Onda verde esbarra no preço alto

Conciliar sustentabilidade ecológica e viabilidade econômica não é fácil para quem quer adotar um comportamento amigo do meio ambiente. Enquanto as opções de produtos ambientalmente corretos proliferam em todas as áreas – da alimentação à moda e à arquitetura -, a compra de itens deste tipo ainda pode representar desfalque no orçamento doméstico e, muitas vezes, é preciso escolher quem paga a conta: o bolso ou a natureza? Seja por falta de informação eficiente, por escassez de oferta ou de verba, consumidores em potencial ainda não se renderam ao mercado sustentável por acreditar que o custo de ser "eco-friendly" não compensa.
"O consumidor não está disposto a pagar mais por isso, mas dá preferência a um produto sustentável quando este tem o mesmo padrão de qualidade dos demais e preço competitivo", avalia o diretor do Instituto Meio, Eduardo Parente. A dificuldade é justamente conseguir reduzir preços em um mercado com número de adeptos crescente, mas ainda pequeno, com oferta escassa e dependente de meios de produção de baixa escala e, em grande parte, artesanais. "Trabalhamos, por exemplo, com uma vassoura com cabo de madeira de reflorestamento e cerdas de garrafas PET que custa 20% a mais que o modelo comum. Por isso, temos dificuldades em inseri-la no mercado."
Embora não haja pesquisa oficial que estime a diferença de preços entre mercadorias ecologicamente corretas e as demais, não é difícil identificar, em uma ida ao mercado, que essas opções são mais onerosas. A professora de pilates Juliana Amaral, 28 anos, consegue fazer a cesta de produtos alimentícios orgânicos caber em seu orçamento mensal – "porque somos só eu e meu marido. Se tivesse uma família maior, acho que não poderia ser assim" -, mas estima que a opção faça sua conta com alimentação subir cerca de R$ 200 a cada mês. "E isso porque não encontro produtos de limpeza e outros itens ecologicamente corretos."
"Se você quiser comprar produtos desse tipo no supermercado, sua conta ficará abalada no final no mês", reforça a pesquisadora do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) Adriana Charoux. "Mas o Idec entende que o sustentável não precisa e não deve custar mais caro", destaca, acrescentando que pesquisa realizada pelo órgão em 2010 apontou uma variação de 400% no valor cobrado por alimentos orgânicos comercializados em mercados, feiras e diretamente pelos produtores, com entrega em casa, sendo o mercado a opção mais cara.
"Produtos de limpeza sustentáveis, por exemplo, são infinitamente mais caros, então sugerimos que o consumidor utilize a ‘receita da vovó’: com água, vinagre branco, limão, eucalipto e essência é possível limpar a casa inteira sem agredir o meio ambiente, e com um produto com potencial alergênico muito menor que os industrializados e que sai por R$ 0,25 o litro", exemplifica. "Não dá para colocar na ponta do lápis quanto sai a conta de ser sustentável, mas percebemos que encontrar rotas alternativas de consumo é o caminho para isso."
É o caso da empresária Nádia Justi, 31 anos, que, preocupada com saúde da família e do meio ambiente, optou por cultivar uma horta em casa, com frutas, legumes e verduras. "Caso eu dependesse de comprar orgânicos, o impacto no meu orçamento me faria ter que desistir de uma alimentação saudável", conta. Foi o que aconteceu com a cozinheira autônoma Ingrid Borges, 31, que precisou abrir mão de consumir orgânicos regularmente por causa dos altos preços. "Pela pesquisa que fiz ao pesar a decisão, a diferença mensal só na compra de hortifrutis chegaria a 50%", afirma Ingrid, que, além de levantar preços em mercados e feiras livres, chegou a cogitar participar de um coletivo de consumidores que adquirem as cestas diretamente dos produtores. Porém, com a obrigatoriedade de um volume mínimo de compras mensal, a questão financeira foi decisiva para que ela desistisse.
Orgânicos podem custar o dobro
"As pessoas estão preocupadas, em primeiro lugar, com a saúde individual. A preservação ambiental aparece em um segundo nível", comenta o professor da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis da UFJF, Danilo Sampaio, pesquisador do comportamento do consumidor de alimentos orgânicos. "Quem consome produtos sustentáveis são as pessoas de nível cultural e econômico mais alto e que, surpreendentemente, não são influenciadas por outras pessoas, profissionais médicos, empresas ou mídia", destaca, sobre a pesquisa de doutorado na área realizada na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). De acordo com o estudo, o que determina a compra é o preço.
"Pessoas que não consomem alimentos orgânicos afirmaram que passariam a consumir caso fossem até 20% mais caros que os convencionais." Porém, segundo Sampaio, a média de diferença de custo é de 30%. Alguns produtos, como as massas, por exemplo, chegam a ser 100% mais caros. "Por outro lado, os sucos, que eram o dobro do preço, hoje já custam cerca de 20% mais, devido à força da população, que passou a comprar e fez o valor cair. Alguns itens continuam caros porque não têm público ou ponto de venda. Em Juiz de Fora, a maior dúvida é onde comprar, pois a cidade tem um potencial enorme de compra, mas carência de oferta. Caso os mercados tivessem sessões específicas de orgânicos, teríamos mais volume de vendas e, consequentemente, o preço cairia."
