o filho volta para roubar ou furtar. "Outros homens que andam com ele também vêm até aqui. Vivo com medo e cercada", angustia-se a mulher.
Ela relata que ganhou um prêmio de R$ 9.500 de uma empresa de capitalização. Com o dinheiro, começou a construir uma casa para uma das filhas. Entretanto, desde que as obras começaram, o projeto não chega ao fim, pois vem sofrendo sucessivos furtos de materiais. "Já foram levados madeiras, tijolos, areia e saibro. Eu compro e, em seguida, são furtados", relata. Segundo ela, o filho começou a roubar para manter o vício. Dos 22 boletins de ocorrência, nove são de ameaças, quatro de furtos a residência, um de agressão e outro de lesão corporal, além de dois de atrito verbal, um de perturbação de sossego e três de visitas tranquilizadoras, nos quais a PM foi deslocada até o local a fim de acalmar os ânimos dos envolvidos. "Acho que nem adianta mais interná-lo. O que eu mais queria agora era ter paz na minha vida", desespera-se a aposentada.
Queda de mitos
De acordo com o coordenador do Centro de Referência em Pesquisa, Intervenção e Avaliação em Álcool e Outras Drogas (Crepeia) e professor do Departamento de Psicologia da UFJF, Telmo Ronzani, não há um relatório epidemiológico sobre o crack na cidade e, segundo ele, já existe a ideia de sua realização. "Sem dados sistematizados, é difícil desenvolver políticas adequadas e, muitas vezes, acabam sendo pautadas em preconceito, criando ações que fogem da realidade dessas pessoas. Isso é um desafio de todo a país, porque é uma situação que pode ser considerada recente e invisível para a opinião pública", considera o especialista, acrescentando que pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) derrubou alguns do tabus que envolviam o perfil do usuário de crack. "Um dos mitos que caiu foi de que o dependente não quer se tratar. A pesquisa mostrou que o usuário deseja o tratamento, porém encontra dificuldades. Outro fator que mudou é sobre a questão da epidemia, que existe, mas não é descontrolada. Esse crescimento alarmante foi colocado em xeque."
Conquistas ainda são recentes
Na tentativa de combater o avanço do crack na cidade e evitar a destruição de mais famílias, segundo a chefe do Departamento de Saúde Mental, Ana Cecília Villela Guilhon, o município teve uma conquista com a implantação do Conselho Municipal de Políticas Integradas sobre Drogas (Compid) e do Fundo Municipal de Políticas Integradas sobre Drogas (Fumpid). Este fundo possibilita que o Compid receba verbas oriundas de apreensão das drogas realizadas em ações policiais. Outro avanço foi o Plano Municipal Integrado sobre Crack, Álcool e Outras Drogas – o "JF +Vida". "O Compid é uma conquista recente. Ele está em funcionamento com plenárias mensais e já teve seu fundo aprovado, estando em fase de captação de recursos para cadastrar novas entidades e fazer o mapeamento da rede", enfatizou Ana Cecília, completando que "com o JF + Vida, abre-se um caminho, com a implantação do eixo geração de renda, permitindo a reflexão de que o tratamento não é o fim do processo. Depois dele, existe a etapa de reinserção social, para que o usuário possa se manter. Nele é possível encaminhamentos para oficina de geração de renda e cursos profissionalizantes. Destaco a oficina de alfabetização, realizada no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps) AD, que atende pacientes que tinham poucas chances de ingressar no mercado de trabalho e, a partir da alfabetização deles, essas chances aumentam." Atualmente, a oficina atende a 18 pessoas.
Atendimento
Entre maio e junho deste ano, 170 novos pacientes deram entrada no Caps AD. Entretanto, esse número não envolve apenas dependentes de crack. Além disso, o total de pessoas em tratamento na cidade é desconhecido, em função da existência de uma rede ampliada, com diversos serviços ofertados. De acordo com a chefe do Departamento de Saúde Mental da Secretaria de Saúde, Ana Cecília Villela Guilhon, a cidade funciona com uma rede para tratamento de usuários e apoio a seus familiares. Essa teia, segundo ela, é formada pelas redes pública e complementar. No que diz respeito ao tratamento em órgãos públicos, a porta de entrada do paciente se dá pelas unidades básicas, que fazem todo o acompanhamento do usuário. Dentro desse universo, existe o Caps AD, que funciona como um equipamento especializado, já que conta com um equipe multiprofissional, envolvendo psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, psiquiatras e médicos clínicos. "O Caps AD atende e acolhe pacientes que passaram pelas Uaps e também realiza atendimentos diretamente sem referência nestas unidades. Nele, os usuários passam por avaliação, na qual é determinada a necessidade de internação. Também é possível avaliar se a pessoa tratada precisa de apoio para voltar ao estudo, inserção no mercado de trabalho e de leito de desintoxicação. Depois dessa avaliação, são realizados os encaminhamentos para os serviços que a rede pública oferece."
Reincidência
Ainda conforme Ana Cecília Villela Guilhon, por enquanto, também não é possível saber o índice de reincidência em Juiz de Fora, já que o conceito do tratamento eficiente é subjetivo. "Tanto na cidade como em nível nacional, a ideia de eficácia é complexa e discutível, pois o sucesso do tratamento pode ser considerado se o paciente realmente deixou as drogas para o resto da vida ou apresentou uma melhora em certos aspectos da sua vida, como voltar a ter convivência familiar mesmo que use drogas eventualmente. Dentro de uma perspectiva de redução de danos, podemos ter a visão de que o tratamento surte efeito desejado".
O Caps AD funciona na Rua Silva Jardim 430, Bairro Santa Helena, e lá também oferece apoio a familiares. "As pessoas podem chegar diretamente a fim de serem acolhidas, inclusive familiares de usuários que não estejam em tratamento no Caps AD", ressalta. Informações sobre o apoio podem ser obtidas pelo telefone 3690-8550.









