Custódio, Bruno e Pestana se manifestam sobre denúncias em obras

Ex-prefeitos e ex-deputado questionam ação de improbidade administrativa envolvendo Hospital Regional


Por Marcos Araújo

20/12/2021 às 21h23- Atualizada 20/12/2021 às 21h26

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A ação cita 72 pessoas e pede o ressarcimento de R$ 33 milhões aos cofres públicos (Foto: Fernando Priamo)

O ex-prefeito de Juiz de Fora , Bruno Siqueira, e o ex-deputado federal e ex-secretário de Estado de Saúde, Marcus Pestana, manifestaram-se a respeito das denúncias que pesam contra eles no que tange ao planejamento e à execução das obras do Hospital Regional de Juiz de Fora. Como foi mostrado pela Tribuna, no último dia 17, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), por meio da 22ª Promotoria de Justiça, ajuizou ação de improbidade administrativa na Vara da Fazenda Pública e Autarquias Estaduais da Comarca de Juiz de Fora, questionando supostas irregularidades das obras, que se arrastam desde 2010. A ação, além de Siqueira e Pestana, também cita o ex-prefeito de Juiz de Fora, Custódio Mattos, e cerca de outras 70 pessoas, pedindo o ressarcimento de R$ 33 milhões aos cofres públicos. Custódio Mattos disse à Tribuna que ainda irá tomar conhecimento do processo, para que possa se manifestar de forma mais profunda sobre a situação.

O nome de Bruno é apontado em trechos que questionam a execução dos contratos firmados com empresas que trabalharam nas obras do Hospital Regional. O ex-prefeito também é responsabilizado por depredações e furtos ocorridos nas obras após as paralisações dos trabalhos. Segundo o MP, mesmo após a Prefeitura ter recebido a obra entregue “formalmente, com notificação”, o ex-prefeito teria se omitido “conscientemente na contratação ou determinação de vigilância do local”. O Ministério Público aponta ainda que Bruno teria participação em condutas ilícitas durante o processo licitatório.

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“Se tivesse feito um inquérito e escutado as partes, eles iriam saber que a segurança da obra foi feita pela Guarda Municipal. Completamente sem fundamento a argumentação a meu respeito”, respondeu o ex-prefeito (Foto: Fernando Priamo)

Em nova manifestação sobre o tema, Bruno rebate o MP. “O MP alega que não teve a contratação de empresa de segurança depois que a construtora saiu da obra e, por isso, estou sendo processado. Se tivesse feito um inquérito e escutado as partes, eles iriam saber que a segurança da obra foi feita pela Guarda Municipal. Completamente sem fundamento a argumentação a meu respeito”, disse. À Tribuna, no dia 17, o ex-prefeito já tinha ressaltado que “não cabe ação de improbidade administrativa ao gestor por realizar um processo licitatório para o bem da população e sem nenhuma ação dolosa”.

Já em relação ao ex-deputado Marcus Pestana, entre os supostos ilícitos praticados, estaria o fato de não ter realizado planejamento político da obra enquanto secretário de Estado de Saúde, função que exerceu entre 2003 e 2010, o que teria refletido “em danos durante toda a execução do contrato”. Segundo a denúncia, o mau planejamento foi constatado pela Advocacia-geral do Estado, que apontou que o primeiro convênio firmado tinha valor de R$ 42 milhões quando seriam necessários, pelo menos, R$ 100 milhões.

Em sua manifestação acerca da situação, Pestana lembrou que Juiz de Fora é um dos 18 polos macrorregionais de saúde de Minas e que o Hospital de Pronto Socorro (HPS) funciona, precariamente, em condições desumanas. Segundo ele, a partir deste diagnóstico, foi tomada a decisão, por parte da Secretaria de Saúde de Minas, de construir um novo hospital, “moderno e humanizado, para a transferência do HPS, desonerando, inclusive, a Prefeitura de um aluguel de mais de R$ 150 mil que poderiam ser revertidos em atendimento à população no novo hospital”, afirmou, observando que “seria uma simples replicação do HPS, em escala e órbita de assistência, mas com qualidade e instalações e equipamentos adequados.”

Conforme Pestana, por essas razões, ele assinou o convênio para a construção do hospital em dezembro de 2009, no valor de R$ 42 milhões, necessários para a implantação do projeto inicial do Hospital Pronto Socorro Municipal. Todavia, como aponta o ex-deputado, posteriormente, “o projeto foi alterado radicalmente e ampliado em sua estrutura para dar lugar ao grande Hospital Regional de Urgência e Emergência da Zona da Mata.” Porém, como explica Pestana, ele se desincompatibilizou do cargo em março de 2010, para se candidatar a deputado federal. Assim, afirma que só teve contato com o assunto objeto alvo da denúncia por três meses, não participando de nenhuma etapa, ainda que preliminar, da implantação do projeto.

