Cidade – 27-11-2011
Depoimentos resgatam a rotina
Na peregrinação pela antiga Colônia, hoje hospital regional, o primeiro encontro foi com Machadinho, o paciente número 1.530, reconhecido nas imagens de Luiz Alfredo. Com 80 anos, ele precisa de cadeira de rodas para se locomover. Ao abordá-lo, ele mirou fixo meus olhos, mas não quis falar. Fechado dentro de si mesmo, talvez tenha guardado num canto da memória tudo que passou naquele campo de concentração até conhecer um pouco de dignidade. Aí veio Marlene Laureano, antiga funcionária, e o encontro com os outros sobreviventes, Antônio Sabino e Maria de Jesus. No caminho para os módulos residenciais, que fizemos a pé, Marlene confidenciou. Para mim é muito difícil falar sobre o que se passou aqui. Nunca contei em casa o que ocorria no hospital. Só aguentei, porque acreditava num futuro melhor com cama e comida para todos. Aconteceu.
Diante de uma tragédia com um saldo de 60 mil mortos, a história de uma funcionária que se apaixonou por um paciente da Colônia foi uma pausa. Como ela não pôde viver sua paixão, após a morte do interno, guardou por mais de 20 anos o crânio dele. Era vista nos barzinhos de Barbacena tomando cerveja com o crânio do amado ao lado. Como estava ficando falada, foi convencida a doar a caixa óssea para o Museu da Loucura. A história é real e o crânio está lá para quem quiser comprovar.
Na volta a Juiz de Fora, partimos para a localização dos psiquiatras que testemunharam o massacre da Colônia. Ronaldo Coelho, Wellerson Alckmim, Antônio Simone, Paulo Henrique Resende Alves, Francisco Paes Barreto, todos residentes em Belo Horizonte. Um a um eles foram sendo encontrados e com seus depoimentos ajudaram a reconstituir a rotina de Barbacena. Ronaldo, autor de dezenas de livros infantis, fez um conto sobre um paciente internado na colônia aos 13 anos de idade, após ser flagrado pelo pai se masturbando. Ele é baseado em fatos reais. Esse adolescente esteve com um médico por duas vezes. Uma quando deu entrada no hospital, com diagnóstico de onanismo, considerado uma das causas da loucura, na época. Outra, aos 75 anos de idade, quando morreu. No atestado de óbito, o diagnóstico foi de esquizofrenia, dado por um médico que nunca havia visto ele, revela. Ronaldo convidou o filósofo francês Michel Foucault para vir ao Brasil, em 1979, em função da publicação de seus trabalhos que tiveram a loucura como tema. Na troca de dezenas de telefonemas com Ronaldo, descobri, ainda, que ele viveu em Juiz de Fora na juventude. Foi a única cidade onde passei fome, porque a comida do Exército era horrorosa, divertiu-se.








