‘O mais importante é a humildade’
Um dos ícones do jiu-jítsu mundial, Carlson Gracie Júnior esteve em Juiz de Fora na última semana para ministrar uma palestra para os amantes do esporte. Aos 44 anos, 41 deles dedicados às artes marciais, ele é filho do lendário mestre Carlson Gracie e neto de um dos fundadores do Brazilian Jiu-Jitsu (BJJ), Carlos Gracie. Carlson Gracie Júnior é faixa-preta quinto grau em jiu-jítsu, faixa-preta de judô e graduado em educação física pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Por seis anos fez parte da Seleção Brasileira de luta livre olímpica e greco-romana, além de, atualmente, ser o líder mundial das academias Carlson Gracie.
Em entrevista à Tribuna, ele comentou sobre a evolução do MMA (Mixed Marcial Arts) nos últimos anos, as mudanças que o esporte sofreu, o cenário brasileiro no UFC (Ultimate Fighting Championship) – principal competição de MMA da atualidade – e deu dicas para quem se interessar em ingressar no mundo das lutas.
Tribuna – Nos últimos anos, o MMA ganhou muita popularidade em todo o mundo. Qual é a razão desse crescimento tão grande?
Carlson Gracie Júnior – O ser humano, por natureza, gosta de luta. Todo mundo gosta de combate, de desafio. E eles (Dana White e os managers do UFC) conseguiram unir esporte, o MMA, e entretenimento. Não é mais a brutalidade que era antes, que o pessoal lutava sem luva, que valia chute na cara quando os atletas caiam no chão. Era um verdadeiro "vale-tudo", as pessoas se matavam no ringue. Hoje, os lutadores têm estratégia. É possível vencer a luta sem buscar somente o nocaute. Não tem um lutador que entra para "cair na porrada". Hoje em dia é um esporte de fato. Acredito que o crescimento surgiu pela oportunidade que os atletas tiveram para construir uma vida. O evento passa na televisão. Se você tem uma academia, seus alunos aparecem no vídeo. Ganhou visibilidade. Ao mesmo tempo, há muitos aventureiros, gente que faz academia de MMA, mas não sabe nada do esporte. Todos querem lutar, fazer uma academia e aparecer na TV. Mal ou bem, teve muita gente que ganhou dinheiro dessa forma.
– O caminho para o vencedor de MMA é buscar academias e técnicos diferentes para se especializar?
– Para ser bom no MMA é necessário ter um carro de frente. Ser bom em um estilo. Precisa ter sua parte forte, até para o seu adversário ter receio. Se eu sou bom no chão, o meu adversário tem que ter medo de ir para o chão comigo. Tem que se fazer respeitar. O caminho para se tornar um lutador de sucesso é
dedicação, humildade e disciplina. Além disso, treinamento duro, alimentar-se bem, ficar longe das drogas, do álcool e do fumo e ter um bom treinador é essencial. Mas o mais importante é ter humildade. Nunca pense que você é o melhor. Sempre vai haver alguém treinando para te vencer. Quanto melhor você fica, melhores são seus adversários.
– Algumas pessoas classificam o MMA como um esporte violento. O que você acha disso?
– Eu não acho violento. Cada lutador, quando entra, sabe o que está fazendo. O MMA é um encontro de lutas. Não é violento. As luvas ajudam a proteger. Se fosse, o boxe também seria violento. É uma luta justa. Você entra lá para lutar, sabe o dia, sabe quando irá entrar e se prepara para isso. Outra coisa que é importante destacar é que as pessoas têm níveis diferentes de resistência. Existem os "queixo de vidro" e os de "pedra". Depende da pessoa. No jiu-jítsu, tem pessoas que são estranguladas e não batem (no chão ou no corpo do adversário, sinalizando que está desistindo da luta). É de cada um.
– Hoje o Brasil possui apenas um cinturão, com José Aldo (peso pena), no UFC, o principal evento de MMA no mundo. Por que isso aconteceu?
– Como o esporte tomou uma proporção imensa, o mundo inteiro possui interesse em praticar e ganhar o dinheiro. A fama atraiu muita gente. Há muitos atletas se dedicando em todo mundo. Você vai a um camping de treinamento e vê pessoas de todos os lugares. É difícil manter a hegemonia do Brasil. A quantidade de pessoas que treina nos Estados Unidos é absurda. Todo fim de semana tem show de MMA, amador ou profissional. Tem show de MMA no botequim. As pessoas estão ganhando dinheiro. Sabe aquela história dos "Gladiadores do novo tempo"? É isso mesmo. Você paga ingresso, bebe e fica vendo dois caras se matando. Lá (nos Estados Unidos) não tem uma peneira grande para quem sabe lutar, mas muita gente tem o sonho. Além disso, o UFC comprou todos os sonhos. Unificou os objetivos. É difícil o cara aparecer.
– Recentemente, no Rio de Janeiro, um atleta de MMA morreu quando se preparava para a pesagem. Apesar da causa da morte ter sido um AVC hemorrágico, o que você acha que pode ser feito para que esses dias antes da pesagem sejam menos sofridos para o lutador? Algum tipo de mudança no sistema poderia ser realizada?
– O lutador é que escolhe. Você pode lutar no seu peso, mas tem gente que quer entrar e lutar em uma categoria 10kg abaixo. Aí, vai ter que se matar na pesagem. Uma sugestão seria a realização da pesagem no dia da luta. Não sei. Não tenho nenhuma ideia formada sobre isso. O pessoal do show mesmo não está muito aí para o atleta, só quer ganhar dinheiro. Essa é a realidade.
– O que você acredita que pode ser feito para que o MMA cresça ainda mais no Brasil?
– Tem muito pouco show de grande calibre aqui. Penso que as empresas deveriam investir no esporte. Todo mundo gosta de ver a "pancadaria", e o UFC dominou. Talvez o investimento no MMA possa ajudar.
– Falta incentivo?
– O Brasil deveria incentivar mais o esporte. O Brasil não incentiva em nada, não só na luta. Eu, quando competia, era do time de luta olímpica e tive que colocar bastante dinheiro de meu bolso. Um país com tanta grana, cadê o dinheiro para o esporte?
– Alguns críticos acreditam que o MMA está fragilizando outras lutas, como o karatê, o taekwondo e o próprio jiu-jítsu, mas notadamente o boxe, que era a mais lucrativa entre todas as artes marciais até pouco tempo. Como você enxerga esse fenômeno?
– O karatê, o hapkidô e o taekwondo até podem estar sendo fragilizados. O jiu-jítsu, não. Até porque o que o lutador de MMA mais precisa é o jiu-jítsu. Um atleta só de jiu-jítsu até pode entrar no evento. Vai correr risco, mas pode. Tem que saber pelo menos para proteger o rosto, para não sofrer na trocação. Agora, um cara só do karatê, por exemplo, não tem como. Vai apanhar.









