‘Geração Y’ inova nas relações de trabalho

A estudante Débora Cabral abriu uma empresa de publicidade junto com duas amigas
Eles são jovens entre 20 e 29 anos que acompanharam de perto o avanço tecnológico na infância e, por isso, têm domínio natural de ferramentas multimídia, grande capacidade de trabalhar em rede e habilidade de executar várias tarefas simultaneamente. Segundo levantamento realizado pela consultoria Hay Group, até 2014 a chamada Geração Y representará 50% do mercado de trabalho no país. Já dados do Censo de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que o Brasil possui cerca de 34 milhões de pessoas nessa faixa etária. Em Juiz de Fora, eles somam quase 90 mil, o que representa cerca de 17,5% da população total do município.
Uma das figuras exponenciais dessa geração é justamente um dos criadores de uma ferramenta imprescindível aos jovens: o Facebook. Aos 19 anos, Mark Zuckerberg esboçou a ideia do que viria a ser a rede social mais utilizada no mundo e, seis anos depois, tornou-se o mais jovem bilionário do planeta. Como Zuckerberg, a chegada dos representantes da Geração Y ao mercado de trabalho trouxe uma série de inovações para as relações corporativas e diferentes conceitos sobre modelo de gestão organizacional. Segundo especialistas, trata-se de um legado que ficará para posteridade. Para a diretora da Associação Brasileira de Recursos Humanos de Minas Gerais, Lara Castro, estes profissionais deixarão uma grande marca, como o modelo de gestão da hierarquia horizontalizada, a motivação por desafios e a relação mais próxima entre o patrão que ouve e o empregado que questiona."Assim como os baby boomers nos ensinaram que os resultados viriam após muito trabalho, e a Geração X apresentou a lealdade entre empregados e empregadores, os Y também vieram para marcar", destaca.
Estas características, segundo a psicóloga, aliadas ao grande consumo de informação e à motivação por desafios, desenham um novo perfil de profissional. "Eles serão sempre criativos, questionadores e buscarão uma forma de trabalho mais flexível, independente de serem empregados ou empregadores", aponta.
O estudante e empresário Hugo Rezende é um exemplo. Aos 24 anos, concilia os estudos da faculdade de sistemas de informação, na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com a rotina de empreendedor. Ele é um dos sócios fundadores da Tripé Criação, empresa que cria conteúdos para internet e está no mercado há quatro anos. "Aqui temos a liberdade de criar, inovar, e apostar nas nossas ideias. Fizemos o nosso ambiente mais descontraído e estabelecemos um modelo de gestão próprio. Sabemos que vamos trabalhar muito para que tudo dê certo, mas acreditamos nos resultados."
Filho de aposentado e dona de casa, Hugo conta que teve o apoio da família quando, aos 20 anos, decidiu abrir a empresa com dois amigos da mesma faixa etária. "Meus sócios e eu já desenvolvíamos trabalhos, cada um na sua casa. Quando as demandas aumentaram e surgiu a possibilidade de atender clientes maiores, que exigiam nota fiscal, decidimos abrir a empresa." Segundo ele, o custo inicial foi pequeno. "Nós tínhamos apenas a despesa com serviço de contabilidade", diz. Cerca de um ano depois, os jovens estabeleceram uma sede para o negócio. "Este passo só foi possível porque já tínhamos um número maior de projetos."
Hoje, Hugo também é empregador: conta com sete funcionários com faixa etária entre 20 e 26 anos. "É uma experiência interessante", avalia. Para ele, ser um "patrão Y" permite colocar em prática um novo modelo de gestão, a começar pelo próprio ambiente físico. Na Tripé Criação, a decoração é descontraída, não há salas de chefia e os empresários trabalham ao lado dos funcionários e estagiários. "Criamos um conceito de coordenar as pessoas que estão conosco, e não mandar ou controlar. Acredito que assim podemos atingir os resultados e até mesmo ter surpresas positivas", revela.
Jovens estão mais empreendedores
Na avaliação do professor e coaching em Geração Y, Leonardo Calixto, estes jovens procuram empregos em empresas com as quais se identificam, e desejam que o trabalho proporcione a eles o sentimento de pertencimento. "Eles demonstram fidelidade, comprometimento e envolvimento com as tarefas quando sentem um objetivo bem definido." Caso contrário, garante o especialista, estes novos profissionais buscarão outros rumos.
Entre as alternativas para a carreira da Geração Y está o empreendedorismo. "Estudos mostram que brasileiros com idade até 29 anos têm empreendido muito mais do que há dez anos atrás", afirma o gerente regional do Sebrae, João Roberto Marques Lobo. "O acesso à informação está mais fácil para esta geração, estes jovens sabem de casos de empreendedores que deram certo e optam por seguir este caminho."
Estudo do Global Entrepeneurship Monitor (GEM), realizado em parceria com a London Business School, o Babson College e, no Brasil, Sebrae e o Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP) aponta que entre os brasileiros com idades entre 25 e 34 anos, 22,2% estavam envolvidos em algum empreendimento em 2010. Mostra também que, a partir de 2008, os jovens de 18 a 24 anos ampliaram sua participação no universo empreendedor brasileiro. Em 2010, sem considerar a faixa etária mais empreendedora, de 25 a 34 anos, os jovens de 18 a 24 anos tiveram taxas superiores a dos brasileiros com 35 anos ou mais, demonstrando a jovialidade dos empreendedores em estágio inicial. Mais da metade, ou seja, 56,9%, dos empreendedores ainda não estão na faixa etária de 35 anos de idade.
A estudante Débora Cabral, 23 anos, abriu mão do emprego com carteira assinada para tornar-se empresária antes de se formar. Estudante da faculdade de comunicação social da UFJF, no ano passado, ela e duas amigas criaram a agência de publicidade Kiwi Propaganda. "A experiência nos empregos anteriores me deu maturidade profissional e permitiu que eu desenvolvesse maior independência e confiança na tomada de decisões", avalia.
Apesar de acreditar que a última empresa na qual trabalhou proporcionava diferenciais para os funcionários, ela conta que não pensou duas vezes quando decidiu abrir o próprio negócio. "No meu antigo emprego, eu tinha grande liberdade criativa e uma boa participação na tomada de decisões, algo que talvez não aconteceria se eu trabalhasse em outros lugares", afirma. "Mas poder escolher os projetos e motivar a minha própria equipe é muito satisfatório", completa.
A jovem empresária discorda da máxima dita por alguns especialistas de que "a Geração Y, quando na condição de colaborador, tem menor fidelidade com as empresas em que atuam." "Penso que a minha geração possa ter problemas quando trabalha em companhias mais tradicionais e conservadoras. Mas há uma enorme fidelidade à marcas com as quais nos identificamos. Acredito que, dependendo da motivação que as empresas dão aos seus funcionários, os jovens podem ser excelentes para o crescimento da empresa, por serem inovadores e pró-ativos."
Prós e contras
A psicóloga Lara Castro analisa que a rapidez dos jovens da Geração Y tem prós e contras. "Se por um lado eles demonstram facilidade ao desempenhar várias funções, por outro, possuem um comportamento ansioso e exigem respostas rápidas.Desta forma, quando não recebem o reconhecimento que julgam necessário ou atingem o crescimento esperado, procuram novas oportunidades". Já o professor Leonardo Calixto destaca outros aspectos. "Como para todo ponto forte há um ponto fraco com a mesma equivalência, na arte de empreender os jovens Y pecam muito no planejamento e disciplina, mas destacam-se em criação e reinvenção."









