Com vagas à vista, metalúrgico muda perfil


Por BÁRBARA RIOLINO

21/04/2013 às 07h00

De menina dos olhos a motivo de frustração, o setor da metalurgia volta a ser a aposta da indústria juiz-forana. Otimistas, empresários da área calculam a abertura de seis mil novos postos de trabalho em dois anos e meio, elevando o número de nove mil metalúrgicos na cidade para 15 mil, até 2015. Os especialistas atrelam este crescimento às recentes instalações de indústrias na cidade, como a Codeme e a Brafer, e à promessa de crescimento da Mercedes-Benz, que abre caminho para negociações junto a outras empresas, que atuariam como fornecedoras da fábrica, há cerca de um ano destinada à produção de caminhões. A corrida pelas vagas, porém, promete tomar novo rumo desta vez: em um mercado onde prevalece aquele que domina a tecnologia, a cidade volta seus olhos para a qualificação.

O recente anúncio do investimento de R$ 10 milhões feito pela Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) em formação e qualificação de mão de obra em duas unidades do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) fortaleceu ainda mais esta perspectiva. Para o gerente do Centro Integrado de Desenvolvimento do Trabalhador (CIDT) Luiz Adelar Scheuer, Ricardo Aloysio e Silva, o retorno da metalurgia é uma realidade. "Vivemos em um momento em que voltamos ao princípio da criação do Senai, que era atender a este setor, porém, temos uma visão muito mais positiva e tecnológica. Este investimento é crucial, pois uma das razões escolhidas para uma empresa se instalar em uma determinada localidade é a facilidade em capacitação e, consequentemente, contratação."

Por meio do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), o Senai disponibiliza seis cursos voltados para a formação de profissionais para atender ao setor. Quanto ao número de pessoas capacitadas, em 2012, a unidade disponibilizou ao mercado 1.160 profissionais e, para este ano, trabalha com a previsão de outros 1.778. "Aliado à formação técnica, temos procurado oferecer o reforço escolar em matemática e português, pois a tecnologia exige melhor escolaridade. Além do contato com as máquinas, eles terão de emitir relatórios, documentos e projeções", explica Ricardo. O projeto para expansão das atividades está em fase de aprovação na Prefeitura, mas a expectativa é de que os efeitos sejam sentidos ainda em 2013.

O Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais – Campus Juiz de Fora (IF Sudeste MG) promove, anualmente, processo seletivo para o curso técnico de metalurgia e, a cada 12 meses, injeta no mercado cerca de 50 técnicos da área. O curso é oferecido em duas modalidades: integrado, que ocorre junto ao ensino médio e tem duração de três anos, e modular, com duração de dois anos, que é realizado à noite e voltado para pessoas que já concluíram o segundo grau e buscam maior capacitação.

Segundo a coordenadora do curso, Gláucia Franco Teixeira, a metalurgia está entre os quatro mais procurados na instituição. "Perante às novas tecnologias, temos buscado atualizar a grade curricular, porém, mantendo as disciplinas e trabalhando, em sala de aula, estas mudanças. Percebo que o curso tem atendido de maneira satisfatória à demanda local, e os alunos, mesmo estudando, já são chamados para estagiar nas empresas. Com o aporte do Governo para a obtenção de novos equipamentos, pudemos colocar alguns mais modernos e semelhantes aos que eles podem vir a utilizar no futuro."

"O mercado siderúrgico e metalúrgico está agressivo no que tange à exigência do profissional cada vez mais qualificado", comenta o gerente de Recursos Humanos, Qualidade e Meio Ambiente da ArcelorMittal, Ricardo Schmidt. Para ele, o setor está fortalecido, e investir em talentos é a linha que a empresa tem seguido. "A Arcelor possui um programa de retenção de talentos. Procuramos oferecer cursos para estimular a capacitação e criar benefícios para melhor atendê-las."

Quanto às posturas de trabalho, o gerente ressalta que os estagiários tem chegado à empresa bem- -preparados, com visão tecnológica e a informática muito desenvolvida. "O mercado está muito mais dinâmico do que há 20 anos. A Arcelor estuda a possibilidade de ampliar o programa de estágio de 120 vagas por ano para 150. Destas turmas, chegamos a aproveitar até 70% destas pessoas em nossa empresa, e hoje eles representam 10% da força de trabalho."

O novo perfil do metalúrgico também é percebido pelo Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Metalúrgicas de Juiz de Fora e Região (Stim). Segundo o presidente João César da Silva, o profissional da década de 70 e 80, quando a cidade fez sua primeira grande investida na área, é totalmente diferente do que temos agora. "Hoje mudou para melhor, muito em função da exigência do mercado: ter profissionais qualificados e especializados."

