População envelhece, e faltam cuidadores
Após sofrer um infarto, Marlene Tozatto, 79 anos, foi submetida a cirurgia cardíaca, ficou hospitalizada por mais de mês e precisou de ajuda profissional. Diagnosticada com a chamada síndrome da fragilidade, ela havia perdido peso, apresentava dificuldade para se locomover e precisava iniciar o processo de reabilitação. Até então, nunca havia pensado sobre a falta de profissionais qualificados para atender idosos como ela. Por indicação de um amigo da família, conheceu uma fisioterapeuta gerontóloga, que, segundo ela, possui o que considera imprescindível no trato com o idoso: "carinho".
Dona Marlene teve sorte. Uma professora universitária aposentada, que prefere manter o nome sob sigilo, enfrenta uma saga que dura 11 anos. A mãe dela, de 90 anos, sofre de Alzheimer e, apesar das inúmeras tentativas, encontrou apenas um profissional capacitado para cuidar dela. "Há muitas pessoas despreparadas." Como a senhora exige atenção irrestrita, três cuidadores se revezam na assistência, mas apenas um, na sua opinião, consegue estimulá-la da forma devida. "Tivemos vários cuidadores, alguns até a maltrataram. Mamãe aparecia com manchas roxas, por causa de tombos. Certa vez, chegou a levar 20 pontos na cabeça e, mesmo com cuidador, fugiu de casa." Os gastos com a senhora chegam a R$ 5 mil por mês, incluindo acompanhamento de profissionais, como fonoaudiólogo, fisioterapeuta e nutrólogo, além de atendimento hospitalar domiciliar. Cada cuidador recebe um salário mínimo, fora benefícios, como adicional noturno. "A família não aguenta ficar o tempo todo e precisa da ajuda de uma pessoa que goste, seja capacitada e esteja sempre atenta." Para ela, ver a sua mãe nas mãos de pessoas despreparadas é frustrante.
Apesar de a população envelhecer de forma acelerada – em Juiz de Fora, o crescimento populacional é maior entre os idosos (45,6% em dez anos) do que nas demais faixas etárias -, a oferta de profissionais qualificados parece não acompanhar este ritmo. Na falta de dados municipais para dimensionar a carência de mão de obra especializada, sobram indicadores de crescimento deste público em potencial. Em 2000, os idosos representavam 10,6% da população da cidade. Em 2010, chegaram a 13,6%, totalizando mais de 70 mil pessoas, conforme Censo Demográfico do IBGE. Neste intervalo que contempla uma década, o crescimento populacional recuou 8,6% na faixa até 20 anos, subiu 17,2% no intervalo entre 20 e 29 anos e atingiu 21% de alta considerando as pessoas entre 30 e 59 anos.
O ganho de fios brancos, via de regra, é acompanhado pela necessidade de auxílio profissional. Segundo o Diagnóstico Socioeconômico da População Idosa de Juiz de Fora, 3/4 dos idosos têm algum problema de saúde. A maioria (63,5%) apresenta ao menos uma doença crônica. Para 20,4% dos que passaram dos 60 anos, independência/autonomia é um problema. O estudo da UFJF, realizado pelo Centro de Pesquisas Sociais em parceria com a Pro-Reitoria de Extensão, apontou, ainda, que 2,8% dos idosos não conseguem deitar e levantar da cama sozinhos, 3,5% têm dificuldade para ir ao banheiro, 4,6% para vestir-se, 5,7% para tomar banho e cerca de 10% para tomar os remédios prescritos. O percentual de dificuldade aumenta em atividades como preparar a própria refeição (18,4%), sair de casa utilizando transporte (19,9%) e realizar caminhada de curta distância na rua (24%).
Despreparo
"Não estamos preparados, de fato, para atender, com qualidade, às demandas que as pessoas idosas trazem para todos nós", atesta o gerontólogo e assistente social José Anísio Pitico da Silva. Em Juiz de Fora, avalia, a oferta de profissionais qualificados é "muito tímida". Pitico cita como exemplo o fato de existirem cerca de cinco geriatras na rede pública municipal para 70 mil idosos. Na rede de assistência privada, considera, a situação não é muito diferente. Com a experiência de ter despertado, há 25 anos, para a necessidade de direcionamento do olhar aos idosos, Pitico preocupa-se com a rapidez do envelhecimento populacional no país, sem a devida retaguarda de políticas públicas para atender os direitos dos mais velhos. "A sociedade dá de ombros à essa nova realidade em que essa população, predominantemente ativa, está querendo envelhecer de outra forma. Os "novos velhos" querem outro tipo de inserção social. A figura do pijama e do tricô não corresponde mais à realidade. Nós queremos uma velhice ativa, digna, participativa e cidadã."
Ganho inicial é 18% maior que de doméstico
Os cuidadores de idosos representam 10% dos cerca de 20 mil trabalhadores domésticos da cidade, segundo estimativa da Associação das Empregadas Domésticas de Juiz de Fora. O ganho inicial deles é 18% maior ante os demais, pelos cálculos do advogado da associação, Manoel Divino Ferreira Leal. Enquanto os domésticos costumam receber o salário mínimo (R$ 678), os cuidadores iniciam no mercado ganhando em torno de R$ 800 para jornada de oito horas diárias. Os vencimentos aumentam em caso de trabalho noturno, por exemplo.