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Pestana afirma que só teve contato com o assunto objeto alvo da denúncia por três meses, não participando de nenhuma etapa, ainda que preliminar, da implantação do projeto (Foto: Fernando Priamo)

“Muito menos da definição de sua significativa ampliação. Aliás, como obra conveniada, todas as medidas administrativas caberiam à Prefeitura de Juiz de Fora. Só restaria ao Governo de Minas a liberação dos recursos, a fiscalização da execução e a tomada de contas”. Etapas que o ex-secretário diz não ter participado, apenas da assinatura do convênio. “Ao contrário do apontado pela ação civil pública, não padeceu de nenhuma falta de planejamento. Houve o diagnóstico do esgotamento da capacidade de atendimento do HPS, e os recursos disponibilizados eram compatíveis com o projeto original do novo hospital, posteriormente modificado. Os projetos conveniados seguem parâmetros do Deop/MG (Departamento de Obras Públicas/MG) e não são aleatórios.” Pestana afirma ainda que não pode responder por ato ou fato posterior a março de 2010 e que, já exercendo o cargo de deputado, não tinha qualquer participação na gestão estadual e municipal.

Contra o ex-prefeito Custódio Mattos, a denúncia aponta que ele é acusado de descumprir obrigações previstas no convênio, como na que resultou nas desapropriações de imóveis para a construção do Hospital Regional. O Ministério Público também considera que ele teria responsabilidade sobre a duplicidade de serviços prestados pela Empav nas obras do Hospital Regional e por suposta restrição da competitividade em processos licitatórios, problemas na execução e fiscalização dos contratos, entre outros. Por supostos “danos potenciais com o convênio da desapropriação”, o MPMG pede que o prefeito seja condenado a ressarcir aos cofres públicos R$ 3,8 milhões, além de outros valores a serem divididos com outros denunciados.

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“Eu fui informado sobre a existência desses processos por meio da imprensa e só sei aquilo que foi divulgado pelo jornal, pois o processo ainda não está disponível, e eu não conheço a petição”, respondeu Custódio Mattos (Foto: Leonardo Costa/Arquivo TM)

À Tribuna, o ex-prefeito disse que está acompanhando a situação por meio de seu advogado e afirmou que há nove anos ele deixou a Prefeitura e que esses fatos ocorreram há cerca de 11 anos e que nunca, neste período, foi informado, ouvido, direta ou indiretamente, sobre qualquer fato relacionado às situações denunciadas pelo Ministério Público. “Eu fui informado sobre a existência desses processos por meio da imprensa e só sei aquilo que foi divulgado pelo jornal, pois o processo ainda não está disponível, e eu não conheço a petição. Então, nove anos depois, algo dessa responsabilidade aparece, eu não posso comentar o que ainda não conheço. Eu não vou cometer o erro de tratar com superficialidade um assunto que envolve a minha reputação e a de terceiros. Vou esperar ter conhecimento do que se trata para fazer uma resposta proporcional ao nível de gravidade do assunto”, afirmou.

Prática de ilícitos

A ação por improbidade administrativa foi registrada na última quinta-feira (16) e cita dois inquéritos civis instaurados pelo Ministério Público. Um deles, já encerrado, foi aberto em 2016 e trata de representação formalizada pela presidência da Associação de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania, pedindo providências face à possível paralisação das obras do Hospital Regional de Juiz de Fora, haja vista o volume de recursos públicos investidos. O outro data de 2020 e permanece em aberto, classificado como sigiloso.

“Foi constatada a prática de ilícitos desde a decisão de criação e implementação da política pública, passando pelas licitações das empresas construtoras, até os praticados na execução das obras”, diz a ação. Assim, a ação pede que as pessoas físicas e jurídicas citadas, incluindo os ex-prefeitos Custódio e Bruno e o ex-deputado Marcus Pestana sejam condenados a sanções como a perda dos direitos políticos por prazo previsto em lei.

O MPMG também pleiteia que seja determinado aos denunciados a perda de bens ou valores acrescidos ilicitamente ao patrimônio; o ressarcimento de danos; a perda de função pública possivelmente exercida pelos denunciados; o pagamento de multa civil no parâmetro legal; e a proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo legal.