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Aos peladeiros de plantão


Por RENATA DELAGE

07/07/2013 às 07h00

Ao registrar em livro algumas das muitas histórias vividas no campo de futebol – ou nos caminhos que levaram a ele -, Renato Dantas gostaria de acrescentar, ao final de cada uma, nome e telefone das "testemunhas". "São todas histórias verídicas", garante o engenheiro civil, que, felizmente, foi dissuadido da ideia pelos amigos. Dantas lança, nesta segunda-feira, o livro "Pega, goleiro!", composto por 61 divertidas passagens que envolvem sua estreita e apaixonada convivência com o mundo da bola, ilustradas pelo chargista da Tribuna, Mário Tarcitano. A obra, independente, é a segunda assinada pelo engenheiro, também autor de "Papo de bola", de 2006. E ele garante ter ainda outros tantos casos para contar.

As chacotas, imprescindíveis nos campinhos de pelada, já dão as caras no título. "Tenho feito muitos gols ultimamente. Então, antes da bater alguma cobrança de bola parada, grito ‘pega, goleiro!’, para dar a ele alguma chance de se defender", brinca o engenheiro "artilheiro", lembrando que a tática poderia ter sido adotada, por exemplo, pelo craque Neymar, na bela cobrança de falta que resultou em um dos gols na partida contra Itália, na primeira fase da Copa das Confederações. "Neste caso, seria ‘pega Buffon!’", ri.

Vascaíno de coração, Dantas não se furta, entretanto, de relembrar bons momentos vividos ao lado de amigos botafoguenses, tricolores, flamenguistas ou torcedores de outros tantos clubes, com os quais pôde estreitar laços em suas andanças pelo país, já que morou em diferentes regiões.

"Quando estava recém-casado, morava em Vitória, no Espírito Santo. Lá pelas três e pouca da tarde, no domingo, me bateu aquele vontade de jogar uma bolinha. Era minha primeira semana de casado, não podia falar que ia jogar bola e também não conhecia ninguém na cidade. Imaginei que na praia de Camburi certamente haveria uma pelada", conta. "’Vamos tomar um sorvetinho, amorzinho’?, sugeri. Enquanto tomava o sorvete, vi a movimentação dos peladeiros e pensei: ‘Vai faltar um para completar o time’. Não deu outra. Faltou um. Tirei a camisa e fui jogar na hora", completa.

 

 

Dribles e rivalidade

Os amigos da cidade são, na maioria dos casos, protagonistas das passagens de "Pega, goleiro!". "Na década de 1980, Marcinho Itaboray fazia residência médica no Hospital Miguel Couto, no Rio de Janeiro e, quando acabava seu aprendizado diário, ia para uma padaria no térreo do prédio do ‘Jornal do Brasil’, aguardar o amigo Rodrigo Barbosa sair do JB, onde trabalhava, para tomarem uma cervejinha", lembra. Num desses dias, Itaboray acabou prestando um favor como médico a um fotógrafo do jornal, amigo de Barbosa, que o colocou dentro do campo do Maracanã durante dez anos para assistir às partidas do seu Botafogo.

"Num dos jogos, o Botafogo perdeu para o América, e o Marcinho, de cabeça inchada, desceu até os vestiários e, ao cruzar com o Abel Braga, treinador do Botafogo da época, tascou-lhe a pergunta: – Abelão, foi a substituição errada que você fez que motivou a derrota?", recorda. "O Abel, com todo aquele seu tamanho, pegou no braço do Marcinho apertando com força, olhou pro lado e falou: – Ô Kléber Leite (que era repórter da Rádio Globo e estava ali cobrindo o jogo), é por causa de umas bostas dessas que a imprensa está desse jeito!", conta Dantas, que, no livro, continua a história.

Algumas passagens remontam aos anos 1970, época na qual as equipes de futebol de campo e de quadra do curso de engenharia da UFJF eram imbatíveis. "As olimpíadas universitárias eram um evento", lembra Dantas. No ano em que foi fundado o curso de educação física, a final do campeonato foi entre os calouros da educação física e o temido time da engenharia. "Eles eram fortes, atletas mesmo, bem diferentes da gente", ressalta Dantas. O treinador da equipe da engenharia, João Pires – falecido em junho deste ano – logo avisou que quem fosse pego no Vivabela (boate que ficava na Avenida Rio Branco) não entraria em campo, não tinha discussão. "Quando o João Pires chegou à boate à noite, lá estava o time inteiro. Ele teve que voltar atrás e deixar todo mundo jogar", ri. "Mesmo de ressaca, tendo que jogar água fria na cabeça, ganhamos de 4 a 0. Conheço alguns dos meus ‘oponentes’ até hoje e sei que eles me cumprimentam meio de nariz virado", provoca.

A rivalidade acirrada em campo, demonstrada em tantas histórias, é o que acaba por agregar e encantar os que se envolvem com o universo da bola. "No esporte, você perde e ganha, reclama, briga, mas faz amizades, aprende valores, como respeito e união", constata Dantas. "Na hora da pelada, vou sempre brigar pelo lateral, não tem jeito. Mas as desavenças vão sempre ficar ali."

 

PEGA, GOLEIRO!

Lançamento nesta segunda-feira, 8 de julho, às 19h. Espaço Cultural do Clube Bom Pastor

(Rua Senador Salgado Filho 313 – Bom Pastor)