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Narradores de memórias: jornalistas locais relatam ‘reprises’ de jogos de clubes de JF

Rogério Corrêa, Márcio Guerra, Paulo César Magella, Ronaldo Dutra Pereira e Ailton Alves narram, de cabeça, grandes duelos que presenciaram


Por Gabriel Silva, estagiário sob supervisão do editor Wendell Guiducci

03/05/2020 às 07h00

Nem Pelé, nem Neymar, tampouco Romário e Bebeto. O filme que habita o imaginário de torcedores futebolísticos juiz-foranos explora a memória afetiva e traz outros protagonistas: Nequinha, Magalhães, ou, que tal, Felipe Surian? Na ausência de documentação de vídeo com os 90 minutos de várias partidas históricas realizadas em gramados de Juiz de Fora, a reportagem da Tribuna recorreu à memória de quem viveu presencialmente passagens marcantes do futebol local para “reprisar” duelos grandes – ou nem tanto -, como tem sido feito pelas TVs nesses tempos em que a pandemia do coronavírus não permite jogos e, consequentemente, suas transmissões ao vivo. Oportunidade para histórias, públicas ou privadas, marcarem espaço em linhas que ganham vida pela escrita de quem se acostumou a eternizar momentos do esporte local.

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Ronaldo Dutra Pereira foi editor de esporte da Tribuna e do “Diário da Tarde” (Foto: Olavo Prazeres/Arquivo TM)

Pancadaria e título

por Ronaldo Dutra Pereira

Em meados da década de 70, o futebol de Juiz de Fora dava mostras de que poderia ressuscitar da letargia que o acometera desde os fins da década de 60. O campeonato regional disputado pelo Tupi e vários outros clubes de diversas cidades da região teve uma decisão entre o Carijó e o Biquense (de Bicas) disputado no belo campo do adversário do Tupi, que, apesar de não ter uma grande arquibancada, era muito bonito, cercado por um enorme bambuzal. Se o time de Juiz de Fora tinha um grande elenco, o adversário não ficava para trás. Iniciado o jogo desabou sobre a cidade um grande temporal, mas, apesar da chuva, nem a torcida e muito menos os jogadores se importaram com isso, o que interessava era ser campeão.
Antes dos 15 minutos, o juiz-forano Edson Samarone, um craque, marcou 1 a 0 para o Biquense, aproveitando-se com oportunismo de uma bola recuada que parou em poça d’água. Daí para frente o Tupi partiu para cima, e o adversário, inteligentemente, pôs em prática um forte esquema defensivo que, apesar de não ser uma retranca, foi muito eficiente. O Tupi não se conformou com a situação e tentou de todas as forma chegar ao empate, que lhe daria o título (o saldo do time era melhor do que do adversário). O drama se estendeu por todo o primeiro tempo e quase todo o segundo. Mas o Tupi tinha um jogador, que era um craque, que havia herdado a habilidade futebolística do pai, Magalhães, e, inconformado com a derrota, quase no final do jogo, empatou a partida com um golaço feito do bico da grande área, apesar da entrada violenta de um zagueiro do Biquense.
Era o título com o qual não se conformaram torcedores e alguns diretores do Biquense. Invadiram o campo, pressionando de todas as formas, até com ameaça de agressão ao árbitro Lindolfo José da Veiga, que foi salvo pela intervenção de policiais. Contudo ele estava preocupado, a sua Variant estava na rua, parada em frente ao estádio. Temeroso de que algum torcedor mais exaltado pudesse destruir o veículo, procurou alguém conhecido na beira do campo e me viu. Correu na minha direção com a chave da Variant na mão e me pediu quase que desesperado: “Ronaldo, por favor, pegue meu carro que está lá fora e fuja com ele para Juiz de Fora, antes que ele seja destruído. À noite eu passo lá no ‘Diário da Tarde’ e pego a chave com você”.
E assim foi feito. Por volta de meia-noite ele chegou à redação do jornal, pegou a chave comigo e leu em primeira mão a matéria que eu tinha escrito sobre o jogo. Deste dia em diante ele se tornou um grande amigo, com quem convivi por muitos anos até ter perdido sua pista. Hoje ele deve regular idade comigo, 80 ou pouco mais, mas há algum tempo não o tenho visto. Restou na minha lembrança aquele jogo que terminou em grossa pancadaria, mas com o Tupi campeão.

