Ouça agora

JF na rota de trabalho de estrangeiros


Por Gracielle Nocelli

09/12/2012 às 07h00

Português Kléber Sousa é auxiliar de cozinha

Português Kléber Sousa é auxiliar de cozinha

A crise econômica no exterior, aliada ao apagão de mão de obra e à farta oferta de empregos no Brasil tem provocado um fenômeno de inversão do fluxo migratório. Se antes brasileiros viajavam para Estados Unidos e Europa em busca de melhores condições de trabalho, hoje, estrangeiros visam nosso país como garantia de segurança e possibilidade de crescimento. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), até setembro deste ano foram concedidas mais de 55 mil autorizações de trabalho para profissionais estrangeiros no Brasil, sendo 89% permanentes e 11% temporárias. O número já representa 82% do total de autorizações concedidas em todo o ano de 2011 (66.391).

As estatísticas revelam ainda que a maior parte desses profissionais estrangeiros é constituída por homens, com ensino superior completo, nascidos em países como Portugal, Espanha e Itália. Dados do último Censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, apontam que 1.050 estrangeiros residem em Juiz de Fora. Deste total, 31,3% têm entre 20 e 59 anos, faixa etária economicamente ativa.

Com cerca de 4.200 vagas em aberto, a maioria em funções que exigem baixa qualificação, o município de Juiz de Fora está na rota dos destinos procurados por estes imigrantes que, em boa parte das vezes, aceitam chances de inserção no mercado de trabalho em funções que oferecem salários incompatíveis com a qualificação que possuem. O salário médio pago em Juiz de Fora é de R$ 1.494, segundo dados do Ministério do Trabalho, 8% abaixo da média salarial em Minas, de R$ 1.621,75.

Em 2008, em plena crise econômica em Portugal, Kléber Marcel Sousa, 35 anos, se mudou para Juiz de Fora. Filho de mãe brasileira e pai português, ele diz que imaginou que seria mais fácil conseguir emprego na cidade. "A empresa em que eu trabalhava fechou e a situação ficou muito difícil", relembra. Ele conta que, apesar de ter feito cursos com chefes de cozinha franceses, ter atuado diretamente em vinícolas e ter gerenciado um grande restaurante em Lisboa, só encontrava vagas para fazer "bicos" em estabelecimentos daqui. "Só depois de muito tempo mostrando na prática o trabalho que fazia é que consegui ser contratado com carteira assinada".

Atualmente, atua como ajudante de cozinha em um hotel da cidade. Kléber conta que não descarta a possibilidade de um dia voltar para Lisboa. "Penso nisso, mas sei que vai demorar. A crise em Portugal é econômica e política. Meus amigos que estão lá contam que há muitos protestos, os cidadãos estão revoltados e a situação continua muito difícil. As pessoas estão perdendo emprego, carro e casa." Durante a estadia no Brasil, ele pretende se qualificar mais. "Vou iniciar a faculdade de sistemas de informação no próximo ano", adianta. "É muito importante estarmos sempre aprendendo, conhecendo coisas novas", completa.

A dificuldade de Kléber em conseguir uma colocação no mercado juiz-forano foi semelhante à enfrentada pelo jordaniano I.T. , 36 anos, que preferiu não se identificar. Formado em administração de empresas e com fluência em inglês e francês, ele veio para o país transferido pela organização em que trabalhava em 2000. "Na época, eu viajava muito pelo Sudeste e conheci várias cidades da região, inclusive Juiz de Fora." Em 2008, quando a organização passou por um corte de 400 funcionários, I.T. perdeu o emprego e decidiu se mudar com a família para cá. "Sabia que a cidade era tranquila e segura para criar meu filho."

Mas, segundo ele, as oportunidades de emprego para estrangeiros são muito escassas. "De início, eu não aceitava trabalhar em uma área que não fosse da minha formação. As empresas não são receptivas para quem vem de fora." I.T. conta que, depois de ouvir muito "não", começou a procurar vagas em outras áreas. "Hoje sou vendedor em um supermercado. Gosto muito do que eu faço e das pessoas que convivo, mas a remuneração é baixa diante do custo de vida da cidade", afirma.

 

 

Oportunidades são restritas, diz economista

Para o economista Carlos Henrique Paixão, Juiz de Fora é polo atrativo pela qualidade de ensino, segurança e infraestrutura. "Mas o mercado de trabalho ainda possui oferta de postos qualificados aquém da demanda de mão de obra especializada". Paixão destaca que as oportunidades para estrangeiros ainda são muito restritas. "Não se trata de xenofobia, pelo contrário, nós acolhemos muito bem outros povos. Mas, aqui a concorrência entre pessoas qualificadas é grande e as empresas ainda dão preferência àquelas que já têm vínculo local, seja por tradicionalismo ou receio de que os imigrantes retornem ao país de origem antes da conclusão de um projeto."

Na sua avaliação, mesmo quando são muito capacitados os estrangeiros acabam preenchendo vagas que estão ociosas. "Setores como comércio e serviços têm apresentado dificuldades para contratar e, por isso, são os primeiros a absorverem esta mão de obra. São segmentos em que estes profissionais não encontrarão remuneração compatível com a especialização que possuem."

A responsável pelo setor de relações internacionais do Instituto Metodista Granbery, Diana Fernandes, ressalta que, na procura por emprego em Juiz de Fora, os europeus têm maior dificuldade para serem admitidos. "As empresas, independente do porte, ainda têm o conceito de que o europeu possui maior ambição salarial e não conseguirá falar português fluente." Em contrapartida, segundo ela, imigrantes africanos encontram mais chances. "São poucas as oportunidades, mas como alguns já falam português e ainda existe a ideia errônea, por parte dos empregadores, de que eles aceitam ser mão de obra barata, mais portas se abrem."

Ela informa que, para o estrangeiro trabalhar formalmente no Brasil, precisa ser naturalizado ou ter dupla cidadania, ser casado com brasileiro(a) ou ter visto de trabalho a convite da empresa que o contratou. "Estudantes intercambistas não podem exercer atividades remuneradas", destaca.

Aaron Amono, 26 anos, é um dos estrangeiros que espera a conclusão do curso superior para poder trabalhar na cidade. Natural de Kinshasa, na República Democrática do Congo, ele cursa o oitavo período de engenharia civil da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). "Estou aqui há quatro anos e vejo que a cidade oferece muitos projetos na área. Além disso, estamos próximos às capitais que terão este mercado aquecido com a realização dos grandes eventos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas." No entanto, o estudante ainda não sabe se pretende ficar no país por muito tempo após o término da faculdade. "É uma decisão difícil de ser tomada. Meu país está crescendo e ter estudado aqui me dará um grande diferencial no mercado de trabalho de lá."