Polícia Civil apura denúncias de crimes sexuais em casa de festas
Cerca de 60 mulheres teriam sido vítimas de diversas infrações, e caso está em segredo de justiça. Proprietário do estabelecimento nega acusações
A Polícia Civil de Juiz de Fora, por meio da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), instaurou inquérito para apurar supostos casos de violência sexual contra mulheres frequentadoras de uma casa de festas de Juiz de Fora. As denúncias são relativas a situações de assédio sexual, tentativas de estupros, violências físicas e psicológicas, além de racismo e homofobia, que teriam acontecido ao longo dos últimos 12 meses. A situação já teria vitimado cerca de 60 mulheres.
O caso, conforme a delegada Alessandra Azalim, está em segredo de justiça. No entanto, a titular da Deam solicita que toda e qualquer vítima procure a Deam para que medidas pertinentes sejam tomadas. Em boletim de ocorrência registrado nesta terça-feira (7), o proprietário do estabelecimento nega as acusações. A Tribuna não conseguiu contato com ele.
A história veio à tona depois que uma jovem, por meio de suas redes sociais, denunciou supostos casos de estupro e de violências física e psicológica, além de racismo e homofobia, no estabelecimento, que estaria realizando eventos clandestinos durante a pandemia. A denunciante foi acolhida pelo Núcleo da OAB Mulheres de Juiz de Fora, que prestou orientação e auxílio jurídico à jovem.
De acordo com a presidente do Núcleo, Cátia Moreira, a jovem denunciou que a amiga dela teria sido vítima das situações ocorridas na casa de festas. A partir da repercussão nas redes sociais, outras mulheres foram surgindo, alegando terem sido vítimas da mesma situação. “Houve relatos de vítimas que foram drogadas no local e vítimas de racismo e de homofobia. Diante dessas denúncias, nosso núcleo, que trabalha com o acolhimento da mulher, encaminhou a denunciante para a Delegacia de Mulheres e formalizou a denúncia, porque a OAB não tem o poder de fazer investigação. Mas desde então, não paramos de receber denúncias”, disse Cátia, acrescentando que já são cerca de 60 vítimas identificadas.
A OAB Mulheres recebeu, inclusive, denúncia de uma mulher que diz ter sido vítima de tentativa de estupro. Ainda segunda ela, algumas vítimas relataram que existem filmagens de sexo sem consentimento que são usadas para fazer divulgação entre os frequentadores do sexo masculino da casa de festa.
Tão logo a denúncia repercutiu, diversas outras mulheres, também por meio das redes sociais, prestaram apoio à jovem denunciante. Em seu perfil, na mesma rede, o Coletivo Maria Maria parabenizou a coragem da denunciante e informou que uma advogada do coletivo, especialista em direito criminal, se dispôs a prestar orientações jurídicas, acolher e ouvir a denunciante, se fazendo, oficialmente, advogada dela. “Foi formalizada a denúncia, provas foram entregues, e a moça segue sob proteção judicial”, informou o Maria Maria. Na quarta-feira (8), a jovem divulgou no seu story que não iria, até aquele momento, falar com a imprensa, mas que, posteriormente, acompanhada de seu pai e de uma advogada, marcaria com os veículos de imprensa que estavam à procura dela.
Em registro policial, proprietário diz que acusações são inverídicas
A Tribuna teve acesso ao Registro de Eventos de Defesa Social (Reds) que foi realizado nesta terça-feira (7) pelo proprietário da casa de festas. No documento, o homem relata que, no último dia 5, uma ex-frequentadora da casa divulgou, por meio de suas redes sociais, ataques de natureza grave contra ele. Segundo o proprietário, a jovem relata acusações de assédio ocorrido contra terceiros em eventos na casa de festas, bem como distribuição de substâncias ilícitas no local, e acusa, ainda, a instituição policial de se fazer omissa e de estar obtendo vantagens de cunho pessoal perante os eventos.
Como informado no Reds, o proprietário relata ainda que, devido ao alcance tomado nas redes sociais, depois da primeira acusação, a jovem vem agindo a todo o momento, objetivando aumentar o alcance de suas publicações e, assim, angariar mais pessoas em seus perfis sociais, onde há vários comentários proferindo calúnia contra ele em razão das acusações. Ele disse ainda que, a todo o momento, chegam mensagens em seus perfis sociais de inúmeras pessoas lhe ofendendo e lhe acusando de algo que ele não fez e desconhece. O homem ainda confirmou que não tem conhecimento de assédio em seus eventos e que as acusações narradas contra ele pela ex-frequentadora são inverídicas.
Em vídeo postado nas suas redes sociais, o proprietário da casa de festas, comenta que vem sendo “cancelado” a respeito de vários assuntos sobre os eventos realizados por ele. “Eu vi os tuítes e stories postados e sentei com minha equipe e começamos a observar os relatos e ficamos chocados, porque nunca chegaram ao nosso conhecimento. E tudo que chegou para a gente foi ouvido e trabalhamos para tomar uma atitude e resolver a situação de uma maneira imediata. Todas as pessoas que até hoje precisaram de algum tipo de ajuda, de socorro no meu evento, sempre foram socorridas e respaldadas com maior carinho e atenção do mundo”, disse, acrescentando que o assédio é grave e é uma situação que deve ser falada, porque é uma realidade do mundo o entretenimento.
“Eu nunca compactuei ou fui a favor desse tipo de coisa e quem me conhece sabe, pois nunca permiti e não brinco quando falo do meu trabalho. Eu não teria chegado onde cheguei se eu fosse essa pessoa que estão colocando. Minha preocupação é sempre a integridade das pessoas do meu evento”, ressaltou, acrescentando que todas as situações levadas para ele foram sanadas por sua equipe. Ele também negou acusações de racismo e homofobia e disse que todas as pessoas que trabalham no estabelecimento e que tenham causado esse tipo de situação já foram afastadas de suas atividades até a apuração dos casos.
A Tribuna tentou contato por telefone com o proprietário, na manhã desta quinta-feira (9), mas as ligações não foram atendidas.
Orientação é para que vítimas procurem a Delegacia da Mulher
Conforme a delegada Alessandra Azalim, pessoas que passaram por alguma situação devem procurar diretamente a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher. “Isso é importante porque as pessoas estão procurando outras delegacias e outros órgãos que não são de investigação. Queremos que as pessoas sejam conscientizadas de que a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher está à frente do caso, e toda e qualquer vítima deve procurar a Deam e as delegadas responsáveis”, ressaltou Alessandra. A Deam fica no 2º andar do Santa Cruz Shopping, na Rua Jarbas de Lery Santos 1.655, Centro.
A presidente do Núcleo OAB Mulheres, Cátia Moreira, orienta ainda que outras mulheres que tiverem sido vítimas de possíveis crimes na casa de festa e que necessitam de acompanhamento jurídico procurem o órgão. “Essas denunciantes serão acolhidas, porque elas não estão sozinhas, para que medidas sejam realizadas dentro dos parâmetros da lei, a fim de que haja responsabilização dos responsáveis”, enfatizou. “O fato de uma mulher sair com roupa curta, o fato de uma mulher ir a uma festa, seja ela lícita ou não, não dá o direito de que ela seja vítima, porque o estupro não fez parte desse roteiro”, ressaltou Cátia. Todas as mulheres que buscarem a OAB serão acolhidas e encaminhadas para a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher.









