‘Sede da manhã’ é a fotografia de Laura Jannuzzi para este momento
Segundo disco da cantora e compositora residente em Juiz de Fora, lançado nesta sexta, mostra maturidade tanto na produção quanto nas composições das sete músicas, uma delas com participação de Ney Matogrosso


O trabalho artístico é um processo, apesar de ser também ato contínuo. Cada disco é um ponto de parada e, porque não, de partida. “Ondes” (2016), primeiro disco de Laura Jannuzzi, tinha sonoridade do cotidiano de uma cidade do interior, registrando o momento em que ela saiu de Palma (MG) e decidiu firmar os pés em Juiz de Fora para, realmente, ser cantora. “Sede da manhã”, seu segundo disco, lançado nesta sexta (19), percorre seu interior. O plano de fundo: o cotidiano urbano de uma cidade grande. “Esse disco é um reencontro comigo e com a música. É como se fosse uma luz mesmo.” Ele é sobre a busca de si mesma. Ainda assim, conta com várias parcerias nas composições. E ela explica como isso é possível: “Eu acredito muito na magia da música, não é nada exato. Tem uma conexão. A gente é conectado com a mesma história”. De uma maneira íntima, Laura se apresenta.
Junto com o álbum, Laura lança o single e o clipe de “Sete-luas”, com participação especial de Ney Matogrosso. Enquanto gravava a música, Amaury Linhares, produtor cultural e coordenador do selo Sensorial Centro de Cultura, que trabalhou por anos com Ney, sugeriu que o cantor somasse nas vozes. De acordo com ele, os sons se encaixaram. E assim foi feito: em novembro do ano passado, eles se encontraram para gravar a música no Malibu Studios, no Rio de Janeiro. Laura diz ainda não acreditar que tudo isso aconteceu – “ainda bem que tem foto para provar pra mim mesma”, ela brinca. Isso porque, para ela, Ney sempre foi referência artística. Enquanto conversávamos, por telefone, ela contou que em sua frente tinha vários discos tanto dele quanto do Secos e Molhados, estampados nas paredes de sua casa.
Referências intuitivas
Projetar nas gravações os ruídos de vinis foi vontade de Laura: “os vinis são a minha base”. Nesse disco, ela diz que participou de todos os processos e conseguiu imprimir sua personalidade e “mergulhar no universo desses ruídos, do som do martelinho do piano”. Além disso, ela fala que é “um trabalho onde mostro mais meu lado compositora”, com um discurso mais adulto. “O primeiro disco é mais pop, tem muita instrumentalização. Esse, não. Ele é mais suspenso, minimalista. Eu fui entendendo que não precisa de muita coisa para passar a mensagem que eu quero. Ela, na verdade, está na sensibilidade.” Durante a audição do disco, presente também está sua referência na música mineira. “Meu jeito de compor é muito mineiro, cheio de acorde”, ri. E isso, para ela, se faz presente de maneira intuitiva.
Acreditando que “quando junta, vira potência”, Laura chamou Raul Misturada para a produção de “Sede da manhã”. “O Raul é diferente, ele pensa fora da caixinha. Tudo é diferente. Eu fiquei encantanda com a maneira que ele desconstrói as coisas.” Junto com as referências que Laura já tinha, Raul foi incrementando uma outra sonoridade que completava o que Laura já imaginava. Foi ele também que sugeriu que César Lacerda fizesse participação na música que dá nome ao disco. Canção também que fecha o disco deixando o recado: “eu quero mesmo é me fazer feliz”. A outra participação é de Clara Castro, que compôs “Juntos só” com Laura. Essa música, de certa forma, mostra o fazer música como a única possibilidade de dizer o que ainda está agarrado e, com ela, atravessar as avenidas da cidade em busca de algo ou alguém.


‘Sede da manhã’ tem um cenário
“Temporal”, feita com Nêga Lucas, ganhou, recentemente, um clipe com a assinatura do coletivo Grilla!, coprodução d’OAndardeBaixo, direção de Pri Helena, fotografia e captação de imagem de Filipe Fontes e direção de arte de Rebeca Figueiredo. Tanto a música quanto o clipe revelam um ambiente circense. “Dundun”, parceria com Juliana Stanzani, por sua vez, já foi gravada por Carolina Serdeira e recebe uma nova roupagem. “Vulcão e cometa” é de Laura com Dudu Costa. “Hoje”, de Taiguara, é a única música que ela não assina. A voz sussurrada, também presente em “Ondes”, acompanha todas as músicas. O disco tem um cenário que a própria Laura descreve: do ouvir sozinho, em um quarto, com uma penumbra. Colar o ouvido no som para sentir cada camada, os ruídos mesmo.
Ela fala que esse é o seu trabalho dos sonhos. Além da participação de Ney Matogrosso, Laura já admirava os músicos que foram convidados para compor o instrumental de “Sede da manhã”: Lautaro Michaux (piano), Paulo Monarco (guitarra) e Federico Puppi (cello). O que faz com que ele seja “perfeito do início ao fim”, como ela diz, é que ele também será lançado em formato de vinil.
‘Disco é fotografia do momento’
Duas músicas foram lançadas em formato de single. Laura acredita que isso é o que gera certa curiosidade para saber sobre o que, afinal, o disco inteiro vai falar. Ela ainda acredita na história apresentada por discos. “Eu sou do disco. Mesmo lançando música antes, é o todo que faz sentido.” Por isso, só decide que é momento de começar a produzir um disco quando consegue fazer uma seleção de músicas que conversam sobre uma mesma história. Mas ela também acredita que “disco é fotografia do momento”. O que foi registrado é o que ela tinha para dizer agora. Quais os próximos rumos a serem seguidos, é impossível decifrar. O contato que ela estabelece com outros músicos em Juiz de Fora, de acordo com ela, é essencial em todo esse processo, partindo das composições, sua zona de conforto, até sua presença no palco, lugar onde ela tem necessidade de estar. “É observando o trabalho do outro que eu aprendo. Compor, para mim, é absorver e devolver aos outros o que senti.”











