Nada no balaio Questão de tempo
No bom filme Meia-noite em Paris, Woody Allen embarca seu alter ego em um velho Peugeot rumo ao passado. Ao lado do cineasta francês Jean Cocteau e ouvindo Cole Porter tocar piano, ele participa de uma roda de conversa com Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway e T.S. Eliot. E o filme segue retrocedendo no tempo até a belle époque, sempre em busca das ilusões perdidas.
Guardada as devidas proporções, na quinta-feira embarquei em um ônibus da linha Santa Catarina-Bom Pastor. Não tinha pretensão alguma a não ser chegar em casa o menos molhado possível. Também não era meia-noite. Quando muito, umas 22h. Entre os companheiros de viagem, ninguém importante. Uns poucos estudantes e trabalhadores após mais um dia de labuta.
Tudo transcorria na mais completa normalidade até que atentei para o conteúdo exibido em uma pequena TV afixada logo atrás do banco do motorista. Lá passava um comercial convidando as pessoas para participarem da Expofeira Agropecuária de Juiz de Fora, realizada no final de agosto. Continuei olhando e, para minha surpresa e felicidade, apareceu a notícia da vitória do Cruzeiro.
Como o personagem de Woody Allen, esqueci completamente a sina de dez jogos sem nenhuma vitória e continuei a leitura. O time estrelado havia batido o Ceará e estava pronto para pegar (e vencer) o Atlético-MG. Estava ali minha ilusão de chegar à Libertadores e, na pior das hipóteses, à Sul-Americana. Era possível, claro, afinal não tínhamos terminado a primeira fase do Brasileirão.
Como ainda não tinha chegado ao meu ponto, olhei para um lado e para outro para ter certeza se aquilo poderia ser real. Pensei em perguntar para o cobrador sobre a rodada do meio da semana. Quem sabe algo tivesse mudado? Mas meus companheiros de viagem permaneciam os mesmos. As coisas estavam nos seus devidos lugares. Desci do ônibus. No bar da esquina, uma turma assistia a um jogo. Ouvi um comentário: A vitória do Atlético complica o Cruzeiro. Pena ter desembarcado.









