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Meia juiz-forano do Tupynambás relata volta ao futebol após ter coronavírus

Gabriel Sá foi o primeiro atleta do clube a testar positivo durante a Série D; diretor do Leão reforça necessidade de atenção até após o isolamento e comemora ausência de quadros graves


Por Gabriel Silva, estagiário sob a supervisão do editor Bruno Kaehler

03/01/2021 às 07h00

2 Gabriel Sá foto reprodução instagram
Gabriel Sá foi contaminado na véspera do início da Série D. (Foto: Reprodução Instagram)

No dia 24 setembro, o meia Gabriel Sá, 18 anos, foi diagnosticado com coronavírus após testes entre o elenco do Tupynambás, na véspera do confronto contra o Palmas, em Tocantins, pela segunda rodada da Série D do Campeonato Brasileiro. Nos 14 dias seguintes, o atleta permaneceu em isolamento domiciliar, distante do centro de treinamento do clube no Bairro Poço Rico. Três meses após a contaminação, o jovem jogador juiz-forano relatou à reportagem da Tribuna a preocupação inicial com o diagnóstico e a dificuldade no retorno aos gramados, mesmo com a pouca idade e o condicionamento físico de um esportista de alta performance.

Os primeiros casos de coronavírus no Baeta, após a paralisação imposta pela pandemia, foram registrados ainda em julho. Na época, quatro atletas estavam infectados, constatados logo na primeira rodada de testes do clube visando o retorno às partidas do Campeonato Mineiro, em campanha que levou o Tupynambás ao rebaixamento. Dois meses depois, o vírus voltou a circular pelo centro de treinamento do Leão, com os diagnósticos de Gabriel Sá e, uma semana antes, do supervisor do clube, Cleudes Barbosa. Apesar disto, o clube foi um dos que menos registrou profissionais positivados durante a quarta divisão nacional.

“Quando saiu o meu resultado e deu positivo, eu não tinha tido contato com ninguém que eu conhecia e já tinha tido Covid”, conta Gabriel Sá. “Eu fiquei um pouco assustado. Primeiro, com medo de ter algum sintoma mais forte, e depois com medo de passar para alguém da minha família que pudesse ter um problema mais sério”, relata o atleta. Felizmente, o período de isolamento domiciliar foi completamente assintomático, ainda que ele estivesse preocupado com familiares. “Fiquei isolado no meu quarto durante 14 dias, tomando todos os cuidados para não passar para ninguém daqui de casa”, recorda.

Acostumado com a rotina de treinamentos desde a adolescência, o juiz-forano teve que conviver com um cotidiano completamente diferente. Apesar de ainda conseguir se comunicar com os colegas pela internet, a sensação permanente era a de isolamento. “Parece que você fica por fora de tudo e acaba que você tenta mandar mensagem, mas não é a mesma coisa”, diz Gabriel.

“Você perde muito a questão física”

No último dia 13, o piloto Lewis Hamilton voltou a disputar um Grande Prêmio (GP) de Fórmula 1 após ficar fora do GP anterior por ter sido infectado pelo coronavírus. O campeão mundial foi o terceiro colocado na prova de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, encerrando a temporada na F1 com mais um pódio. No entanto, ao final da prova, Hamilton se disse esgotado e ligou o alerta para os efeitos colaterais da Covid-19. “Estou destruído”, resumiu o britânico.

O juiz-forano Gabriel Sá reforçou o relato do automobilista britânico e, à Tribuna, disse que também sentiu maior desgaste após o retorno ao centro de treinamento do Leão do Poço Rico. As duas semanas de tratamento foram suficientes para perder resistência e massa muscular. “Quando eu voltei, eu me sentia muito mais cansado. Corria menos e desgastava mais. Eu consegui voltar (ao condicionamento normal) com pouco tempo de treino. Mas é bem complicado no princípio”, conta.

Experiência atípica

O chefe do departamento médico do clube, Marco Aurélio Saggioro del Papa, o Dezoito, esteve na linha de frente do controle do vírus dentro do Tupynambás durante os últimos meses. Fisioterapeuta de formação, o profissional coordenou todas as áreas do clube visando as adaptações exigidas pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para evitar surtos no CT do Poço Rico. “Seguimos todos os protocolos, fora o exame de Covid-19 que era feito até duas vezes na semana. Dentro do clube, a gente estava bem protegido”, avalia.

O departamento médico do clube adaptou os espaços comuns, com barreiras de transposição e separação de espaços dentro da estrutura do Tupynambás, além, claro, da disponibilização de álcool gel. O protocolo da CBF também estabelece o procedimento no caso de atletas testarem positivo para o vírus. “Se (o jogador) fizer o teste e der positivo, deve ter isolamento total durante dez dias. Se, durante esses dez dias, ele ficar assintomático, volta aos treinos. Mas se tiver algum sintoma, são 14 dias (de isolamento)”, explica Dezoito, que era o responsável por enviar os testes para a CBF e manter contato com o grupo de especialistas da confederação.

O caso do meio-campista Gabriel Sá foi a regra entre os atletas do Tupynambás contaminados, segundo o chefe do departamento médico. Foram quatro jogadores infectados durante a campanha na Série D, índice considerado baixo, sendo que nenhum evoluiu para quadro grave de Covid-19. “Se eles (atletas) não entendessem o risco que eles estavam correndo e que estavam passando para a família deles, a gente não teria esse êxito. Isso é mérito do grupo de jogadores, da comissão técnica e todo mundo que estava trabalhando com o futebol”, celebra.

‘Temos que nos preocupar sempre’

Ainda conforme Dezoito, a retomada aos treinamentos dos jogadores infectados foi realizada com rápidas transições para o retorno aos trabalhos com bola, sem um trabalho muito diferente em função do tempo parado por conta do vírus. “As preocupações eram algumas. Passamos a quarentena questionando os atletas sobre como estavam, e todos relatavam estar assintomáticos. Quando voltavam, tivemos períodos de transição muito rápidos e, de acordo com a progressão individual, as coisas iam andando. Alguns atletas se sentiam mais cansados ao fim dos treinos, mas apenas esse desgaste físico maior logo após voltarem, nada grave. Não houve tonteiras e mal-estar, então foi fora do padrão do que temos visto pelo mundo”, explica.

A preocupação do departamento médico do Baeta, no entanto, naturalmente ultrapassava a observação das respostas físicas de cada um. “Buscamos conversar todos os dias, de manhã e de tarde. Mantivemos contato entre os atletas e também o preparador físico Bruno (Peterson) para saber como estavam. E não podíamos pressionar muito, tem todo esse aspecto mental também. Nunca questionamos se eles estavam ruins, mas perguntávamos o que sentiam. Mexe também com o psicológico”, destaca Dezoito.

O chefe do departamento médico do Tupynambás conta, ainda, que segue em contato com a CBF para se manter atualizado sobre os casos em outros atletas, por exemplo. “Parece que em alguns atletas houve uma demora maior pra voltarem ao ritmo de treino e de jogo. E estamos vendo, por exemplo, pessoas com trombose, um quadro que aumentou muito e pós-Covid. Então temos que nos preocupar sempre. Mas, graças a Deus, correu tudo bem no Tupynambás, mesmo sendo algo muito novo, não tínhamos experiência.”