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Rogério Corrêa é narrador esportivo da TV Globo (Foto: arquivo pessoal)

Tupi 2 x 1 Atlético MG (22-07-1984)

por Rogério Corrêa

Nequinha não era um centroavante brilhante, nem titular absoluto. Acertava e errava com a mesma frequência. Por causa disso, não foi titular no principal jogo do Tupi em 1984. Começou no banco.
O adversário era o Atlético, que tinha João Leite, Nelinho, Luisinho, Reinaldo, Éder… Era um timaço – tão grande que, mesmo fora de casa, usou a camisa listrada, o uniforme número um. O Tupi jogou de branco no Estádio Salles Oliveira.
A capacidade do estádio crescia nesse tipo de confronto. As arquibancadas ganhavam um acréscimo, com estrutura metálica, criando uma parede humana atrás do gol.
Foi dali, de pertinho, que o torcedor viu o Atlético sair na frente, com Roberto Biônico, que comemorou provocando a galera carijó. Mas o nome do jogo foi outro.
A bola veio da esquerda. Subiu como um balão e desceu na meia lua. O criticado Nequinha estava lá. De lado para o gol. Matou a bola no peito com categoria. E, antes dela cair, virou o corpo e chutou forte, de canhota. O ótimo João Leite se esticou, mas não defendeu. A bola entrou no limite, tocando a grama, perto da trave. A tal parede humana explodiu atrás do gol. O gol foi espetacular. Pode procurar na internet. Nequinha entrou para história do Tupi. O gol dele foi “o gol do Fantástico” naquele domingo, 22 de julho.
E mais: Nequinha ainda garantiu a virada, de cabeça. O segundo gol dele serviu para valorizar o primeiro. Por 2 a 1, o Tupi venceu um dos maiores times da história do Atlético.
Nequinha não virou um jogador incontestável. Depois das semanas de fama, voltou a ser cobrado. Tomou outros ares e jogou por anos em outros times do interior – alguns modestos, daqueles que nem sonham em disputar um Estadual.
Volta e meia, alguém lembrava daquele domingo histórico e sugeria o retorno de Nequinha ao Tupi. Ele seria capaz de repetir a façanha? A pergunta ficou sem resposta. Nequinha foi convidado, mais de uma vez. Mas, talvez magoado com as críticas, nunca voltou.

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Ailton Alves é autor do livro “A saga dos carijós” (Foto: arquivo pessoal)

O dia do milagre

por Ailton Alves

Ninguém dá conta de que está prestes a ser contemporâneo de um milagre. Lucia, Francisco e Jacinta não sabiam no que daria aquele passeio. Os peregrinos que ouviam Jesus não imaginavam quanto peixe havia no Mar da Galileia. E os 1.927 carijós que foram ao Estádio Mário Helênio, naquele 28 de maio do ano da Graça de 2006, não imaginavam o que estava por vir.
Eram, em sua maioria esmagadora, homens e mulheres de pouca fé. E motivos para tanta desesperança havia aos montes: o Tupi vinha de uma derrota bisonha (em Itabira) e para subir à Primeira Divisão teria que ganhar por dois gols de diferença do Juventus, o Rio Branco teria que vencer o Mamoré (em Patos de Minas) e o Uberaba não poderia derrotar o Valeriodoce (em Uberaba). Impossível! – ou quase.
Milagres, quando acontecem, ou fatos extraordinários, que existem, têm um começo banal. Como o atabalhoado goleiro do Juventus, que na cobrança do escanteio ao invés de agarrar a bola a jogou para o alto, como se quisesse que Felipe Surian cabeceasse para o gol. Tupi 1 a 0.
Mas, o milagre, quando acontece, é precedido de sacrifícios. O Juventus empatou, Felipe Surian foi expulso e o primeiro tempo acabou, com a vitória parcial do Rio Branco e o empate sem gols em Uberaba.
É sabido que os milagres, quando acontecem, podem vir em dobro. Os meninos de Fátima ganharam, além da aparição, três segredos; os seguidores de Jesus tiveram pães, além de peixes, e Leandro Guerreiro fez o segundo gol do Galo, quase ao mesmo tempo do segundo gol do Rio Branco – gols que felizmente insistiam em não sair em Uberaba.
E os milagres, quando acontecem, são seguidos de pequenas dádivas, quase uma outra graça. Naquele dia, no Mário Helênio, Allan, o atacante do Tupi, vencido pelo cansaço, pediu para sair do jogo. Veio à beirada do campo e fez esse pedido, quase uma súplica, ao técnico. Zé Luiz, no entanto, clarividente, mandou que ele voltasse à partida. Dois minutos depois, Allan recebeu uma bola de Ronaldo, reuniu suas últimas forças, avançou, mirou o canto direito e chutou no esquerdo. E os deuses do futebol, assim como o Deus único, escreveram certo por linha – ou trajetória da bola – torta.

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O diretor de imagem institucional da UFJF, Márcio Guerra (Foto: Gustavo Tempone)

