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Éramos tão jovens


Por JÚLIO BLACK

12/09/2014 às 06h00

songs of innocence marca a volta do u2 apos cinco anos sem lancar albuns

“Songs of innocence” marca a volta do U2 após cinco anos sem lançar álbuns

Relevância é uma dessas palavras que, quanto mais velho se fica, parece tornar-se mais frequente na vida da pessoa. Quando se trata de arte, então, é um mantra a ser perseguido. No caso do U2, a maior banda de rock do planeta, com quase 40 anos de existência e lançamentos de álbuns cada vez mais esparsos numa era de informação pulverizada e efêmera, fica a pergunta: basta apenas fazer barulho como o do lançamento de “Songs of innocence”, seu 13º trabalho, para serem ouvidos? A resposta é não, e eles sabem disso. É preciso também fazer um grande álbum, e foi o que Bono Vox (vocal), Adam Clayton (baixo), The Edge (guitarra) e Larry Mullen Jr (bateria) conseguiram, em um trabalho que pode entrar facilmente no top 5 de grandes discos do quarteto irlandês – e isso não é lugar-comum de crítico musical. O álbum é bom, mesmo, muitos degraus acima de seu antecessor, o mediano “No line on the horizon”, de 2009.

As primeiras declarações do vocalista davam conta de que este é o trabalho mais pessoal do quarteto, remetendo musical e historicamente ao passado. Ainda de acordo com Bono, a inspiração para o disco veio da audição contínua de vários artistas do punk rock do final dos anos 1970 e início dos 80, além de Joy Division e a emergente música eletrônica da época. Já a produção envolveu alguns dos nomes mais procurados da atualidade, como Danger Mouse (do Gnarls Barkley), Paul Epworth e Ryan Tedder, além do antigo parceiro Flood.

A evocação aos tempos antigos aparece logo na faixa de abertura, “The miracle (of Joey Ramone)”, homenagem ao ex-líder dos Ramones, falecido em 2001, uma das grandes influências dos primórdios do U2 e, segundo Bono, o sujeito que o ensinou a cantar. Com um “ôôô” daqueles que ajudam a inflamar estádios e a guitarra poderosa de The Edge, o vocalista homenageia o ídolo em versos como “Eu acordei no momento em que o milagre aconteceu/Ouvi uma canção que fez sentido neste mundo/Tudo que eu havia perdido retornou/O som mais lindo que já havia ouvido”. A faixa seguinte, “Every breaking wave”, é uma das canções do projeto abortado “Songs of abscence”; trata-se de uma balada sobre relacionamentos e amadurecimento; em seguida, vem a calorosa “California (there is no end to love)”, lembrança da primeira viagem do U2 ao estado norte-americano, no início dos anos 1980. Ela começa com vocalização no estilo dos Beach Boys e resulta numa bela peça pop ao lembrar do pôr do sol de sangue alaranjado da costa do Pacífico.

“Song for someone” é sobre o primeiro amor – o que remete à esposa de Bono Vox, Ali, que ele conheceu ainda aos 13 anos – e musicalmente lembra alguns dos melhores momentos de “All that you can’t leave behind”, de 2001. O passado retorna naquela que talvez seja a faixa mais confessional do álbum: a exemplo das antigas “I will follow” e “Tomorrow”, “Iris (hold me close)” é sobre a mãe do cantor, que morreu após desmaiar durante o funeral do avô dele. Dessa vez, porém, é a visão de um homem adulto sobre como sua mãe influenciou sua vida, mesmo tendo se passado 40 anos de sua perda. As guitarras de The Edge, por sua vez, também passeiam pelo saudosismo, com dedilhados que lembram “Where the streets have no name”. “Volcano”, com sua guitarra pulsante, traz de volta o tradicional falsete de Bono, no mesmo estilo que se ouvia na igualmente dançante “Lemon”.

O pai, o filho, os amigos e The Clash

A política, um dos temas mais caros ao quarteto, aparece em “Raised by wolves”, em que o U2 lembra da explosão de três carros-bomba em uma área residencial de Dublin, no que seria mais um final de tarde de uma sexta-feira qualquer. O saudosismo volta a marcar sua presença em “Cedarwood road”, rua onde o líder da banda passou sua infância e que serve de homenagem a um de seus amigos desde essa época, Guggi Rowan: um dos momentos mais felizes, artisticamente falando, do álbum. Com a mesma qualidade, mas com um tom sombrio, “Sleep like a baby tonight” fala sobre um homem triste com os rumos do mundo – que poderia muito bem ser o pai de Bono Vox. Outro nome do punk rock, The Clash, é reverenciado em “This is where you can reach me now”, fruto da lembrança de um show do grupo liderado por Joe Strummer que os quatro – então adolescentes – acompanharam em 1977. Numa tentativa de soar artisticamente como o Clash do clássico “Sandinista!”, a letra lembra que “rendição é nossa única arma”.

“Songs of innocence” é encerrado pela climática “The troubles”, que tem participação da cantora Lykke Li e trata de redenção, um dos temas que mais marcaram a carreira de quase quatro décadas da banda irlandesa. E faz valer a pena todo o esforço do U2 para se adequar aos dias atuais, quando o déficit de atenção parece não ser mais uma doença e sim um modo de vida de toda uma população que caiu na rede de computadores, tablets, celulares e afins. Se toda a estratégia de marketing fizer o ouvinte parar para apreciar o novo trabalho dos irlandeses, ela terá valido a pena.