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Crônica: Visitando o passado emprestado


Por Géssica Soares

27/10/2013 às 07h00

Durante o dia vejo um belo jardim. O grande lago que carrega aves singelas e flutuantes aumenta minha expectativa a cada passo que dou em direção à entrada. Rico e vivo verde, flores exalando cores e perfumes que provocam um natural sorriso em meu rosto.

Ando mais um pouco e a fauna me presenteia com sincronizada harmonia. Desde inseto a mamífero, o animal mais estranho entre eles sou eu, pois sou a única que admira, observa e se dá conta do quão grandioso o simples pode ser.

Alguns passos a mais e lá está a bela mansão. Tão mágica e real. Tão cheia de segredos e reveladora. Como algo tão contraditório não chamaria minha atenção? Assim que entro no local, escuto o ruído do assoalho, o cheiro memorável do antigo e logo meus olhos se prendem no lindo piano que me faz ouvir uma música que não foi tocada.
 
Fatos, fotos, tapeçarias e peças que despertam lembranças, que não foram vividas, muito menos inventadas e sim, emprestadas, daqueles que viveram. Daqueles que deixam e perpetuam sua história. Luz de um trabalhado abajur, tão luminosa que poderia ser um lustre. Será que não estou vendo um lustre? É claro que não… Observando melhor, reparo que nem existe uma luz acesa naquele setor do Museu.
 
Suponho que esses lençóis e fronhas guardam sorrisos e lágrimas, da mesma maneira que os móveis carregam aquela assinatura encontrada em árvores com os dizeres "Eu estive aqui".
 
Joias e roupas preciosas, com pedras esculpidas e colocadas à mão, foram desejadas por príncipes e princesas que, quando chegam à idade adulta e são considerados novos donos, notam que o valor dessas preciosidades aumenta, assim como suas responsabilidades. Responsabilidade quando era pouca muito queria se fazer, mas quando era muita, quase nada poderia ser feito. 
 
Neste vai e vem de trem, nesse briga e "desbriga" entre colônia e metrópole, a independência quase deixou restos, mas uma alma boa observou, pensou e decidiu: "Podíamos construir um Museu". De que valeria toda essa luta, se não pudéssemos ver nenhum pedacinho desse drama baseado em fatos duplamente reais? Acho que foi isso que pensaram.
 
Saindo da mansão nostálgica que conta boa parte da história brasileira, olho para o alto agradecendo às estrelas pelo dia que passei no Museu Mariano Procópio. À noite, o lugar se transforma mais uma vez, ou melhor, me transforma mais uma vez.
 
As luzes verdes e azuis se misturando em tons lilás que deixam meio perdida entre o real e o que meus olhos me fazem imaginar. Visitar o Museu ajuda minha busca em relação ao passado, e traz comparações, sugestões e respostas para meu presente.
 
Géssica Soares – Estudante de jornalismo da Faculdade Estácio de Sá de Juiz de Fora, autora do livro "Nora, o começo", publicado em abril deste ano pela Editora Novo Século.