Apesar da tramitação do Projeto de Lei (PL) 4702/2012, de autoria do senador Waldemir Moka (PMDB/MS), visando a regulamentação da profissão de cuidador de idoso, até hoje a atividade é considerada uma ocupação dentro do trabalho doméstico, sujeita às regras previstas na PEC das Domésticas. O projeto de lei foi aprovado no Senado e aguarda parecer da Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados. A matéria prevê o desempenho da função de acompanhamento e assistência exclusiva à pessoa idosa pelo trabalhador com mais de 18 anos, ensino fundamental completo e qualificado por curso de formação. "O cuidador, no exercício de sua profissão, deverá buscar a melhoria da qualidade de vida da pessoa idosa", diz o texto.
Na Associação dos Cuidadores de Idosos de Minas Gerais há seis mil profissionais cadastrados. O número, no entanto, é considerado insuficiente para atender a demanda, que chega a 150 famílias por mês em Belo Horizonte. Em muitos casos, é necessário mais de um profissional para cuidar de um idoso, elevando a procura na cidade para algo em torno de 300 cuidadores/mês. "Infelizmente, temos muita dificuldade para conseguir o encaminhamento de pessoas qualificadas e com aptidão", reconhece o presidente da entidade, Jorge Roberto Afonso de Souza Silva.
‘Cuidador público’
O parágrafo único do artigo 6º do PL 4702 prevê a atuação do cuidador não apenas em domicílios, instituições de longa permanência, hospitais e centros de saúde, mas também a parceria com equipes públicas de saúde. Em Belo Horizonte, a Prefeitura contratou 140 cuidadores para atuarem no atendimento domiciliar de idosos carentes via Serviço Único de Saúde (SUS), uma iniciativa desenvolvida em parceria com a Associação dos Cuidadores de Idosos de Minas Gerais. De olho no exemplo de lá, o presidente da Comissão Permanente de Defesa dos Direitos dos Idosos da Câmara Municipal de Juiz de Fora, Isauro Calais (PMN), defende a possibilidade de implementar o projeto na cidade, a partir de pleito junto ao Governo federal para incorporação dos cuidadores nas equipes do Programa de Saúde da Família. Para ele, com cem a 150 cuidadores em atuação no município, seria possível oferecer ao idoso carente da cidade melhor qualidade de vida, reduzindo, inclusive, as internações hospitalares.
A Secretaria Municipal de Saúde, por meio de sua assessoria, informa que a população idosa é atendida em duas frentes: o Departamento da Saúde do Idoso, que conta com equipe multidisciplinar, formada por gerontólogos e especialistas da área, responsável pelo atendimento direto aos usuários do SUS, e o Departamento de Internação Domiciliar, que tem como prerrogativa atender a população acamada. Sobre a possibilidade de contratar cuidadores, a informação é que o órgão acompanha o avanço do envelhecimento populacional, pensa em políticas para este grupo e não descarta a possibilidade de pleitear junto ao Governo federal a incorporação destes profissionais.
Cresce procura por cursos em JF
Apesar do nicho de mercado e da demanda crescente por cuidadores em Juiz de Fora, não há um cadastro único que possa ser usado pelas famílias da cidade. Para o gerontólogo e assistente social, José Anísio da Silva, esta seria uma medida importante, assim como estimular a oferta de cursos de capacitação dessa mão de obra.
O Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) é uma das instituições que oferecem o curso de cuidador de idoso na cidade, através do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) e do Programa Senac de Gratuidade. Até o final do ano, serão seis turmas, cada uma com 25 a 30 alunos em média. Conforme a supervisora pedagógica do Senac, Marlei Rodrigues Pires, apesar de o programa ser realizado há cerca de dez anos, o interesse é recente. "Agora está sendo mais procurado, antes não era assim. Hoje há fila para conseguir uma vaga, mas já tivemos que cancelar cursos por falta de demanda." Para 2014, há três cursos agendados, a serem realizados nos meses de março, junho e setembro, via Pronatec.
No curso oferecido pelo Senac, a psicóloga Jimilly Caputo, 26 anos, destaca-se. A jovem frequenta as aulas com o objetivo de aprimorar o conhecimento sobre envelhecimento e aprender novas técnicas de trabalho com esta população. Durante a graduação e o mestrado, Jimilly dedicou-se a analisar o comportamento dos idosos em instituições públicas e privadas. Seu objetivo profissional é criar instrumentos cognitivos para estimular os idosos. A motivação de trabalhar com este segmento surgiu a partir da convivência com duas tias idosas, de 87 e 96 anos. Sempre que pode, a psicóloga faz companhia para elas, as leva para passear e as estimula. Na sua opinião, para lidar com idosos é preciso ter paciência, respeito e, principalmente, saber ouvir. Se conquistar a confiança não é tão simples, o reconhecimento é dado como certo. "Eles não poupam uma palavra de agradecimento."
A fisioterapeuta de Dona Marlene sabe disso. Cláudia Soares dos Santos, 32 anos, costuma ser alvo de elogios da sua paciente durante as sessões. "Carinho ela tem de sobra", diz a senhora entre o levantamento de um peso e outro. Graduada em fisioterapia há sete anos, nos últimos cinco Cláudia passou a se dedicar ao envelhecimento. No final do mês passado, conquistou a titulação de gerontóloga, aumentando a responsabilidade, como diz, do trabalho realizado em três instituições especializadas e no atendimento domiciliar de idosos. "Nesse campo, é preciso que você se profissionalize mesmo, porque os idosos têm particularidades." Na avaliação da especialista, o cuidado com os mais velhos exige que o olhar vá além da patologia. "Antes do diagnóstico, o idoso é uma pessoa, com uma história de vida e uma família. É preciso olhá-lo como um todo. Eu tento fazer esse papel com criatividade, emoção e carinho."