A preliminar é o que valeu

por Márcio Guerra

30 de outubro de 1988. Se eu tivesse que escolher a partida inesquecível da minha vida, não tenho menor dúvida de citar que foi o jogo de inauguração do Estádio Municipal Radialista Mário Helênio: Sport 2 x 0 Tupi. Sim, esse foi o jogo mais importante. Flamengo e Argentino Juniors fizeram o jogo principal, mas que acabou sendo secundário para aqueles de nós que víamos no estádio a chance do futebol de Juiz de Fora se tornar profissional. Sem falar da rivalidade que deu ao Verdão o privilégio de ser o primeiro vitorioso e o primeiro a marcar um gol no Estádio Municipal. Isso a história vai sempre contar.
A festa de inauguração foi programada com todo o cuidado pelo prefeito à época, Tarcísio Delgado, e nós, jornalistas. Sim, tudo que foi feito pelo estádio foi compartilhado com os jornalistas esportivos. Da obra à festa. E tudo que foi organizado para a rodada dupla aconteceu com antecedência. Isso é importante, porque o Tupi, até hoje, chora a derrota, dizendo que seu time principal foi fazer um jogo amistoso em Cabo Frio.
Time reserva num clássico foi a “opção” dos dirigentes do Galo. Mas quem jogou a abertura do estádio foi o Tupi, jogadores com a camisa do clube. E o Sport não teve participação na decisão. Fez o seu papel, prestigiou o estádio e deu um sacode no rival.
Os torcedores que lotaram as arquibancadas e morros do Municipal eram flamenguistas. Mas a torcida do Verdão estava lá, com muitas bandeiras, abaixo das cabines de rádio, à esquerda. Eu, à época, trabalhava como repórter da TV Globo e narrei os dois jogos. Gritar o gol de Ronaldo e, depois, o de Guto, é uma recordação que nunca mais vou deixar ser apagada da minha memória. Sabia que aquele momento estava entrando para a história. Além disso, como diretor de comunicação do Sport, vi meu nome entrar para a placa de bronze que está lá no saguão do estádio. A vitória do Flamengo, depois, foi só um detalhe. A preliminar foi o que valeu.

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O editor-geral da Tribuna, Paulo Cesar Magella, no tempos de narrador de futebol (Foto: arquivo pessoal)

Estica o gol, moreno!

por Paulo César Magella

Nas muitas viagens pelo país afora, especialmente pelas Gerais de Rosa, foram várias as situações vividas por mim e pela equipe de esporte da Rádio Solar AM – hoje CBN. Cito a Solar, pois, ao longo destes 46 anos de Juiz de Fora, só atuei nesta emissora, a despeito do respeito e admiração pelos colegas das demais rádios. Em muitos desses momentos, vivemos situações alegres e críticas juntos.
Poderia falar de jogos memoráveis, como a vitória do Tupi sobre o Atlético-MG no Estádio José Procópio Teixeira, com um antológico gol de Adil, que foi pauta para uma monografia de uma aluna da Facom da UFJF, ou destacar a vitória do Flamengo sobre o Botafogo na decisão do Brasileiro, quando o destaque foi uma tragédia: com o Maracanã lotado, um grupo de torcedores despencou das arquibancadas em cima da geral, ou ainda a inauguração do Municipal, em 1988, narrando Flamengo x Argentinos Juniors. Não dá para esquecer a despedida de Zico, também no Mário Helênio, numa goleada sobre o Fluminense.
O jogo da minha vida, na verdade, foi apenas um detalhe, pois os momentos que o antecederam é que me levam a essa crônica. Foi em Alfenas, no Sul de Minas, entre Alfenense e Tupi. Os dias anteriores à partida foram tensos, porque dirigentes do Tupi, temendo alguma ação fora dos gramados, pediram o exame antidoping da equipe da casa. A imprensa deu destaque, e como a Globo de Juiz de Fora era a única que pegava em Alfenas – ainda não havia a EPTV de Varginha -, a matéria chegou à cidade com grande repercussão.
Não deu outra. Como era comum, chegamos com antecedência ao Estádio para instalação dos equipamentos. Já percebendo o clima hostil, com faixas por todos os lados repudiando a mídia de Juiz de Fora, deixamos o carro num posto de gasolina logo na entrada da cidade, a cerca de um quilômetro do estádio, na mesma avenida. Já na portaria fomos interpelados por um dirigente que nos indagou se éramos da televisão. Ante a negativa, nos avisou: “se fossem, já iriam apanhar aqui mesmo”. E o que o Tupi havia denunciado aconteceu: eles se recusaram a fazer o exame.
Fui para a cabine, e os repórteres, para o gramado, enquanto Abílio Ângelo, nosso motorista e técnico de som, instalava o equipamento. Para minha surpresa, um segurança, do tipo três por quatro, ficou ao meu lado. Pensei, “beleza, estão garantindo nossa segurança”. Antes mesmo de a bola rolar, ele me disse em tom sinistro: “vim aqui para acompanhar a sua narrativa”. O clima pesou, e o jogo também, pois o Tupi, já no início, levou o primeiro gol.
Como é comum entre os narradores – pelo menos era assim no rádio -, o goooool do time de nossa cidade era longo, vibrante, recheado de emoções. O do adversário era um simples gol seguido de algum tipo de reclamação. E seria assim, quando comecei a narrar o primeiro gol da Alfenense. O segurança, com a “autoridade do tamanho”, olhou para mim e disse: “estica o gol, moreno”. Fazer o quê? Não só estiquei como narrei o lance como se fosse a favor do nosso Galo Carijó. Pior, não seria o único. Tive que fazê-lo por outras quatro vezes, porque o placar foi 5 a 2 para a Alfenense. Os dois gols do Galo foram narrados em tom de velório.