Watson Vinícius da Silva, 24 anos, que hoje ocupa o cargo de engenheiro de produção da Votorantim Metais, é um exemplo. Há quatro anos, ele entrou na empresa como estagiário, vindo do curso técnico em metalurgia do IF Sudeste. Neste período, buscou a formação superior em engenharia de produção e hoje colhe os louros desta conquista. "O curso técnico me abriu portas para o momento profissional que me enquadro hoje. Foi de extrema importância e o pontapé para minha carreira. O setor de metalurgia é promissor e tem buscado profissionais qualificados e formados em metalurgia", explica.

Já Karina Guimarães Martins, 25, está empregada na ArcelorMittal há cinco anos. Ela atua no setor de qualidade da empresa e está cursando faculdade para crescer ainda mais na área. "A empresa também oferece cursos internos para que possamos estar cada vez mais qualificados." O operador de produção júnior, do setor de aciaria da ArcelorMittal, Otávio Loth da Costa, 22, também é personagem desta história. Ainda cursando o técnico, foi aproveitado pela empresa e está na corrida para aperfeiçoar a formação. "O curso técnico me proporcionou muito conhecimento para a área e uma base muito forte para o meu trabalho. Pretendo me capacitar ainda mais."

 

Mercado quer trabalhador com visão tecnológica

O sentimento de consolidação do setor metalúrgico em Juiz de Fora caminha a passos largos. Motivadas pela retomada da Mercedes-Benz, três de suas empresas fornecedoras já procuraram a Prefeitura, sinalizando o interesse de se instalarem na cidade. Ainda sem divulgar nomes, o secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Geração de Emprego e Renda, André Zuchi, adianta que são empresas nacionais, de porte médio e que já atendem à Mercedes em São Paulo.

No entanto, para o secretário, somente a vinda de mais uma grande empresa para a cidade irá garantir o processo de consolidação. "O nosso carro-chefe hoje é o metal mecânico, mas um cinturão econômico não se forma da noite para o dia. Precisamos de mais uma grande empresa, uma âncora, para consolidar o setor. Esta área ficou por muitos anos em baixa, e, para se reverter esta curva, é preciso, no mínimo oito anos. Passamos quatro anos com relativo sucesso."

O cenário da Mercedes hoje, na visão de Zuchi, é totalmente distinto do visto quando a montadora instalou sua planta para automóveis em JF. "O projeto atual é bem-sucedido. Os R$ 500 milhões iniciais já foram investidos, e há o projeto de se criar o Centro de Operações de Logística (COL). Quando se trata de desenvolvimento, não se pode parar." A Tribuna procurou a Mercedes para confirmar as movimentações, mas não obteve retorno.

Para o presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e do Material Elétrico de Juiz de Fora (Sindimetal-JF), José Tadeu Feu Filgueiras, a instalação de empresas fornecedoras da Mercedes é fundamental para efetivar os novos postos de trabalho esperados. "Juiz de Fora busca há muito pela identidade no setor metalúrgico e pretende se tornar uma cidade com perfil e vocação para a metalurgia."

O cenário, no entanto, não é tão positivo para o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Metalúrgicas de Juiz de Fora e Região (Stim). "O sindicato espera que as propostas se concretizem primeiro, antes de estimar os benefícios", diz o presidente João César da Silva.

 

Três fornecedores estudam JF

 

Para sindicato, salário é entrave

Na visão do presidente do Stim, João César da Silva, por mais vetores que existam para formação dos profissionais de metalurgia, existe o entrave da remuneração, que não é atrativa. "A mão de obra qualificada produzida é exportada para outras cidades, que oferecem melhores condições. Os empresários do setor precisam entender que um bom salário não é custo, é investimento profissional. Com o setor apontando boas perspectivas, temo que as novas indústrias esbarrem na questão salarial." Na última quarta-feira, inclusive, 900 funcionários da Mercedes-Benz paralisaram as atividades como forma de pressionar por uma revisão salarial, equiparando vencimentos de funcionários que, segundo o sindicato, exercem a mesma função.

 

Projeção

Considerando a projeção do Sindimetal-JF, em 2015 a cidade somaria 15 mil funcionários no setor. O secretário de Desenvolvimento Econômico, André Zuchi, prefere apostar em cinco mil novas vagas, totalizando 14 mil. "Isso se todos os planos de investimentos derem certo, considerando a chegada de novas empresas e a expansão da Mercedes. Mas se houver a consolidação do setor, com a vinda de outra âncora, tudo muda, podendo dobrar a quantidade já existente."