Arquitetura promete compensar diferença
De acordo com estimativas de arquitetos locais, a previsão de 20% e 30% de acréscimo nos custos também se aplica às construções ecologicamente corretas, em relação às tradicionais. Por outro lado, os especialistas acreditam que o investimento inicial é revertido em economia a longo prazo e, ainda, que não é preciso utilizar recursos tecnológicos e encarecer a obra para caracterizá-la como sustentável.
Responsável pela disciplina de conforto ambiental do curso de arquitetura e urbanismo da UFJF, Letícia Zambrano acredita que é possível substituir o "high tech" (alta tecnologia) pelo "eco tech" (tecnologia ecológica) quando o orçamento não é muito alto. "Se for um projeto de alto nível, os sistemas artificiais me darão a solução sustentável. Se for uma habitação popular, isso será feito pelas decisões inteligentes da construção. A arquitetura pode aproveitar recursos climáticos e de iluminação, por exemplo, para ter eficiência energética e demandar menos recursos artificiais", explica. "Existe a crença de que sustentabilidade é colocar painel solar, lâmpadas eficientes, descargas de duplo fluxo, e isso faz parte do pacote sim, mas quando cabe no orçamento."
Especialista em arquitetura sustentável, Júlia Hallack Sansão vê a escolha de materiais como essencial à construção ecológica. "Com a atual onda de marketing verde, as empresas têm aderido aos selos de certificação, e o aumento da produção de materiais sustentáveis tem viabilizado esse tipo de obra", explica. Ela afirma que, há alguns anos, optar por uma construção ou reforma "eco-friendly" ficava muito mais caro, porém hoje a economia resultante dos mecanismos de preservação dos recursos naturais tem feito o investimento compensar.
Sócio de uma clínica oftalmológica construída com base em princípios sustentáveis, Luiz Oscar Machado Martins apostou na ideia, desde a demolição seletiva, com reaproveitamento de materiais, à preferência por matéria-prima produzida com baixo impacto ambiental. Estratégias de condicionamento térmico foram empregadas para evitar o uso de ar condicionado, a iluminação é de LED, versão mais econômica até que a fluorescente, e as torneiras são de pressão, para não haver desperdício de água. "Pensávamos que o projeto ambientalmente sustentável tornaria a obra muito mais cara, mas os custos foram praticamente os mesmos, e os benefícios econômicos compensaram", afirma. "Por falta de informação, muitas vezes as pessoas não optam por esses artifícios", comenta Júlia, responsável pelo projeto.
Na moda, exclusividade eleva valores
Ao contrário da maioria das empresas especializadas, a juiz-forana Maria Buzina não nasceu, há dez anos, querendo ser "eco-friendly". Segundo a criadora da marca de bolsas e acessórios, Gabi Gonçalves, a opção por materiais reciclados e meios de produção de baixo impacto na natureza foi natural para alguém criado em um ambiente voltado para a sustentabilidade. Hoje, as lonas que viram coloridas bolsas são compradas diretamente do caminhoneiro, lavadas à mão com sabão neutro e secadas naturalmente antes de serem cortadas de forma manual, sem o uso de qualquer máquina. As pinturas são feitas com tinta não tóxica, e os tecidos utilizados, de algodão. O processo faz com que uma bolsa saia, em média, por R$ 250. "Oitenta por cento de nossos clientes compram por ser sustentável e diferenciado, o que agrega valor", afirma Gabi.
As escolhas da Maria Buzina se encaixam no perfil de moda ecologicamente correta, de acordo com a diretora do Instituto Ecotece – ONG especializada em criar soluções de moda que promovam o vestir consciente -, Lia Spínola. "Uma peça sustentável leva em conta os ativos ambientais e sociais envolvidos em sua produção. Sustentabilidade é olhar o ciclo de vida do produto, desde o design, passando pelos materiais escolhidos, produção, distribuição, marketing, até as etapas de uso e descarte pelo consumidor." Os mecanismos que garantem a veia "eco-friendly" em todas estas fases encarecem o produto. "Muito do que temos no mercado hoje são produtos inovadores e pilotos, que acabam sendo mais caros porque ainda não alcançamos escalas de produção. Mas já temos peças acessíveis no mercado."
Segundo Lia, o movimento de moda ecologicamente correta no Brasil é crescente, tendo se fortalecido principalmente com pequenas marcas e artesãos. "Mas existem outras maneiras de vestir-se de maneira sustentável e barata, como adquirindo peças de brechós, promovendo bazares de troca entre amigos e valorizando peças que já se tem no armário."









